Internacional

Que é uma “falsa bandeira”? Como se fabrica um pretexto para a guerra? Entrevista a Olga Lautman, investigadora de manobras de propaganda

18 fevereiro 2022 21:22

Um militar ucraniano perto da cidade de Marinka, em Donetsk, uma das duas províncias do leste da Ucrânia que grupos de separatistas russos conquistaram em 2014 FOTO: ALEKSEY FILIPPOV/AFP / Getty Images)

Primeiro surge nas redes sociais e em minutos já está nos jornais e nas televisões próximas do Kremlin. Cresce, cresce e torna-se um facto, porque há pessoas suficientes a acreditar na história. Uma conversa com Olga Lautman, investigadora do Centre for European Policy Analysis (CEPA), que segue o caminho da desinformação russa há mais de dez anos, filha de um ucraniano e de uma russa que fugiram da União Soviética e apresentadora do podcast “Kremlin File”, explica o submundo russo das fábricas de histórias falsas

18 fevereiro 2022 21:22

Os vídeos que esta sexta-feira mostram os líderes das “repúblicas populares” de Donetsk e Luhansk a pedir que os residentes destas regiões aceitem ser transferidos para a Rússia para “proteger as suas vidas” têm pelo menos dois dias. O Telegram — aplicação de troca de informação e mensagens utilizada por ativistas de todas as cores políticas por ter muito menos regras do que o Facebook ou Twitter quanto ao conteúdo publicado — guarda dados sobre a hora e data em que um vídeo foi gravado pela primeira vez. Aric Toller, jornalista do site de investigação Bellingat, fez o mapeamento desses metadados, como se pode ver na publicação do Twitter em baixo:

Que quer isto dizer? Que, ao contrário do que os dirigentes separatistas alegam no vídeo, não surgiu nenhuma ameaça ucraniana esta sexta-feira que os tenha feito tomar esta decisão. O plano de evacuação fora arquitetado antes mesmo da alegada troca de morteiros entre as duas fações. É só um exemplo das táticas de propaganda que todos os dias incendeiam as redes sociais russófonas. A maioria do conteúdo nem chega a penetrar nos meios de comunicação ocidentais, mas nem por isso deixa de servir um propósito, e bem importante: fomentar o medo, e por aí o apoio, das populações que vivem nestes enclaves dependentes da Rússia. Mas há mais, a lista é quase tão grande quanto a História dos conflitos militares.

Em setembro de 1999, pouco antes do início da segunda guerra da Chechénia (1999-2009), quatro ataques bombistas a quatro blocos de apartamentos mataram cerca de 300 russos. A culpa foi imputada a “terroristas chechenos” mas o envolvimento do homem que governa hoje a Rússia nunca foi totalmente afastado.

Os jornalistas que investigaram os ataques, como Anna Politkovskaya, foram assassinados ou morreram em circunstâncias estranhas, como dois deputados que fizeram parte da comissão de inquérito ao caso. Mas o nome que ainda se escreve quando ressurge este tema é o de Alexander Litvinenko, ex-membro do KGB, envenenado em Londres, punido com morte lenta que o deixou incapacitado mais de 20 dias. Ele dizia que tudo fora orquestrado por Putin, e assinou uma carta a culpar o atual Presidente (em 1999 tinha sido eleito primeiro-ministro) pela sua morte.

A Segunda Guerra da Chechénia matou pelo menos 50 mil civis chechenos, segundo a organização russa Memorial, que documenta vítimas de guerras com participação da Rússia. Há estimativas de dirigentes chechenos próximos do Kremlin que elevam este número a 300 mil. Do lado russo, os números dizem que pelo menos 50 mil soldados perderam a vida.

A Rússia está longe de ser o único país com historial neste tipo de encenações. Em 1954, Israel recrutou em segredo judeus egípcios para colocarem bombas em instituições, cafés, cinemas e outros locais frequentados por oficiais norte-americanos e britânicos, de forma a culpar a Irmandade Muçulmana e os comunistas pelos ataques. Em 2007, o veterano jornalista Jeff Stein, especialista em Defesa contou na revista do “Washington Post” como o almirante Kevin J. Cosgriff, da Marinha dos EUA, idealizou um plano para criar um casus belli que justificasse a invasão do Irão.

