Internacional

Invasão do Capitólio: o comportamento de Trump “não tem precedentes” mas “há um grande apego das massas ao seu herói injustiçado”

29 junho 2022 20:51

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

A jovem ativista republicana e ex-assessora da equipa de Trump, Cassidy Hutchinson, umas das principais testemunhas a aparecer perante o comité que está a investigar a invasão do capitólio a 6 de janeiro de 2021

tom williams/getty images

Há uma parte da América "imune a qualquer facto sobre Trump", a mesma que o vê como "herói" que "quase pega em armas para fazer valer um conjunto de valores políticos" com os quais boa parte dos republicanos se identifica. Donald Trump pode ter dito as mais graves frases de qualquer líder eleito desde que a nação se formou mas não é certo que haja um caso criminal e muito menos certo ainda é a perspetiva de qualquer mossa eleitoral

29 junho 2022 20:51

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

Antes do depoimento de Cassidy Hutchinson, toda a gente sabia que Donald Trump nada tinha feito para impedir a invasão do Capitólio. Era culpado pela sua inação.

Menos de 12 horas após as revelações bombásticas da ex-assessora do chefe de gabinete de Trump, já se fala na possibilidade de consequências criminais para os atos do ex-presidente naquele dia 6 de janeiro de 2021, quando uma multidão de seus apoiantes tentou tomar o poder pelas próprias mãos, protagonizando um dos mais perigosos episódios para para a estabilidade institucional dos Estados Unidos desde o nascimento da união.

O que disse Hutchinson, afinal? A declarada apoiante do Presidente, que já tinha trabalhado para nomes republicanos tão alinhados como o senador do Texas, Ted Cruz, disse ao painel de congressistas que Trump e os principais conselheiros haviam sido informados pelos serviços secretos de que havia pessoas armadas com metralhadoras, pistolas, coletes à prova de bala e latas de spray lacrimogéneo entre a multidão reunida no comício com o nome “Parem o Roubo” - o roubo de votos em favor dos democratas.

Hutchinson disse que mesmo depois de ter recebido estas informações, o ex-Presidente pressionou os serviços secretos para que deixassem entrar mais pessoas para dentro dos perímetros de segurança, de forma a compor melhor a moldura humana à volta do palco onde iria falar. “Não me importo que eles tenham armas. Eles não estão aqui para me atingir a mim”, terá dito Trump,

Mais tarde, no fim do discurso em que pediu aos seus apoiantes que não fossem cobardes na luta pela América que desejam, Trump terá exigido aos agentes dos serviços secretos que o acompanhavam que o conduzissem até ao Capitólio, onde a sua multidão em breve daria início à vandalização do espaço que alberga as duas câmaras legislativas dos Estados Unidos da América.

Impedido de se juntar aos que por ele gritavam e em nome dele invadiam o Capitólio, Trump ter-se-á atirado ao volante, sendo restringido por um membro dos serviços secretos, que terá depois tentado agredir enquanto gritava: “Eu é que sou o Presidente, ****-**! Leva-me já ao Capitólio”. Isto é o que diz Hutchinson. O “New York Times”, por outro lado, escreve que outros agentes que estavam com Trump não corroboram as partes sobre a agressão física ao agente que tentou impedir o Presidente de virar o volante - nem a parte do volante em si.

Mas os homens que estavam a acompanhar o Presidente de volta à Casa Branca poderiam estar avisados pelos advogados da administração, se deixassem o então Presidente cessante dirigir-se ao Capitólio, onde momentos antes do motim se procedia à certificação dos votos de Joe Biden, Trump podia ser indicado por obstrução à justiça e obstrução ao ato eleitoral. O advogado da Casa Branca Pat Cipollone, já havia informado diretamente o Presidente dos riscos que corria, disse ainda Cassidy Hutchinson.

É um comportamento altamente atípico para um Presidente, mas configura crime?

