Internacional

Turquia fecha estreito do Bósforo: da neutralidade impossível a um apoio discreto à Ucrânia

28 fevereiro 2022 18:14

Um submarino russo a atravessar o Bósforo a caminho do Mar Negro, no passado dia 22

Depois de alguma ambiguidade, Turquia fecha estreito do Bósforo. Ancara alinha assim com a comunidade internacional, que impõe sanções cada vez mais severas contra Moscovo

28 fevereiro 2022 18:14

A Turquia decidiu finalmente, este domingo, fechar o estreito do Bósforo à passagem de barcos russos, depois de manter alguma ambiguidade em relação à questão. A passagem de barcos no estratégico estreito que liga o Mediterrâneo ao Mar Negro, e que divide a metrópole de Istambul ao meio, é regulada pelo Tratado de Montreux, assinado em 1936, e que dá algum poder a Ancara. Em tempo de paz a Turquia não pode limitar a passagem de barcos de guerra dos países ribeirinhos do Mar Negro, embora o possa fazer para países terceiros. Mas em tempo de guerra pode encerrar o estreito.

Logo no início do conflito, o embaixador ucraniano em Ancara, Vasyl Bodnar, fez o pedido formal. Na sexta-feira, e após um telefonema entre o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e o seu homólogo ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, este agradeceu “o apoio turco” e sugeriu numa mensagem no Twitter que a Turquia iria fechar o estreito – algo que Ancara desmentiu logo a seguir. Erdogan e Mevlut Cavusoglu, o seu ministro dos Estrangeiros, têm repetidamente criticado a ofensiva russa, classificando-a de “inaceitável” e uma “clara violação da lei internacional”, mas sempre mantiveram alguma discrição, falando num “conflito”.

“De certa maneira, a posição turca assemelhava-se à neutralidade ativa que a Turquia demonstrou na Segunda Guerra Mundial, durante a qual Ancara ajudou quer os Aliados quer o Eixo, colocando-se ao lado dos vencedores no final, sem arriscar muito”, descreveu Howard Eissenstat, um analista do Instituto do Médio Oriente, um think tank americano.

Membro da NATO, a Turquia desenvolveu nos últimos anos boas relações com a Ucrânia, incluindo no campo militar, mas Ancara está também muito dependente da energia russa (quase metade do gás natural que a Turquia consome é proveniente da Rússia), e também do turismo russo. Além disso, Erdogan e Vladimir Putin desenvolveram uma relação de alguma cumplicidade nos últimos anos, partilhando a desconfiança em relação ao Ocidente – Ancara comprou mesmo a Moscovo os polémicos mísseis S400 que tanta discórdia causaram no seio da Aliança Atlântica e que levaram os EUA a impôr sanções económicas à Turquia e a expulsá-la do programa de desenvolvimento do caça F35.

Russos constroem a primeira central nuclear turca

Os russos estão também a construir a primeira central nuclear turca, e Ancara e Moscovo mantêm uma complexa relação de interdependência no conflito na Síria, encontrando-se em lados diferentes da barricada – Moscovo apoia Bashar al-Assad, a Turquia os rebeldes que controlam algumas zonas do norte do país.

Por isso Ancara não impôs ainda sanções bilaterais contra a Rússia, e também não fechou ainda o seu espaço aéreo a aviões russos. Na semana passada, a Turquia foi mesmo o único país europeu a abster-se na votação do Conselho da Europa que suspendeu a Rússia (com votos contra da própria Rússia e da Arménia, seu aliado).

Com uma economia num estado lastimoso – a inflação atingiu 50% no último mês, Ancara tem procurado um equilíbrio precoce: “Apanhado num momento frágil, e ultradependente da Rússia, Erdogan manteve o silêncio, e assim fará a não ser que seja certo que Putin fracassará”, escreveu o jornalista turco Ilhan Tanir.

Mas este domingo, perante o endurecimento global de sanções contra a Rússia e a firmeza e unidade da comunidade internacional, Ancara juntou-se ao coro das nações, e, num comunicado do ministério dos Negócios Estrangeiros, classificou a invasão russa de “guerra”, e anunciou que ia limitar a passagem de barcos de guerra no estreito do Bósforo: “Já não se trata de um punhado de bombardeamentos, a situação na Ucrânia é agora oficialmente uma guerra. Vamos aplicar a Convenção de Montreux”, disse Cavusoglu.

A medida é mais simbólica do que outra coisa, já que uma cláusula do tratado ainda permite o trânsito de navios russos desde que estes estejam registados numa base naval do Mar Negro e estejam a regressar à base – “mas iríamos monitorizar essa situação, já que eles não poderiam entrar no conflito ativo”, justificou o chefe da diplomacia turca. Mas é um sinal inequívoco de apoio à Ucrânia, e impedirá que a frota russa no Mediterrâneo, que nos últimos dias se concentrou na base que Moscovo tem na costa da Síria, em Tartus, possa reforçar o dispositivo naval russo no Mar Negro.

“Nesta crise, a posição turca tem sido motivada pelas suas ambições geopolíticas, a sua tentativa de aproximação aos aliados ocidentais, pelas suas relações económicas fortes quer com a Ucrânia quer com a Rússia, pela sua própria situação económica, e pela tomada de consciência que uma hostilização da Rússia ou dos seus aliados da NATO poderia ter grandes consequências. Ancara navega através destas pressões contraditórias. Não é fácil, mas é racional”, escreveu Eissenstat.

Drones turcos são fator importante na guerra

Antes de o conflito começar Ancara exportou para a Ucrânia dezenas dos seus famosos drones Bayraktar (uma empresa liderada pelo genro de Erdogan), que tanta eficácia tiveram em diversos teatros de guerra, da Líbia à Síria, passando pela Etiópia e pelo enclave no Cáucaso de Nagorno-Karabakh. Moscovo não terá gostado, até porque viu em primeira mão a eficácia destes drones no palco da Síria. E nos últimos dias o ministério da Defesa ucraniano publicou alguns vídeos e notas dando conta que estes drones têm sido utilizados com muita eficácia contra alvos russos. “Um golpe divinal – não há rosas sem espinhos”, lia-se ironicamente num tweet da embaixada ucraniana em Ancara, publicada no dia do segundo aniversário do incidente em que 34 soldados turcos foram mortos na Síria por bombardeamentos russos. “Agora os invasores russos sofrem com os drones Bayraktar TB2”.

Dois aviões militares turcos estavam na Ucrânia no primeiro dia da invasão, e tem havido nos últimos dias vários voos militares para aeroportos polacos perto da fronteira. Se bem que estes podem estar relacionados com a retirada dos milhares de cidadãos turcos que viviam na Ucrânia – umas centenas encontram-se ainda refugiados na embaixada turca em Kiev -, algumas fontes apontam que a Turquia poderá estar a enviar mais material militar para a Ucrânia.

“De certa maneira, o desfecho desta guerra poderá também ter consequências para o futuro da Turquia. Se a invasão russa falhar, permanecerá mais ancorada na NATO, e talvez até se possa reaproximar dos aliados europeus. Mas se Putin ganhar e a NATO parecer inútil, o regime turco poderá amplificar a já existente desconfiança em relação ao Ocidente e continuar a gravitar mais para os lados de Moscovo e da China”, disse ao Expresso um diplomata da UE.