Internacional

Banco de espiões: o Credit Suisse cuidou de chefes de serviços secretos de todo o mundo

2 março 2022 18:04

A personagem de Hani Salaam no filme de espionagem “Corpo da Mentira” baseava-se numa pessoa real, um espião jordano chamado Sa’ad Khair

Durante a Guerra contra o Terror, a estratégia internacional baseou-se em agentes dos serviços secretos de regimes acusados de corrupção e tortura. Vários desses espiões e as suas famílias detinham grandes quantidades de dinheiro no Credit Suisse

2 março 2022 18:04

No filme de espionagem de 2008 “Corpo da Mentira”, a personagem fictícia Hani Salaam ajudou os agentes da CIA, interpretados por Russell Crowe e Leonardo DiCaprio, a capturar terroristas. O que os cinéfilos talvez não tenham percebido é que a personagem de Salaam se baseava numa pessoa real: um espião jordano chamado Sa’ad Khair.

Khair chefiou a Direção-Geral de Informação da Jordânia (GID) entre 2000 e 2005, agindo como um aliado chave dos EUA na Guerra contra o Terror. Mas, embora seja apresentado no cinema como um herói elegante que ajuda os americanos, na vida real as suas atividades eram moralmente bastante mais questionáveis. Além de, alegadamente, contrabandear petróleo, supervisionou o papel da Jordânia no extraordinário programa de rendição dos EUA, gerindo uma agência acusada de torturar prisioneiros e supervisionar julgamentos em praça pública.

Pelo menos 15 personalidades importantes de serviços secretos de todo o mundo, ou seus familiares mais próximos, foram clientes do Credit Suisse

Em 2003, abriu uma conta pessoal no Credit Suisse. Durante os sete anos seguinte, a conta cresceria até 28,3 milhões de francos suíços (21,5 milhões de dólares na altura) no seu auge, antes de ser encerrada meses após a sua morte em 2009.

Khair não foi o único espião que escondeu grandes quantias de dinheiro no Credit Suisse. Os jornalistas descobriram que pelo menos 15 personalidades importantes dos serviços secretos de todo o mundo, ou os seus familiares mais próximos, eram clientes do banco.

Estas revelações são provenientes de uma enorme fuga de dados bancários do Credit Suisse entregues ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung e partilhados com o OCCRP.

A maior parte destas 15 personalidades estava no topo da cadeia nos serviços secretos no seu país. Os dados também continham o nome de uma série de outros espiões que o OCCRP optou por não nomear, porque as suas identidades não puderam ser verificadas para lá da dúvida absoluta.

Omar Suleiman a cumprimentar o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, durante uma visita a Jerusalém, em 2009 (Foto Getty)

Omar Suleiman a cumprimentar o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, durante uma visita a Jerusalém, em 2009 (Foto Getty)

Juntamente com Khair, três destes espiões principais têm ligações comuns nas suas carreira que os fazem destacar-se: Omar Suleiman, do Egipto, o general paquistanês Akhtar Abdur Rahman e Ghaleb Al-Qamish, do Iémen.

Todos chefiavam agências de informação estatais, onde controlavam grandes orçamentos que estavam acima do escrutínio parlamentar e executivo. Todas estas personalidades ou membros das suas famílias também tinham contas pessoais com quantias avultadas de dinheiro no Credit Suisse, sem terem fontes óbvias de rendimento pessoal que pudessem explicar a riqueza.

Três deles, Qamish, Suleiman e Khair, eram responsáveis por agências bem conhecidas por estarem envolvidas com práticas de tortura. Pelo menos oito dos membros das suas famílias também tinham contas no Credit Suisse

Todos tiveram papéis em intervenções-chave dos EUA no Médio Oriente e no Afeganistão, desde as primeiras tentativas da CIA para apoiar os mujahidins antissoviéticos no final da década de 1970, até à primeira Guerra do Golfo em 1990, até às chamadas “guerras eternas” lançadas no Afeganistão e no Iraque desde 2001.

