Internacional

Tudo o que não sabe sobre as eleições em França e tem vergonha de perguntar

10 abril 2022 9:54

Em França, as urnas já abriram para a primeira volta das presidenciais 2022

frederic j. brown/getty

12 candidatos, dois prováveis adversários para a segunda volta, um debate público polarizado, num contexto de pós-pandemia e guerra na Europa. Segundo as sondagens, se a abstenção concorresse, acabaria em primeiro

10 abril 2022 9:54

França vai este domingo às urnas para a primeira volta das eleições presidenciais, cinco anos depois das que elegeram Emmanuel Macron para o Eliseu. Entre essa eleição, em 2017, e a deste fim de semana, o país conheceu períodos de forte contestação social, nomeadamente do movimento gilets jaunes, os ‘coletes amarelos’, que tomaram as ruas de grandes cidades francesas no final de 2018.

Desta vez, é a guerra da Ucrânia que domina o debate e a cobertura mediática, o que levou Macron a dedicar-se nas últimas semanas à política externa, e às negociações com Vladimir Putin. A grande adversária, desta vez mais forte, volta a ser Marine Le Pen.

Quem são os candidatos?

Muitos e variados, embora poucos com hipótese de um bom resultado. No total, são 12 opções no boletim de voto, e mais de metade deles tem 5% ou menos das intenções de voto.

Dentro desse grupo está Anne Hidalgo, a presidente da Câmara de Paris e candidata do Partido Socialista francês. Mesmo com a projeção conferida pela liderança da capital francesa, Hidalgo não deverá evitar um resultado penoso para os socialistas, e tem por agora 2% das intenções de voto. No grupo dos pequenos joga também Yannick Jadot, candidato d’Os Verdes, que também não conseguiu descolar nas sondagens (5%). Os outros pequenos são Nathalie Arthaud, Philippe Poutou, Jean Lassalle, Fabien Roussel, todos à esquerda, uns mais radicais do que outros, e Nicolas Dupont-Aignan, o terceiro candidato da extrema-direita que corre nestas eleições.

Um pouco acima as contas começam a apertar, com Éric Zemmour, Valérie Pécresse e Jean-Luc Mélenchon, aqui colocados por ordem ascendente. O primeiro é um candidato da extrema-direita, que tem contribuído para tornar Marine Le Pen menos radical aos olhos da opinião pública (o que favorece a candidata do Rassemblement National). Zemmour começou com dois dígitos nas projeções, mas tem perdido gás e agora não passa dos 9%.

A segunda, Pécresse, preside à região Ile-de-France e é a representante da direita tradicional do Partido Republicano. Tem propostas económicas próximas das de Macron, mas nem assim deixou de ser engolida pela radicalização do debate político em França. Aparece também na casa dos 9%.

Por seu lado, Mélenchon, aos 70 anos, tem desta feita uma hipótese, embora improvável, de chegar à segunda volta. Candidato da extrema-esquerda do La France Insoumise, propõe o aumento do salário mínimo e a taxação das grandes fortunas. Tem por esta altura cerca de 17% das intenções de voto.

Marine Le Pen

Em França, o mais comum é a eleição fazer-se a duas voltas. E Marine Le Pen aparece, novamente, como provável concorrente nesse cenário, tal como há cinco anos. Ao contrário do pai, Jean-Marie Le Pen, Marine tem feito um esforço de moderação, sobretudo a partir do momento em que passou a falar mais sobre o aumento do custo de vida e menos sobre as guerras culturais ou o tema da imigração, tomado por Zemmour.

Candidata da extrema-direita, pela agora denominada Rassemblement National (“União Nacional”, antes “Frente Nacional”), Le Pen é anti-europeísta, anti-NATO e pró-Rússia, embora tenha tentado afastar-se de Vladimir Putin, desde a invasão russa da Ucrânia.

Está com 24% nas sondagens, o que representa uma subida nas últimas semanas e uma aproximação ao primeiro posto.

Emmanuel Macron

É ainda o grande favorito à vitória, embora não com o mesmo conforto de há cinco anos. Além do desgaste da governação, Macron tem sido acusado de ter deixado a campanha eleitoral interna fora da agenda, em parte para se dedicar à negociação sobre a questão da Ucrânia, e abrindo assim espaço à campanha da adversária principal.

Eleito pela primeira vez aos 39 anos, Macron é um dos grandes responsáveis por manter os partidos tradicionais franceses na sombra — Partido Socialista, centro-esquerda, e Partido Republicano, da direita tradicional, voltam a ficar sem hipótese de ir à segunda volta.

E se a mobilização pró-Macron na segunda volta em 2017 foi inequívoca, desta vez há dúvidas à direita (Le Pen tem prometido a redução de impostos, por exemplo) e à esquerda, que se sente traída por medidas como a eliminação de um imposto sobre a riqueza levada a cabo durante o mandato de Macron.

O presidente segue, ainda assim, em vantagem, com 26% das intenções de voto para a primeira volta.

O que se segue e por que motivos esta eleição é importante?

França é uma das maiores economias do mundo, um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (os outros são China, Estados Unidos, Reino Unido e Rússia), além de ser membro fundador da União Europeia.

No sistema francês, o Presidente tem amplos poderes, se comparado com outros chefes de Estado ocidentais, nomeadamente de controlo do poder executivo. Não só é eleito por sufrágio universal direto para mandatos de cinco anos, como é também quem nomeia o primeiro-ministro — em 2020, Macron escolheu Jean Castex, para substituir o chefe de governo demissionário, Édouard Philippe.

Além disso, França foi aproximando a data das presidenciais da das eleições legislativas, o que aumenta as probabilidades de ter no Palácio do Eliseu e na Assembleia Nacional as mesmas cores políticas, alargando a margem de manobra do Presidente.

Emmaneuel Macron mantém-se como grande favorito à vitória final

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olivier hoslet

O próximo chefe de Estado da República Francesa será responsável por coordenar a resposta europeia à guerra que atinge as fronteiras do continente e por colar os cacos económicos e sociais causados pela pandemia de covid-19. A inflação é por esta altura um dos obstáculos.

A nível interno, França e os seus mais de 60 milhões de habitantes continua dividida, num espaço amplo para as guerras culturais. A isso junta-se uma descrença no sistema político que leva os analistas a temer uma alta taxa de abstenção. Por agora, está projetada nos 27%, acima de qualquer candidato.

A primeira volta disputa-se neste 10 de abril e se alguém conseguir mais de 50% dos votos, é automaticamente eleito. O que é bastante improvável — desde 1965 que tal não acontece. Essa foi também a primeira eleição presidencial por voto popular direto, tendo servido para reeleger Charles de Gaulle.

As urnas estão já abertas e às 20h francesas (menos uma em Portugal) serão publicadas as primeiras projeções. Os resultados oficiais vão sendo disponibilizados no site do Ministério do Interior francês.

Na versão mais provável, dois candidatos seguem para a segunda volta, a 24 de abril. Seguem-se, a 12 de junho, as eleições legislativas para a Assembleia Nacional francesa, num sistema semelhante, que assim deverá dar também origem a uma segunda volta, a 19 de junho.