Internacional

A Europa já estava a comprar mais armas antes da guerra na Ucrânia - mas ainda assim os EUA gastam mais do dobro

14 março 2022 21:41

Tiago Soares

Tiago Soares

Jornalista

anton petrus

Entre 2017 e 2021, a importação de armas para os países do Velho Continente aumentou 19% em comparação com os quatro anos anteriores (2012-2017). No entanto, desde o fim da Guerra Fria que a Europa compra menos armamento do que as outras regiões do globo: está a perder a corrida para países como a Índia ou a China e tem "lacunas antigas" que é urgente resolver

14 março 2022 21:41

Tiago Soares

Tiago Soares

Jornalista

O comércio de armas mundial diminuiu ligeiramente entre 2017 e 2021, mas a Europa viu as suas importações deste tipo de material militar aumentar substancialmente - cerca de 19% - no mesmo período, em comparação com os quatro anos anteriores (2012-2016). Olhando para todas as regiões do globo, o Velho Continente é a região que regista um maior aumento no que toca à compra de armas, sendo que os principais importadores são o Reino Unido, a Noruega e os Países Baixos.

Estas são algumas das principais conclusões dos dados revelados esta segunda-feira pelo Stockholm International Peace Institute (SIPRI), um observatório internacional que compara regularmente as transações de armamento militar e os gastos com defesa a nível global.

“A deterioração severa das relações entre a maioria dos estados europeus e a Rússia foi um motor importante do aumento da importação de armas na Europa, especialmente para os países que não conseguem cumprir todos os requisitos através das suas indústrias nacionais de armamento”, contextualiza Pieter D. Wezeman, investigador do SIPRI.

Estes dados mostram que a Europa já se estava a preparar para potenciais guerras, mesmo não estando a pensar concretamente na ameaça russa? Não, garante Luís Tomé, especialista em Geopolítica e Relações Internacionais e investigador na Universidade Autónoma. "Independentemente de a Europa registar um aumento superior às outras regiões no que toca à compra de armas, os países europeus não são os principais importadores [em termos brutos]”, explica o especialista ao Expresso.

Os números desde 1988 mostram várias tendências: o mundo gasta muito mais dinheiro em armas do que no tempo da Guerra Fria e todas as regiões do globo têm vindo a reforçar-se mais do que o continente europeu - com destaque para a Ásia ou o Médio Oriente, onde se incluem países como Índia, Arábia Saudita e China. “São países que há vários anos mostram aumentos muito substanciais no que toca a investimento em armamento e em defesa no geral”, nota Luís Tomé.

As lacunas europeias são várias e “persistem há anos”: “Todos os países gastam dinheiro nas mesmas coisas, o que leva a duplicações inúteis entre os vários exércitos”, diz Luís Tomé. Exemplo: os países europeus têm um excesso de carros de combate, mas não têm um sistema de georreferenciação próprio - continuando dependentes da tecnologia GPS norte-americana. Este sistema europeu chama-se Galileu, só que tarda em avançar. “Inicialmente, a China estava a trabalhar no projeto com a Europa. Mas fartaram-se de esperar e entretanto já construíram um.”

Outro exemplo: “Não há aviões europeus de transporte estratégico de equipamento para os teatros de guerra. Continuamos a usar os aviões norte-americanos. Há projetos a serem desenvolvidos, mas já há demasiados anos”, continua Luís Tomé.

Os gastos dos EUA em defesa são mais do dobro do que os países europeus todos juntos, mas menos de metade desse valor é destinado a gastos com pessoal. No caso europeu, a média é de 80% para recursos humanos. “Isto significa que só sobram 20% do orçamento para manutenção de bases, logística, e investigação e desenvolvimento”, aponta o especialista.

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia deverá melhorar algumas destas deficiências europeias, mas o problema não ficará resolvido só com o cumprimento do acordo da NATO por parte de todos os países da Europa. “Gastar cegamente 2% do PIB em Defesa não vai resolver o problema”, sublinha Luís Tomé.

Seis dos dez países mais compradores de armas estão na Ásia e Oceânia

A análise de Luís Tomé é confirmada pelos dados do SIPRI, que mostram que a Ásia e a Oceânia continuam a ser os principais continentes do globo no que toca à importação de armamento, recebendo 43% do material transacionado entre 2017 e 2021 - isto apesar de o volume de negócios ter caído ligeiramente nesse período (menos 4,7%). Tal como entre 2012 e 2016, os EUA são o principal vendedor de armas para estes dois continentes. Aliás, seis dos dez países que mais armas compraram pertencem à Ásia e à Oceânia: Índia, Austrália, China, Coreia do Sul, Paquistão e Japão.

Os EUA continuam também a ser a principal loja de armamento do Médio Oriente, onde as importações subiram 2,6%. Esta média tem nuances: o investimento feito pelo Qatar nos últimos quatro anos disparou (mais 227%), enquanto os Emirados Árabes Unidos reduziram as suas compras em 41%. A Arábia Saudita, o segundo maior importador de armamento do mundo, gastou mais 27% em comparação com 2012-2016. Segundo esta tendência, o Egito gastou mais 73%, tornando-se o terceiro maior importador a nível global. Nota ainda para o estado de Israel, que fez as suas importações subirem 19% nos últimos quatro anos.

Em contrapartida, os dados apontam que a compra de armas diminuiu em países da América do Sul, continente que registou o número mais baixo dos últimos 50 anos. Nesta região, sublinha o SIPRI, o Brasil é o único país que está neste momento à espera de armamento substancial já encomendado.

Do lado das exportações, a Rússia vendeu menos armas entre os dois períodos temporais (menos 26%), apesar de continuar a ser o segundo maior exportador a nível mundial, apenas atrás dos Estados Unidos da América. Aliás, potências militares como os EUA e a França aumentaram as suas exportações de armas nos últimos quatro anos: regista-se um crescimento de 14% no caso norte-americano, enquanto as vendas francesas subiram 11%, confirmando o país como o terceiro maior exportador de armamento no mundo.