Três deles, Qamish, Suleiman e Khair, eram responsáveis por agências bem conhecidas por estarem envolvidas com práticas de tortura. Pelo menos oito dos membros das suas famílias também tinham contas no Credit Suisse.

Uma vez que estes agentes dos serviços de informação seriam considerados “pessoas politicamente expostas”, as suas contas deveriam ter sido cuidadosamente analisadas e deveriam ter levantado questões ao Credit Suisse. De acordo com Monika Roth, especialista suíça em compliance, os agentes dos serviços secretos são considerados pelos bancos clientes particularmente sensíveis.

No exemplo de um chefe de serviços de informações como Sa’ad Khair, abrir uma conta é um sinal de alerta e muitos bancos na Suíça não a aceitariam, mas o Credit Suisse sim”

“Eu não os aceitaria como clientes – é muito arriscado”, disse, acrescentando que os chefes destas agências são muitas vezes “pessoas com muito poder, ligações questionáveis e fontes de dinheiro muito opacas”.

Um ex-executivo do Credit Suisse disse ao OCCRP: “No exemplo de um chefe de serviços de informações como Sa’ad Khair, abrir uma conta é um sinal de alerta e muitos bancos na Suíça não a aceitariam, mas o Credit Suisse sim”.

Não é claro quais foram os processos de devida diligência efetuados, se é que foram. O Credit Suisse recusou-se a comentar casos individuais, citando leis bancárias suíças que proíbem os bancos de identificarem ou fornecerem informações sobre clientes. O banco afirmou que “opera o seu negócio em conformidade com todas as leis e regulamentos locais e globais aplicáveis” e que tinha reforçado o seu “quadro de gestão de risco e sistemas de controlo”.

Movimentos financeiros secretos

Muito antes de Khair ter aberto a sua conta no Credit Suisse, agentes dos serviços secretos que ajudaram a América a combater uma guerra por procuração contra os soviéticos no Afeganistão fizeram as suas próprias ligações à instituição.

No final da década de 1970, os EUA apoiaram sete fações diferentes de combatentes islâmicos, chamados mujahidins, que estavam a combater a presença da Rússia no Afeganistão. A Arábia Saudita igualava o financiamento dos americanos aos jihadistas dólar por dólar, enviando frequentemente o dinheiro para a conta bancária suíça da CIA. O destinatário final do processo eram os Serviços Secretos do Paquistão (ISI – Inter-Services Intelligence), liderados por Akhtar.

Em meados da década de 1980, Akhtar era adepto de passar o dinheiro da CIA para as mãos dos jihadistas afegãos. Foi por volta desta altura que as contas do Credit Suisse foram abertas em nome dos seus três filhos.

Como Mohammad Yousaf, um colega de Akhtar no ISI, mais tarde escreveu num livro sobre a época: “Os fundos combinados [EUA e Arábia Saudita], que ascendiam a várias centenas de milhões de dólares por ano, foram transferidos pela CIA para contas especiais no Paquistão sob o controlo do ISI”.

Tanto Yousaf como Steve Coll, autor do livro Ghost Wars, galardoado com o Prémio Pulitzer, de 2005, afirmam que Akhtar era o homem que decidia para onde este dinheiro ia depois. Para treinar os mujahidins em armamento sofisticado, a CIA confiou-lhe cem milhões de dólares. Em 1984, só o orçamento da CIA para o Afeganistão era de cerca de 200 milhões de dólares.

Foto Getty

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A supervisão era cronicamente negligente e o papel do espião tem sido questionado há muito.

Uma fonte de informações do sul da Ásia com conhecimento das operações do Afeganistão disse ao OCCRP: “Naquela altura, era fácil abrir contas bancárias na Suíça de qualquer maneira ou tipo para transferência de fundos ostensivos.”

“Ele fazia-o para encher seus próprios bolsos”, disse a fonte. “Muito dinheiro foi desviado da guerra afegã para as suas contas bancárias”.

