Internacional

México: número de jornalistas assassinados este ano já é igual ao de 2021

17 março 2022 9:54

Manifestação na Cidade do México contra os jornalistas assassinados no país

edgard garrido/reuters

O México soma 152 assassínios de jornalistas desde 2000 e até agora

17 março 2022 9:54

O assassínio a tiro de um jornalista em Michoacan eleva para sete o número de repórteres assassinados este ano no México, tantos quantos foram mortos no ano passado.

O jornalista Armando Linares, diretor do Monitor Michoacán, foi morto na terça-feira, no município de Zitácuaro, na sua casa, frente aos seus filhos.

Em extenso trabalho, o jornalista Martí Quintana, da Efe, recordou que no final de janeiro Linares tinha dado a triste noticia do assassínio de Roberto Toledo, colaborador no mesmo meio.

Na altura, declarou em mensagem vídeo: “Não estamos armados. Não temos armas. A nossa única defesa é a pena, um lápis e um caderno”. Um mês e meio depois, uma rajada de tiros acabou com a sua vida.

A organização não governamental (ONG) Artigo 19 apontou que desde o início do ano até agora já foram assassinados sete jornalistas pelo seu trabalho, tantos quantos em 2021.

“Dados os antecedentes do assassínio de Roberto Toledo, as ameaças recebidas pelo Monitor Michoacán, do qual o Armando era o diretor, podemos considerar que é o sétimo assassínio com possível vínculo com o trabalho jornalístico da vítima”, disse hoje à Efe o diretor para o México e a América Central da ONG, Leopoldo Maldonado.

O México soma 152 assassínios de jornalistas desde 2000 e até agora.

Deste total, 47 ocorreram durante os seis anos do mandato do presidente anterior, Enrique Pena Nieto (2012-2018), e 32 no do atual chefe de Estado, Andrés Manuel López Obrador, que está há pouco mais de três anos do cargo.

Como aconteceu em outras ocasiões, o assassínio abalou a classe, que reagiu, em particular nas redes sociais, a denunciar o caso.

Mas hoje, cerca de 30 profissionais protestaram em Morelia, capital do ocidental Estado de Michoacan, e gritaram ‘slogans’ como “Estão-nos a matar”. Exigiram também o fim da impunidade, bem como justiça e segurança. Por fim, conseguiram uma reunião com as autoridades locais.

Magdalena Alonso, diretora do Noticiero al Aire Zitacuaro, deixou claro que, em Zitacuaro e no país, não há condições para fazer jornalismo, ao considerar que os mecanismos de proteção dos jornalistas não servem para o que quer que seja.

“Estou muito consternada, muito preocupada e muito enojada. Tenho medo, porque cada vez nos damos conta que, se somos jornalistas, onde te encontrarem, vão-nos matar”, acentuou.

“Os mecanismos de proteção dos jornalistas no México não existem e aqui, com o assassínio de Armando Linares, estão as provas”, afirmou Magdalena Alonso à Efe.

Apesar da evidente falta de segurança, como decorre de se terem assassinado mais jornalistas que nunca em tão pouco tempo, Lopez Obrador condenou hoje esta morte e assegurou que não haveria impunidade.

“Agora estamos determinados em proteger os cidadãos, proteger os defensores dos direitos humanos, proteger os jornalistas. E, repito, o Estado não reprime, não assassina, nem tão pouco permite a impunidade”, realçou o presidente.

Mas Lopez Obrador acusou também um “bloco conservador mundial”, que critica todas as suas ações.

Na semana passada, o Parlamento Europeu condenou as ameaças, o assédio e o assassínio de jornalistas e defensores dos direitos humanos no México, e instou a que estes crimes sejam investigados de maneira “rápida, exaustiva, independente e imparcial”.

Em uma curta resposta, o presidente de México insultou os eurodeputados, a quem chamou de “borregos”, e apontou “a corrupção, a hipocrisia e a ingerência” do Parlamento Europeu.

E hoje retomou o tema: “O que a declaração dos deputados europeus demonstra é que são muito colonialistas, prepotentes”.

Mas os seus constantes ataques à comunicação social preocupam os jornalistas: “O discurso do presidente contra a imprensa é virulento e hostil e pouco contribui para gerar condições de proteção e segurança para os jornalistas. Outros atores sentem-se autorizados a agredir os jornalistas”, considerou Maldonado.