Provar que Donald Trump realmente montou todo o esquema para negar a Joe Biden a sua legítima entronização através de um golpe de Estado encetado por extremistas e conspiracionistas crentes que os democratas são realmente membros de um culto satânico onde se consome sangue de recém-nascidos para preservar a juventude celular não é tarefa fácil e há duas razões que podem levar o Departamento de Justiça a abdicar de perseguir o caso. “A primeira é por falta de provas. É muito difícil provar qual o nível real de envolvimento de Trump, é tão difícil como provar corrupção. A segunda é que o Departamento de Justiça não vai querer politizar mais a situação. O grande plano dos democratas é deixar Trump desaparecer aos poucos da memória coletiva e, apesar de não estar a correr muito bem, o esforço vai no sentido de evitar que ele se vitimize mais ainda. Qualquer passo em falso vai alimentar a ideia de mártir político”, explica ao Expresso José Gomes André, professor na Universidade de Letras de Lisboa nas áreas de Filosofia Política, História do Pensamento Contemporâneo e Estudos Europeus.

Isto não significa que não existam consequências de qualquer tipo para o que se está a descortinar no Congresso com essas audiências: o Congresso pode enviar as suas conclusões ao Departamento de Justiça e o procurador-geral, Merrick Garland, já disse que tem estado atento aos procedimentos.

Por muito que já tenhamos observado o comportamento errático e reativo de Trump ao longo dos últimos anos, o caos que se estendeu pelo Capitólio e a escolha do Presidente em não se distanciar daqueles que, à procura do vice-Presidente Mike Pence pelos corredores do Capitólio, lhe iam prometendo a forca como castigo por se ter recusado a não certificar a eleição de Joe Biden, é um momento “sem precedentes na História norte-americana”, diz Bruno Cardoso Reis, coordenador do doutoramento em História e Defesa do ISCTE, em Lisboa, e da Academia Militar. “São declarações que em circunstâncias normais seriam totalmente arrasadoras. É uma traição à Constituição, completa violação de tudo o que são os princípios de transição pacífica na democracia, em vigor há mais de 200 anos”, acrescenta.

"Não há exércitos invisíveis" e o do Capitólio via-se bem

O único momento remotamente semelhante que o historiador consegue encontrar é o julgamento de Aaron Burr, terceiro vice-presidente dos Estados Unidos (1801 to 1805, sob Thomas Jefferson), que alegadamente terá conspirado para a secessão de uma parte do sudoeste do país. Burr alegou que apenas tinha intenção de tomar posse de uma terra enorme que os espanhóis lhe tinham doado e nunca ficou provado que houvesse mesmo uma insurreição armada pronta a estourar.

O principal juiz do caso, John Marshall, na explicação da absolvição, disse que “não há exércitos invisíveis” e por isso não podia provar qualquer intenção de traição à pátria. Ora, o que aconteceu no Capitólio, “foi bem visível, pela televisão e o mais grave é que, antes disso, a equipa de Trump já sabia que havia pessoas armadas entre os manifestantes e o Presidente não só não viu nenhum problema disso como até tentou desmobilizar o aparato de segurança porque sabia que as pessoas não estavam ali para lhe fazer mal a ele”, diz o investigador.

Isto deixa claro que, “desde que as ameaças não fossem sobre ele, Trump não teve qualquer problema em aceitar que pessoas armadas estavam dispostas a encetar um golpe contra a Constituição norte-americana”.

A relutância dos tribunais em agir, já focado por José Gomes André, é a polarização da sociedade norte-americana neste momento, onde os consensos nunca foram tão difíceis. “No núcleo duro pró-Trump o impacto disso será nulo, há pessoas que são imunes a qualquer argumento factual em relação ao Presidente Trump.

Quanto à liderança e aos que se têm recusado a testemunhar, como o próprio chefe de Hutchinson, Mark Meadows, acredito que o cálculo deles seja que o Trump continua muito popular e é uma ameaça séria para quem quer uma carreira no Partido Republicano”.

Julgamento moral até pode ajudar Trump

Também Diana Soller começa a conversa com o Expresso pela divisão cerrada da sociedade norte-americana e também a investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova, em Lisboa considera pouco provável que este caso possa amolgar de alguma forma a confiança que as bases republicanas continuam a depositar em Trump. Bem pelo contrário. “O julgamento moral será mais um ponto de polarização, e admito que possa ter até um contributo negativo para as pretensões democratas. Há um grande apego das massas ao seu herói injustiçado, ao homem que quase pega em armas, que vai contra as leis para fazer valer um conjunto de valores políticos com os quais uma parte importante da América que se identifica”.

Como relembra a investigadora, várias sondagens mostram que 1 em cada 4 norte-americanos acham que a utilização de violência contra o governo é “justificável” ou “provavelmente justificável”.