Uma das duas contas da família Akhtar no Credit Suisse – que tinha como titulares os filhos de Akhtar, Akbar, Ghazi e Haroon – foi aberta a 1 de julho de 1985, quando os seus filhos tinham entre os 25 e 35 anos. Nesse mesmo ano, o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, mostra preocupações sobre para onde estava a ir o dinheiro destinado aos mujahidins. Em 2003, esta conta tinha um valor de pelo menos cinco milhões de francos suíços (nessa altura, 3,7 milhões de dólares). Uma segunda conta, aberta em Janeiro de 1986, apenas em nome de Akbar, valia mais de 9 milhões de francos suíços em Novembro de 2010 (9,2 milhões de dólares na altura).

Akhtar morreu num acidente de avião em 1988 que também matou o seu chefe, o ditador paquistanês Zia-ul-Haq.

Akbar e Haroon Khan não responderam aos pedidos de comentários. Numa mensagem dirigida ao OCCRP, Ghazi Khan disse que as informações apresentadas pelos jornalistas sobre as contas suíças da família “não eram corretas”, e disse que “negava”, mas não deu mais comentários.

A “caixa negra”

Enquanto a CIA e Akhtar colaboravam no Afeganistão, Ghaleb Al-Qamish, no Iémen, começava a sua própria ascensão.

Em 1980, Qamish chefiou o Gabinete de Segurança Política (PSO) do Iémen, que era responsável pelos serviços secretos internos. Tal como Akhtar fazia no Paquistão, recrutou lutadores para a guerra afegã contra os soviéticos.

Uma figura iminente sobre o aparelho de segurança do Iémen durante décadas, Qamish era um executor chave do presidente Ali Abdullah Saleh, que governou entre 1978 e 2012. Quando a Al-Qaeda bombardeou o contratorpedeiro americano USS Cole no porto iemenita de Aden, em 2000, Saleh incumbiu Qamish, inicialmente relutante, de ajudar a CIA a expulsar os suspeitos.

De acordo com três agentes que trabalharam sob Qamish no PSO do Iémen, este era o mais temido oficial de segurança da nação, descrito como a “caixa negra” de Saleh. As três fontes, que pediram para permanecer anónimas por medo de represálias, disseram ao OCCRP que Qamish tinha “um orçamento aberto no valor de milhões de dólares” para fazer o que quisesse.

No início da década de 2000, altura em que se tinha tornado o espião principal do Iémen, ajudando os americanos a desmascarar células terroristas, Qamish tinha também inexplicáveis milhões de dólares escondidos no Credit Suisse.

A primavera árabe no Iémen, onde Qamish foi acusado de abusos

A primavera árabe no Iémen, onde Qamish foi acusado de abusos

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A sua conta, aberta em 1999, no ano anterior ao ataque ao USS Cole, valia quase 5 milhões de francos suíços (3,7 milhões de dólares) em 2006, o mesmo ano em que alguns dos suspeitos do ataque escaparam a uma prisão iemenita. O seu salário mensal estaria provavelmente entre os 4 e os 5 mil dólares por mês, incluindo subsídios e bónus, de acordo com as antigas agências de informação e as diretrizes oficiais da lei salarial do Iémen.

Qamish foi acusado de vários abusos, incluindo a participação no programa extraordinário de rendição dos EUA, que esbanjou milhões de fundos da CIA em funcionários e outros agentes em países aliados. Os documentos oficiais mostram que foram feitos grandes pagamentos a países que albergam centros de detenção secretos e àqueles que realizaram torturas e interrogatórios.

Ruth Blakeley, do Projeto Rendição, um grupo de académicos do Reino Unido que investigou o programa americano, disse que qualquer nova informação de que personalidades de serviços secretos ligadas à tortura tivessem dinheiro escondido deveria ser cuidadosamente examinada.

As contas no Credit Suisse do chefe da secreta iemenita duraram muito para além do seu envolvimento tanto no programa de rendição de extremistas perseguidos pelos EUA como na repressão dos opositores políticos iemenitas

“Se existirem provas de que os altos funcionários dos serviços de informação estavam a ganhar financeiramente com a cooperação nos programas de rendição, detenção e interrogatório liderado pela CIA, então isso justifica uma investigação minuciosa”, afirmou.