Manifestantes anti-NATO protestam em frente à Casa Branca FOTO: Win McNamee/Getty Images)

Manifestantes anti-NATO protestam em frente à Casa Branca FOTO: Win McNamee/Getty Images)

Em 2022, as “causas bélicas” continuam a ser arma letal. Na era da desinformação que corre pelas redes sociais à velocidade de uma bala, estas fabricações são ainda mais perigosas: rapidez, viralidade e anonimato criam um evento que, quando noticiado e negado pelos envolvidos, já provocou medo e ira em milhões de pessoas. Olga Lautman, investigadora do Centre for European Policy Analysis (CEPA), que segue o caminho da desinformação russa há mais de dez anos, filha de um ucraniano e de uma russa fugidos da União Soviética e apresentadora do podcast “Kremlin File”, explica o submundo russo das fábricas de histórias falsas.

Uma bandeira ucraniana em frente a um edifício danificado nas hostilidades entre forças miitares ucranianas e separatistas russos, que controlam Donetsk e Luhansk, na região de Donbass, no leste da Ucrânia, na fronteira com a Rússia. FOTO: Ali Atmaca/Anadolu Agency/Getty Images

Uma bandeira ucraniana em frente a um edifício danificado nas hostilidades entre forças miitares ucranianas e separatistas russos, que controlam Donetsk e Luhansk, na região de Donbass, no leste da Ucrânia, na fronteira com a Rússia. FOTO: Ali Atmaca/Anadolu Agency/Getty Images

Como lê os últimos desenvolvimentos neste conflito? Escreveu num artigo recente que tudo era “previsível”. Visto de fora não parece muito.
Sim, a comunidade de investigadores e analistas estava à espera disto e escrevemos todos sobre isto. Era tudo muito previsível. Desde março do ano passado que ando a documentar todas estas movimentações e acredito que tudo o que estamos a ver faz parte de uma única operação que começou então. A acumulação de tropas vem de trás. Depois começaram as manobras mais questionáveis — a que chamo propaganda, porque realmente é essa a definição —, quando Putin lançou aquele ensaio, em ucraniano, a defender que ucranianos e russos são apenas um povo. Ao mesmo tempo, os meios de comunicação russos iam passando reportagens de desumanização dos ucranianos. Quando chegou o verão começámos a ver a utilização de migrantes na Bielorrússia como arma contra a Europa, na qual Putin participou, e depois chegaram as ameaças energéticas. Nada disto é de hoje. 

Alguns analistas dizem que o importante para um ataque não é haver homens perto da fronteira, mas artilharia, arsenal pesado. As imagens dos tanques a retirarem-se da Crimeia são falsas?
Não e sim. Não são falsas, mas são apenas imagens de tanques em movimento. O problema é que não estão a ir-se embora. A Rússia, quando chega, não se vai embora. O que aconteceu no Cazaquistão foi que o Kremlin enviou mais de 70 aviões com ajuda humanitária. Poucas semanas depois, anunciaram na agência oficial de notícias que os 19 aviões enviados tinham regressado. Para onde foram os outros? Não há muito que enganar, as imagens de satélite mostram que o equipamento militar ainda lá está. É fácil retirar e trazer de volta militares para a fronteira, em poucas horas. Mais perigoso é todo o equipamento que a Rússia mantém há muitos meses em redor da Ucrânia.

Esta sexta-feira os dois líderes das regiões separatistas de Donetsk e Luhansk anunciaram a retirada de civis, que devem ser enviados para a Rússia. Isto é real?
Já na quinta-feira havia muitas notícias no Telegram e em fóruns que seguimos a dar conta dessa intenção. É provável que venham mesmo a evacuar algumas localidades, para poderem mostrar nas redes sociais. Ou então estão mesmo a preparar uma incursão e querem retirar as “suas” pessoas dali.

Que é um evento de “bandeira falsa”?
É simples: encenar um ataque e pôr as culpas no inimigo. Já tínhamos visto isto na Crimeia, em 2014. Os meios de comunicação ligados ao Kremlin começaram a fazer circular uma história de uma mulher que tinha visto uma criança crucificada por militares ucranianos. Não filmaram este rapaz crucificado, mas puseram cá fora esta testemunha, para haver justificação para a incursão. Houve outros incidentes, por exemplo na Síria. O Ministério da Defesa — não é um qualquer site de conspiracionistas, é o site oficial do Ministério — dizia que os Capacetes Brancos [grupo de voluntários, muitos médicos, que socorrem feridos na Guerra da Síria] estavam a preparar um ataque com armas químicas. Dentro de 72 horas aconteceu um ataque, e as provas acabavam por apontar para uma ação de Assad [Bashar al-Assad, Presidente da Síria] e aliados.

