Internacional

Crianças sírias continuam expostas à guerra, fome e doenças após 11 anos de conflito

15 março 2022 15:57

Uma família síria fotograda na ilha de Cós, no mar Egeu, Grécia, em 2015, quando mais de um milhão de sírios chegaram à Europa FOTO: Dan Kitwood/Getty Images

A ONG estima que em todo o país, 6,5 milhões de crianças precisam de ajuda humanitária, 2,5 milhões não vão à escola e quase 800 mil crianças estão desnutridas

15 março 2022 15:57

As crianças na Síria continua a viver, após 11 anos de conflito, em campos inseguros e sem higiene, expostas a bombardeamentos e a sofrer com fome, doenças e desnutrição, alertou, esta terça-feira, a Organização Não-Governamental (ONG) Save The Children.

Em comunicado, esta organização de proteção à criança, com sede no Reino Unido, lembra que o conflito no norte da Síria continua a causar baixas civis, forçando famílias a fugirem de suas casas.

Em 2021, a Save The Children e a Hurras Network documentaram 15 ataques a escolas no noroeste do país e, em outubro, três crianças e um professor morreram durante um ataque a caminho da escola.

A ONG estima que em todo o país, 6,5 milhões de crianças precisam de ajuda humanitária, 2,5 milhões não vão à escola e quase 800 mil crianças estão desnutridas.

A Síria atravessa uma crise económica, onde lida com a pandemia de covid-19 e enfrenta uma escassez de bens essenciais.

O preço médio de compras domésticas aumentou 97% entre dezembro de 2020 e dezembro de 2021, o que implica que até final do ano, um agregado familiar médio gastou 41% do seu ordenado em alimentação para garantir a sobrevivência, enquanto cerca de 12 milhões de pessoas (55% da população) sofrem de insegurança alimentar.

Com a invasão russa da Ucrânia e o crescimento rápido do número de refugiados na Europa, sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial, a ONG alerta que aqueles que deixaram a Síria não devem ser esquecidos e os estados devem proteger os direitos de todos os refugiados.

Devido à falta de água potável, muitas mães ficam sem comida ao gastarem o dinheiro em água consumível.

Segundo um estudo recente desta ONG, em cinco comunidades no norte da Síria, quase um terço (30%) das mulheres que amamentam os seus bebés indicaram que não conseguiam produzir leite materno suficiente para os seus filhos e que, quando o faziam, não era em quantidade suficiente.

O mesmo estudo constatou que 7% das crianças entre os 6 e 59 meses sofriam de “desnutrição aguda grave” e 13% sofriam de “desnutrição aguda moderada”.

“Onze anos após o início do conflito, a Síria ainda não é um lugar seguro para as crianças”, realça Sonia Khush, diretora para a resposta à Síria desta organização, citada no comunicado.

“Enfrentar esse tipo de violência, angústia e perda, e ficar sem raízes, em alguns casos várias vezes, além de não ter oportunidades de construir um futuro melhor, teve um impacto profundo na saúde mental e no bem-estar das crianças. Precisamos viver em paz. Cada criança na Síria merece um futuro”, atira ainda.

A responsável defendeu que "num momento em que a atenção do mundo está voltada para a violência na Ucrânia, não se pode permitir que as crianças da Síria sejam esquecidas".

"Onze anos de conflito são ultrajantes. Todas as partes envolvidas no conflito precisam acabar com a violência para garantir um ambiente seguro para as crianças", atirou.

Para Sonia Khush, a comunidade internacional “precisa de aumentar o financiamento e a entrega de mantimentos e serviços que salvam vidas, que são essenciais para que todas as crianças sobrevivam, sejam protegidas de danos e prosperem”.

"Os refugiados que fugiram da Síria precisam de ser protegidos, e é obrigação dos estados sob o direito internacional", acrescentou.

Desencadeada em março de 2011 pela repressão às manifestações pró-democracia, a guerra na Síria tornou-se mais complexa ao longo dos anos com o envolvimento de potências regionais e internacionais, e a ascensão dos ‘jihadistas’.

Apesar da derrota em 2019, o EI tem conseguido perpetrar ataques mortais através de células adormecidas.

O conflito matou cerca de 500.000 pessoas de acordo com a OSDH, devastou a infraestrutura do país e deslocou milhões de pessoas.