Se o Credit Suisse questionou a fonte do dinheiro de Qamish ou a sua condição de cliente, isso não impediu o banco de fazer negócios com ele. As suas contas duraram muito para além do seu envolvimento tanto no programa de rendição como na repressão dos opositores políticos iemenitas.

“Através do PSO, [Qamish] foi responsável por prender todos os elementos que eram vistos como opositores do regime de Saleh”, disse um oficial sénior, enquanto outro acrescentou: “Ninguém sabia como o dinheiro do PSO era gasto”.

Os laços do chefe dos serviços secretos ao presidente enfraqueceram quando este começou a preparar um filho para tomar conta do país. Saleh também estabeleceu uma nova unidade de informação interna, o Gabinete Nacional de Segurança, em 2002, sob o comando de um sobrinho, que rapidamente ensombrou o PSO. Lentamente, o líder começou a puxar o tapete a Qamish.

Este retirou o último dos seus ativos do Credit Suisse – no valor de cerca de 3,8 milhões de francos suíços (4 milhões de dólares) – em Janeiro de 2011, enquanto multidões iam para as ruas de Aden, nas primeiras faíscas da Primavera Árabe. Foi afastado do seu papel de chefe do PSO em 2014 pelo Presidente Abdrabbuh Mansur Hadi, que tinha chegado ao poder após a derrota de Saleh.

O Credit Suisse também não parecia excessivamente preocupado com Suleiman. Apesar de ter sido pessoalmente ligado à tortura por vítimas do programa de rendição americano, os membros da sua família mantiveram grande parte da sua riqueza no banco

Hoje Qamish vive em Istambul. Nos últimos anos, retirou-se para os bastidores, mas os seus filhos continuam aparentemente ativos em negócios no Iémen, Bahrein, Brasil e Turquia. O antigo agente não respondeu aos múltiplos pedidos de comentários.

O temido executor do Egipto

Em janeiro de 2009, num telegrama diplomático divulgado pelo Wikileaks, Margaret Scobey, embaixadora dos Estados Unidos no Egipto, dizia que o chefe dos serviços secretos Omar Suleiman era usado pela ditadura de Hosni Mubarak como executor. Acrescentou que Mubarak não era “alguém que perdesse o sono” por causa dos métodos brutais do agente.

O Credit Suisse também não parecia excessivamente preocupado com Suleiman. Apesar de ter sido pessoalmente ligado à tortura por vítimas do programa de rendição americano, os membros da sua família mantiveram grande parte da sua riqueza no banco.

Em Fevereiro de 2003, enquanto os aliados de Suleiman nos EUA congeminavam planos para invadir o Iraque, os seus familiares faziam as suas próprias diligências: financeiras. Nesse mês, foi aberta uma conta no Credit Suisse com os seus nomes. Mais tarde, a conta aumentaria em milhões de francos suíços.

Como Akhtar, Khair e Qamish, Suleiman era visto como um aliado confiável dos EUA.

Quando o secretário de Estado norte-americano Colin Powell disse à ONU que tinha provas da formação da Al-Qaeda no Iraque em armamento químico, a sua fonte era uma vítima do regime dos serviços secretos de Suleiman

Semanas antes da abertura da conta dos Suleiman, o Secretário de Estado Americano, Colin Powell, falando às Nações Unidas, descreveu o motivo pelo qual o regime do Presidente Saddam Hussein no Iraque precisava urgentemente de ser derrubado. Quando Powell disse à ONU que tinha provas da formação da Al-Qaeda no Iraque em armamento químico, a sua fonte era uma vítima do regime dos serviços secretos de Suleiman: Ibn Sheikh Al-Libi.

Al-Libi, um líbio, tinha sido capturado no Paquistão em 2001 antes de ser entregue pela CIA ao Egipto em 2003. Os agentes egípcios disseram-lhe que acabaria por confessar porque “três mil indivíduos tinham estado naquela cadeira antes dele”, e todos o fizeram. Depois de ser esmagado dentro de uma caixa minúscula, Al-Libi diria mais tarde que disse aos egípcios “o que estes queriam ouvir”.

