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Finlândia, de estado-tampão a parceiro próximo da NATO: eis “a longa história com a Rússia”

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Com uma “neutralidade armada” e uma “doutrina de Defesa total”, a Finlândia cedo aprendeu a defender-se das provocações da vizinha Rússia, com quem partilha uns largos 1340 quilómetros de fronteira. Mas a anexação da Crimeia pôs o país a repensar a sua política de segurança e a guerra na Ucrânia foi o ponto de viragem para a candidatura à NATO

31 maio 2022 16:27

Mara Tribuna

Mara Tribuna

Jornalista

“Temos uma longa história com a Rússia — não tão pacífica o tempo todo”, dizia o Presidente da Finlândia, Sauli Niinisto, já em 2014, ano em que a Rússia anexou o território ucraniano da Crimeia e ameaçou a frágil estabilidade finlandesa. “Passaram apenas 100 anos desde que obtivemos a nossa independência da Rússia. A Crimeia também fazia parte da Rússia. Irão eles tentar recuperar o que lhes pertencia há 100 anos?”, questionou nesse mesmo ano a ex-ministra da Defesa finlandesa, Elisabeth Rehn, favorável à adesão à NATO.

Desde então, a nação do norte da Europa — que partilha 1340 quilómetros com a Rússia (mais do que a fronteira Portugal-Espanha) — começou a repensar seriamente a sua política de segurança. “As pessoas costumavam pensar que a adesão à União Europeia seria suficiente para nos proteger. Mas agora isso está a ser questionado”, afirmou, em 2014, Tarja Cronberg, ex-membro dos parlamentos finlandês e europeu.

Fora da bolha protetora da NATO, a Finlândia sempre tentou preservar a sua independência e, ao mesmo tempo, manter relações próximas com a Rússia para evitar conflitos, adotando uma estratégia conhecida como “finlandização”. Mas as relações entre os dois países nem sempre foram pacíficas.

“A Finlândia só conseguiu tornar-se independente em 1917 na sequência da revolução e da guerra civil na Rússia”, começa por contextualizar o historiador Bruno Cardoso Reis. Anos mais tarde, no início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, estala a Guerra de Inverno: a Finlândia é invadida pelo Exército Vermelho de Stalin e “consegue travá-lo com uma resistência verdadeiramente nacional, mas perde algum território”. Entre 1941 e 1944 há uma nova guerra na qual a Finlândia se alia à Alemanha para tentar recuperar o território perdido (equivalente a 10% do país).

A paz entre a Finlândia e a União Soviética é finalmente alcançada em 1944, mas com um preço alto: ceder ainda mais território e comprometer-se com um estatuto de neutralidade. Isto “transformou a Finlândia num estado-tampão entre o Bloco Ocidental e o Bloco Soviético durante a Guerra Fria, ou seja, até 1991”, continua o especialista em segurança internacional.

A neutralidade foi cimentada em 1978: a Finlândia teve também de assinar o Acordo de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua com a Rússia, consolidando uma certa dependência económica e política e isolando-a militarmente da Europa Ocidental. Ao contrário da Suécia e do que às vezes é idealizado, a Finlândia foi um país neutral durante a Guerra Fria por necessidade, não ideologia. “Fomos neutrais porque tínhamos de ser”, aclara o ex-primeiro-ministro finlandês, Alexander Stubb, no ciclo de palestras “Understanding the war in Ukraine — Finland”.

Sem ser membro, Finlândia “já colaborava fortemente” com a NATO

Só com o final da Guerra Fria, que enfraqueceu a Rússia, os finlandeses puderam iniciar o processo de adesão à União Europeia, concluído em 1995, nota Bruno Cardoso Reis. Já a integração na NATO não chegou a ser uma opção. E até à guerra na Ucrânia a esmagadora maioria dos finlandeses não era favorável em pertencer à Aliança Atlântica. “Vimos como a Rússia se comporta na Ucrânia. E, claro, precisamos de considerar qual é a melhor maneira de garantir que o mesmo nunca acontecerá com a Finlândia”, declarou a primeira-ministra Sanna Marin, antes da decisão sobre a adesão à NATO.