Um sírio em frente à sua casa destruída, na região de Idlib, onde militares sírios e russos conduziram fortes campanhas de bombardeamentos. A ONU condenou os ataques a 12 hospitais e 10 escolas nesta região entretanto dominada, maioritariamente, por membros de grupos terroristas FOTO: OMAR HAJ KADOUR/AFP/Getty Images

Um sírio em frente à sua casa destruída, na região de Idlib, onde militares sírios e russos conduziram fortes campanhas de bombardeamentos. A ONU condenou os ataques a 12 hospitais e 10 escolas nesta região entretanto dominada, maioritariamente, por membros de grupos terroristas FOTO: OMAR HAJ KADOUR/AFP/Getty Images

Por que razão a Rússia faria isso se os seus dirigentes sabem que há possibilidade de a sua mensagem ser analisada e refutada? Ou seja, de ficarem mal vistos?
A Rússia sempre atacou escolas e hospitais na Síria, porque é tudo uma questão de psicologia e sentimento. É assim que funciona a propaganda russa. Todas as suas campanhas, desde o tempo do bloco soviético, têm sido feitas à volta de emoções. Qual é a pior coisa que uma pessoa pode ver? Uma escola destruída. É uma arma poderosa a apontar ao outro lado.

Nos seus últimos artigos fala de alegações contra a Rússia que são graves: que os russos inventaram que havia armas químicas norte-americanas enviadas para o leste da Ucrânia. Como confirmou estas informações?
Não é possível confirmar que haja armas químicas a chegar, acredito que não, mas não é isso que tenho de confirmar. Isso são os russos que têm de conseguir provar, e não há provas. O meu trabalho é ler milhares de sites russos, dos mais conhecidos, estatais, muito citados, passando por contas de Telegram, Twitter, até aos cantos mais obscuros e conspiracionistas. E essas alegações proliferam em todos, sem fontes, sem provas. A Rússia precisa de construir uma narrativa de ataque. Esta história começou em dezembro de 2021, e de novo partiu do Ministério da Defesa. Dizia que mercenários americanos estavam a preparar-se para entregar armas químicas em Donbass. Passadas duas semanas, eram mercenários polacos que iam entrar em Donbass com as armas. Aprenderam muito na Síria.

E também há o caso da Segunda Guerra da Chechénia. Muitos analistas atribuem o início do conflito a um evento de “falsa bandeira”.
É um dos exemplos mais conhecidos, em 1999. Putin ainda estava nos serviços secretos e há provas do seu envolvimento. Explosões em blocos de apartamentos, que mataram mais de 300 russos, foram atribuídas a terroristas chechenos, o que justificou a invasão. É um evento de “bandeira falsa” quando Putin ainda nem estava no poder. Muita gente morreu ou desapareceu, ligada a esse evento: jornalistas e até membros dos serviços secretos, porque ninguém pode saber o que realmente se passou. As táticas são muito parecidas, mas evoluíram com as redes sociais, a abrangência é descomunal.

Soldados chechenos durante a Segunda Guerra da Chechénia, um dos conflitos cuja faísca justificativa foi fabricada pela Rússia, segundo analistas FOTO: Antoine GYORI/Sygma/Getty Images

Soldados chechenos durante a Segunda Guerra da Chechénia, um dos conflitos cuja faísca justificativa foi fabricada pela Rússia, segundo analistas FOTO: Antoine GYORI/Sygma/Getty Images

Era a minha próxima pergunta: com as redes sociais todo o tipo de conteúdo se espalha com grande facilidade, mas ao mesmo tempo há imensas pessoas, profissionais e amadoras, a tentar apanhar coisas falsas na internet. A propaganda não sofre um bocadinho com isso?
Nada. É uma arma muito importante para quem quer fazer propaganda. Pegam numa mensagem, tornam-na numa arma e chegam a milhões de pessoas à velocidade das redes. Se você, jornalista, escrever no Twitter, neste momento, que a Rússia invadiu a Ucrânia, vai ter milhares de interações e milhares de pessoas a publicar o seu tweet. Se cinco minutos depois corrigire a informação, provavelmente 10 pessoas vão publicar a correção. A guerra da informação é dos aspetos mais negligenciados desta guerra, ou de toda a geopolítica, porque é isto que está a dividir os países. As fábricas de trolls [pessoas reais que se dedicam a espalhar informação falsa] e bots [perfis falsos nas redes sociais, criados sem limite, com a mesma função] conseguem espalhar desinformação tão depressa e com tantas interações que acabam por surgir no topo dos murais de milhões de pessoas. É assim que o algoritmo funciona, destaca o que é mais sensacionalista, porque tem mais interações. Eles controlam o algoritmo.