Suleiman tinha tendência a conseguir o que queria.

À medida que a Guerra do Iraque passava de batalhas campais para uma contrainsurgência, a riqueza da sua família aumentava. Em 2007, quatro anos após a queda de Saddam Hussein, a sua conta no Credit Suisse tinha um valor de 63 milhões de francos suíços.

Depois de Mubarak ter sido destituído, as autoridades suíças disseram que estavam a congelar os ativos de figuras que lhe eram próximas, e ao seu governo. Mas parece que a repressão não se aplicou aos Suleiman

A família Suleiman não respondeu aos diversos pedidos de comentários.

A conta sobreviveu à ditadura de Mubarak no Egipto, que caiu em 2011 sob o peso da Primavera Árabe. Depois de Mubarak ter sido destituído, as autoridades suíças disseram que estavam a congelar os ativos de figuras que lhe eram próximas, e ao seu governo. Mas parece que a repressão não se aplicou aos Suleiman. Não existem provas nos dados revelados que a conta foi encerrada, apesar de múltiplas preocupações manifestadas noutros lugares em relação aos crimes do patriarca.

Além de supervisionar a tortura, o diretor dos serviços secretos também esteve envolvido nas transações financeiras clandestinas da agência.

No julgamento de Mubarak, um juiz citou o testemunho de Suleiman e de outros funcionários que Hussein Salem – um magnata egípcio e conhecido testa de ferro dos serviços de informações – possuía uma variedade de empresas no setor do gás e outros setores em nome da agência de espionagem. O juiz escreveu que Suleiman admitiu que a sua agência de informações criou empresas de fachada por razões de “segurança nacional”, utilizando frequentemente Salem.

O magnata era também cliente do Credit Suisse. Em 2003, tinha várias contas com um património no valor de 105 milhões de francos suíços (79,3 milhões de dólares). O seu nome apareceu num processo judicial onde os investigadores alegavam que tinha sido utilizado para pagar e receber o que pareciam ser comissões corruptas a executivos da FlowTex, uma empresa alemã processada por fraude maciça.

A origem das suas fortunas pode nunca vir a ser conhecida, mas os especialistas dizem que os bens secretos destas figuras dos serviços de informação levantam questões sobre como podem ter beneficiado da ilegalidade.

“Não nos podemos esquecer que Mubarak queria que os seus generais e chefes dos serviços de informação roubassem dinheiro”, disse Robert Baer, um ex-agente da CIA que serviu no Médio Oriente. “Porque não se pode confiar em ninguém que está uma posição como aquela e não está a ganhar dinheiro com isso. Essas são as pessoas que fazem golpes de Estado”.

O herói de ação da Jordânia

Sa’ad Khair, da Jordânia, foi feito para o grande ecrã. David Ignatius, do Washington Post, que escreveu o romance no qual se baseou o filme “Corpo da Mentira”, descreveu-o como “brilhante, mas emocionalmente ferido”.

Mas os interrogatórios levados a cabo pela agência GID de Khair eram altamente ilegais, de acordo com relatórios da Amnistia Internacional e da Human Rights Watch.

A Human Rights Watch relatou que o GID serviu como “carcereiro por procuração” para a CIA, “prendendo prisioneiros que a CIA aparentemente queria manter fora de circulação”, tal como as forças de informação de Suleiman tinham feito no Egipto. O grupo de direitos humanos documentou pelo menos 14 prisioneiros que os EUA enviaram à custódia jordana para provável tortura entre 2001 e 2003.

Sa’ad Khair, antigo chefe da agência de espionagem da Jordânia, há muito que é acusado de lucrar secretamente com o comércio ilícito de petróleo desde o início da década de 2000.

A Amnistia Internacional, citando o testemunho das vítimas, relatou que o GID obteve mais de 100 confissões através da tortura e, de seguida, enviou estes casos para o Tribunal de Segurança do Estado da Jordânia, que decretou penas de morte aos mais infelizes.