Desde então, o apoio traduzido na opinião pública cresceu substancialmente: há seis meses, apenas 20% da população era a favor, agora a percentagem disparou para os 80%. Trata-se da taxa mais elevada desde que estes inquéritos começaram a ser feitos no país, em 1998. “A maioria dos finlandeses não viram razão para mudar essa postura de neutralidade em termos de alianças militares até à invasão russa”, corrobora Bruno Cardoso Reis.

Ainda assim, a Finlândia nunca deixou de ter “uma neutralidade fortemente armada e com um grau de parceria crescente com o Ocidente, nomeadamente com a NATO. Sem ser membro, já colaborava fortemente com a Aliança Atlântica”, acrescenta o especialista, também subdiretor do Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa.

De facto, a história da Finlândia com a NATO é muito longa. Em 1994, o país entrou para a Parceria para a Paz com a Aliança Atlântica e, ao longo dos anos, essa parceria foi alargada e aprofundada. Além disso, tanto a Finlândia como a Suécia participavam regularmente em manobras conjuntas de paz com a aliança militar, razão pela qual o secretário-geral Jens Stoltenberg disse: “Saúdo calorosamente os pedidos da Finlândia e da Suécia para aderir à NATO. Vocês são os nossos parceiros mais próximos”.

O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, durante a cerimónia que assinalou a candidatura de adesão da Suécia e da Finlândia, a 18 de maio de 2022

O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, durante a cerimónia que assinalou a candidatura de adesão da Suécia e da Finlândia, a 18 de maio de 2022

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“Doutrina de Defesa total” desde a Guerra de Inverno

Paralelamente à ligação com a Aliança Atlântica, a Finlândia nunca deixou de investir na segurança. O país “sempre praticou a neutralidade armada” e as memórias da Guerra de Inverno ainda estão vivas: foi “um marco central na cultura estratégica finlandesa”, diz Bruno Cardoso Reis. “Traduziu-se na doutrina de Defesa total, com a mobilização de toda a sociedade e de todos os meios do Estado para garantir uma resistência nacional que permita compensar a enorme assimetria de meios e população entre Finlândia e Rússia”.

O país nunca descurou a defesa das suas fronteiras e manteve sempre a prontidão das Forças Armadas: o serviço militar é obrigatório, podendo chegar até quase um ano, e o número de reservistas é dos mais altos do mundo. Quase 900 mil militares da reserva podem ser mobilizados se necessário, segundo o Global Firepower Index de 2022, que avalia a força militar de 142 nações e coloca a Finlândia em quarto lugar no indicador “reserva de mão de obra militar”.

É uma forma de uma nação de cinco milhões de pessoas se proteger de um país com uma população quase 30 vezes maior. Houve algumas provocações russas ao longo dos últimos anos: “sobretudo ciberataques e desinformação, não por acaso o Centro de Excelência em Guerra Híbrida da União Europeia está localizado em Helsínquia”, destaca Cardoso Reis. Registaram-se também algumas violações do espaço aéreo ou naval finlandês por aviões e helicópteros, navios e submarinos militares russos.

E agora que a Finlândia se candidatou à NATO são de esperar algumas provocações adicionais, antecipa o especialista em segurança internacional que ainda assim descarta um ataque militar convencional, apesar do Kremlin se ter tornado mais agressivo e imprevisível. Isto porque “a Finlândia está muito melhor preparada que a Ucrânia para essa eventualidade e seria abrir uma nova frente [de guerra], numa altura em que a campanha na Ucrânia está longe de estar resolvida”.

Já em 2014 o Kremlin avisou que a adesão da Finlândia e Suécia à NATO poderia levar à Terceira Guerra Mundial. Moscovo encara a decisão dos dois países como um desafio direto em territórios marcados como espaço neutro durante a Guerra Fria, e já repetiu as ameaças prometendo retaliar. Mas ambas as nações não cedem e a NATO ainda espera um processo de adesão “rápido”, apesar da oposição turca.