Internacional

Violência sexual contra crianças em conflitos armados está a aumentar, denuncia a ONU

12 julho 2022 9:30

Borodyanka, a noroeste de Kiev

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Na designada “Lista da Vergonha” apresentada pela ONU, são apontados os responsáveis pelas violações identificadas, autoridades estatais e não estatais, bem como grupos armados. Etiópia, Moçambique e Ucrânia encontram-se entre os países de crescente preocupação devido à guerra

12 julho 2022 9:30

A violência contra crianças em países em conflito – recrutamento de crianças-soldados, assassínios, mutilações, violações, sequestros – manteve-se num nível alto em 2021, ano marcado por um aumento da violência sexual, segundo um relatório da ONU divulgado nesta terça-feira.

“Este ano, mais uma vez, duas violações (dos direitos da criança) aumentaram acentuadamente”, nomeadamente “sequestros e violações e outras formas de violações sexual (que) aumentaram tragicamente 20%”, indicou a ONU, em comunicado.

O relatório anual assinado pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, analisa vários países em conflito e identifica num apêndice, intitulado “Lista da Vergonha”, os responsáveis pelas violações identificadas, autoridades estatais e não estatais, bem como grupos armados.

Em conjunto com a Etiópia e Moçambique, a Ucrânia foi adicionada ao relatório como um país de crescente preocupação devido à guerra.

No ano passado, as Nações Unidas identificaram 23.982 violações graves dos direitos das crianças, a maioria contra meninos, incluindo 22.645 cometidas em 2021 e 1337 anteriormente.

Embora o progresso, como a libertação de crianças presas ou recrutadas, tenha sido alcançado nalguns países como Mali, Nigéria e Filipinas, as violações mais graves ocorreram no Afeganistão, na República Democrática do Congo, em Israel e nos territórios palestinianos, Somália, Síria e Iémen, de acordo com o relatório.

As organizações não governamentais (ONG) reagiram de forma negativa ao relatório de António Guterres.

“Não só o secretário-geral não incluiu os responsáveis pelos conflitos armados na Ucrânia, Etiópia e Moçambique na sua ‘Lista da Vergonha’, como o seu relatório não fornece informações significativas sobre as violações hediondas a que as crianças foram submetidas”, lamentou o funcionário da ONG Human Rights Watch Jo Becker.

“A omissão das forças de Israel, que são acusadas de assassinar 78 e mutilar 982 crianças palestinianas em 2021, da ‘Lista da Vergonha’ é outra oportunidade perdida de responsabilizá-las, pois “outras forças ou grupos armados foram listados por muito menos violações”, acrescentou.

Num comunicado, outra ONG, a Watchlist on Children and Armed Conflict, também deplorou o desejo de minimizar a responsabilidade de Israel e lamentou um “desrespeito flagrante” pelas vidas das crianças na Etiópia, Moçambique e Ucrânia, bem como noutros países devastados pela guerra.

Por sua vez, numa conferência de imprensa, a representante especial de António Guterres para Crianças e Conflitos Armados, Virginia Gamba, rejeitou as críticas ligadas a Israel, dizendo que o país havia sido avisado de que seria colocado na “Lista da Vergonha” em 2022, se não apresentar melhorias.