Altos funcionários do GID negariam mais tarde ter detido prisioneiros para os americanos, ou mesmo que a tortura sequer aconteceu. Khair também foi perseguido por rumores de corrupção envolvendo o comércio de petróleo, mas não foi feita nenhuma acusação.

Petróleo iraquiano barato

Sa’ad Khair, antigo chefe da agência de espionagem da Jordânia, há muito que é acusado de lucrar secretamente com o comércio ilícito de petróleo desde o início da década de 2000. Alguns deputados da oposição pediram mesmo que Khair enfrentasse acusações, mas tal nunca aconteceu. Embora esta história perseguisse o agente, nunca foi apresentada nenhuma prova.

Jornalistas do OCCRP procuraram provas. O que encontraram era intrigante, mas não definitivo. Uma série de fontes confidenciais próximas do caso repetiu a história que Khair e o GID supervisionavam uma empresa de fachada que negociava petróleo iraquiano, mas nenhuma mostrou provas concretas.

Ao analisar registos e seguir pistas, os repórteres identificaram uma empresa petrolífera chamada Harranah, gerida por Abdulrahman Abu Hassan, um amigo de longa data de Khair. Abu Hassan disse que há muito ouvia os mesmos rumores – que se tornara rico por causa do amigo e do GID – mas negou categoricamente que o chefe dos serviços de informação tivesse algum envolvimento na sua empresa.

Admitiu ter adquirido crude no Iraque “quase de borla”, que depois vendeu no estrangeiro a preços de mercado internacionais. Disse que o primeiro-ministro do Iraque na altura, Ayad Allawi, vendeu o petróleo a um preço tão baixo porque a Jordânia lhe tinha dado refúgio seguro após uma tentativa de assassinato do governo de Saddam Hussein.

Abu Hassan disse que os carregamentos de petróleo por camião da sua empresa, cerca de 300 por dia, eram protegidos pelo GID de Khair quando atravessaram a fronteira, mas isso foi o ponto alto do relacionamento entre eles. Disse também que o amigo não estava envolvido no negócio e que não lucrou com ele. Até mesmo grande parte do seu próprio lucro, disse, foi doada a associações de veteranos jordanos. Afirmou também que os ministérios das finanças e da energia da Jordânia ganharam centenas de milhões de dólares de serviços relacionados com o negócio em geral.

Os repórteres nunca encontraram provas que Khair estava envolvido, ou de que havia discutido o seu envolvimento no negócio do petróleo com qualquer pessoa antes de morrer. Para Abu Hassan, os rumores de que a Harranah era uma fachada do GID são absurdos.

“Todos acusaram os serviços secretos jordanos porque nos ajudavam [no comércio]”, afirmou. “[Mas] eu pedi-lhes isso”.

Numa mensagem enviada ao OCCRP, Frayeh disse que as perguntas sobre as contas familiares no Credit Suisse eram “estranhas e bizarras e escandalosas”

“Khair, juntamente com o então primeiro-ministro Abul Ragheb, institucionalizou uma corrupção de alto nível que continua a assombrar a Jordânia hoje”, disse um político jordano ao OCCRP.

O seu reinado, no entanto, acabaria por chegar ao fim. Em Maio de 2005, foi removido do seu cargo no GID pelo rei Abdullah. Khair morreu num hotel de luxo em Viena em Dezembro de 2009.

Três anos antes, a sua conta no Credit Suisse tinha um valor de 28,3 milhões de francos suíços (21,5 milhões de dólares). Uma conta do Credit Suisse, aberta em 2006 pelo irmão de Khair, Saeed, engenheiro em terra dos dois jatos privados do rei Hussein, valia 13 milhões de francos suíços até 2011, antes de ser encerrada em 2014. A esposa de Khair, no momento da sua morte, Janiche Frayeh, teve a sua própria conta que valia 6 milhões de francos suíços (5,9 milhões de dólares) em 2010. A sua conta também foi encerrada em 2014.

“O meu marido é um homem honrado que lutou contra o terrorismo durante toda a sua vida para que pessoas como eu e o seu grupo possam viver com segurança nesta vida”

Saeed Khair disse ao OCCRP, referindo-se à posição sensível do seu irmão Sa’ad: “não vos deve surpreender que ele nunca partilhasse comigo qualquer informação sobre o seu trabalho”. Disse que não sabia nada sobre qualquer conta do Credit Suisse criada pelo seu irmão e que ele próprio nunca criou quaisquer contas. Afirmou que todo o seu rendimento tributável “foi declarado à autoridade fiscal na Jordânia”. Referiu que nunca partilhou uma conta bancária com, ou recebeu fundos do, seu irmão.

Numa mensagem enviada ao OCCRP, Frayeh disse que as perguntas sobre as contas familiares no Credit Suisse eram “estranhas e bizarras e escandalosas”.

Ela descreveu assim o marido: “um homem honrado que lutou contra o terrorismo durante toda a sua vida para que pessoas como eu e o seu grupo possam viver com segurança nesta vida”. Disse que não tinha aberto uma conta no Credit Suisse, não “sabia nada” sobre quaisquer fundos existentes e era apenas uma “dona de casa”.

“Algo muito precioso”

Para as personalidades das agências de informação, trabalhar com o Credit Suisse oferecia um serviço difícil de encontrar num mundo cada vez mais globalizado.

“Estes bancos representam algo que para a comunidade dos serviços de inteligência é muito precioso: o secretismo”, afirmou um agente dos serviços secretos europeus sob anonimato. “Esta confidencialidade torna os seus serviços muito úteis para operações secretas”.

Um ex-diretor dos serviços secretos alemães no Médio Oriente disse ao OCCRP e aos seus parceiros que não ficou surpreendido com o facto de os funcionários de serviços secretos de alto nível de países antidemocráticos tivessem contas em bancos na Suíça. A mesma fonte sugeriu que tais contas podem servir como apoio, reservado para o caso de os regimes que esses espiões servem serem derrubados, ou eles próprios caírem em desgraça.

“No mundo árabe, só se está nesta linha de trabalho por algum tempo. Quem lá está e os seus familiares têm de roubar o que podem e criar um pé de meia. Assim que as contas estão criadas, a Suíça é o local mais seguro”

Essa hipótese foi repetida por Baer, o ex-agente da CIA.

“No mundo árabe, só se está nesta linha de trabalho por algum tempo”, disse Baer. “Quem lá está e os seus familiares têm de roubar o que podem e criar um pé de meia. Assim que as contas estão criadas, a Suíça é o local mais seguro”.

Parece que cair em desgraça é um dos principais perigos do mundo da espionagem. Após a queda de Mubarak, em 2011, Suleiman lançou-se na campanha para liderar o Egipto, mas foi desqualificado como candidato. Morreu de causas naturais na Cleveland Clinic meses depois, em julho de 2012.

Além de navegar pelas lutas internas de poder de regimes repressivos, os espiões também têm problemas práticos que a banca suíça pode ter ajudado a resolver.

“As agências de espionagem e as organizações terroristas trabalham por vezes da mesma forma”, afirmou Avner Avraham, ex-agente da Mossad. “Têm os mesmos problemas. Têm de transferir dinheiro do ponto A para o ponto B, para pagar a alguém, e não querem que ninguém saiba quem está a pagar e como está a ser transferido, ou de onde vem.”

“Não há razão para que um agente de serviços secretos sénior não consiga abrir uma conta bancária, mas tem de dar uma razão pela qual pretende essa conta e para que vai utilizá-la”

Graham Barrow, um especialista em crime financeiro baseado no Reino Unido, disse que as enormes somas envolvidas nas contas do Credit Suisse ligadas a figuras dos serviços de informação deveriam ter levantado alertas ao banco.

“Não há razão para que um agente de serviços secretos sénior não consiga abrir uma conta bancária, mas tem de dar uma razão pela qual pretende essa conta e para que vai utilizá-la”, afirmou. “Depois, a conta tem de ser utilizada da forma como diziam a que iriam utilizar.

“Se, em qualquer altura, houver uma discrepância, o banco deve estar a levantar sinais de alerta”.

Outros espiões nos dados

Os jornalistas encontraram quase 40 contas nos dados do Credit Suisse ligados a agentes de serviços de informação de quase uma dúzia de países. Estes incluem:

  • O antigo capitão do exército venezuelano Carlos Luis Aguilera Borjas, conhecido como “O invisível”, que serviu como guarda-costas de Hugo Chávez na década de 1990, e foi depois diretor dos serviços de informação da Venezuela durante dois anos no início da década de 2000. Renunciou por volta de 2002, não tendo conseguido evitar uma tentativa de golpe de estado que quase derrubou o presidente. Aguilera concentrou-se, então, nos negócios e diz-se que lucrou cerca de 90 milhões de dólares com um acordo supostamente corrupto para reformular uma linha de metro de Caracas.

    Abriu uma conta no Credit Suisse em Junho de 2011, que alguns meses depois valia quase 7,8 milhões de francos suíços (8,6 milhões de dólares). Outra conta, ligado a uma entidade jurídica por si controlada, foi aberta em Julho de 2011 e tinha um valor máximo de quase 5 milhões de francos suíços.

    Aguilera não respondeu aos pedidos de comentários.

  • Khalaf Al-Dulaimi, diretor financeiro dos Serviços Secretos Iraquianos sob Saddam Hussein, teve uma conta corporativa com um saldo elevado de 178 milhões de francos suíços, e uma conta pessoal com 2,5 milhões de francos suíços. Um advogado do falecido Dulaimi chamou o relatório de “notícias antigas” e “incorretas”.

  • No Egipto, Ashraf Marwan, um espião cujas alianças eram tão obscuras como as suas finanças, também tinha uma conta. Diz-se que Marwan, enquanto servia como conselheiro de informação para o seu sogro, o Presidente Gamel Abdal Nasser, teria divulgado informações às forças israelitas durante a Guerra do Yom Kippur de 1973, mas a sua família e outros apoiantes afirmam que as informações que deu a Israel eram falsas. A conta de Marwan no Credit Suisse, cotada numa entidade jurídica, foi aberta em 2000. Nessa altura, já tinha deixado o trabalho nos serviços secretos para trás e tinha-se mudado para o Reino Unido, onde adquiriu uma participação no Chelsea. Sete anos mais tarde, morreu devido a uma queda misteriosa da sua varanda de Londres. A sua mulher, Mona Nasser, mais tarde disse à imprensa que a sua morte foi uma retribuição por ter traído a inteligência israelita. Nasser não respondeu às perguntas enviadas pelo OCCRP.

  • Da Alemanha, o ex-agente dos serviços secretos Jürgen Czilinsky tinha uma conta no valor de cerca de 218 milhões de francos suíços (206 milhões de dólares) a partir de Janeiro de 2010. Csilinsky tinha deixado a Alemanha após o colapso do comunismo, aterrando na República do Congo, onde supostamente montou um negócio de gestão de resíduos. Tentativas repetidas de contactar Czilinsky não foram bem sucedidas.

  • Também nas informações podemos encontrar contas pertencentes a figuras com laços aos serviços de informação do Uzbequistão, que várias organizações de direitos humanos acusaram de tortura, desaparecimento forçado e detenção arbitrária. Em 2009, o ex-agente dos serviços de inteligência Ikram Yakubov disse à BBC Newsnight que testemunhou esses abusos e afirmou que tinha sido forçado a fabricar provas contra pessoas que ele sabia estarem inocentes.

  • Outras contas estavam ligadas a personalidades dos serviços de informação do Iraque, Jordânia, Montenegro, Nigéria, Paquistão e Iémen. O ativo mais antigo remonta a meados da década de 1970.

A investigação sobre esta história foi fornecida pelo OCCRP ID. A equipa de dados do OCCRP forneceu os conhecimentos especializados em dados. A verificação dos factos foi fornecida pelo OCCRP Fact-Checking Desk.