Uma mulher em Simferol, a segunda cidade da Crimeia, num protesto, em 2014, contra a anexação russa que veio a acontecer FOTO Spencer Platt/Getty Images

Uma mulher em Simferol, a segunda cidade da Crimeia, num protesto, em 2014, contra a anexação russa que veio a acontecer FOTO Spencer Platt/Getty Images

Suponho que também utilize muito as redes sociais no seu trabalho. Como é que esta forma de troca de informação tão rápida influencia o trabalho de um analista?
Sim, estamos sempre atentos às redes sociais. O exemplo perfeito é o desta sexta-feira, com a evacuação destas cidades. Passa-se tudo nas redes sociais, só depois é pescado pelos sites oficiais do Estado. Na altura era só “conversa” entre apoiantes de Putin no Twitter e no Telegram, depois passou para as páginas de conspiração e por fim para os vídeos oficiais dos líderes das províncias. Sigo estes caminhos todos e o que vejo é que, muitas vezes, é nas redes que começam a testar uma mensagem, para ver as reações. No minuto em que se vê uma mensagem nalguns sites de jornais ou televisões do Kremlin, sabe-se que se tornou uma narrativa oficial, com que o Kremlin concorda. 

Também vi na sua conta de Twitter uma história sobre o bombardeamento da creche que os russos atribuíram a soldados ucranianos. Segundo a Ucrânia, foram os russos.
É outro exemplo. Nos canais dos apoiantes dos russos isso começou a circular ainda na quarta-feira, mas em minutos estava nos maiores sites de notícias da Rússia, da Interfax à Ria Novosti passando pela MK. Foi desenhado para lá chegar, porque esta área tem sido alvo de bombardeamentos nos últimos oito anos. Porque chegou este caso, em minutos, aos jornais todos? É uma escola, essa é uma das razões.

Também tem exemplos de desinformação propagandeada pelos ucranianos?
Não temos informações que nos digam que a Ucrânia ou os Estados Unidos estão a fabricar eventos falsos. Começou ontem a circular que os serviços secretos norte-americanos não eram confiáveis porque inventaram que Saddam Hussein [ex-Presidente do Iraque] tinha armas de destruição maciça. A questão é que aqui ninguém está a dizer que existem tanques e militares escondidos, eles são visíveis. É possível, através de ferramentas de acesso público de geolocalização, ver os tanques que supostamente estavam a sair da Crimeia a alinharem-se em posição de disparo em direção ao território ucraniano. Além disso, os ucranianos não querem uma guerra, têm a economia destruída, ninguém quer ir de férias ou investir no país, não há razão para criarem eventos de “falsa bandeira”.

Não foi histriónico da parte dos Estados Unidos apontar um dia para a guerra? Até o Presidente da Ucrânia brincou com a situação. É provável que muitos ucranianos se tenham sentido assustados.
Zelensky tem um país para dirigir e quer manter a calma, por isso tem de menosprezar essas informações. Mas, de facto, não faço ideia de onde veio, não consegui encontrar a origem. Considero, e é uma opinião pessoal, que é uma boa estratégia. Impede a Rússia de atacar nos dias em que Biden diz. Além disso, quase tudo tem sido corroborado pela realidade. Terça-feira os Estados Unidos disseram que havia uma ponte a ser construída muito perto de território ucraniano, e eis que imagens de satélite e vídeos confirmam essa ponte flutuante.

Como distingue a informação falsa da correta?
Por experiência, muita. Conheço bem a Rússia, o meu pai é ucraniano e a minha mãe é russa, fugiram da União Soviética, sei bem como funciona o Kremlin e como tem plantado informação sobre tudo, não apenas sobre conflitos que estão nas manchetes todas. Conheço as narrativas, mas nunca ponho nada em nenhum texto, nem no Twitter, que não seja verificável como mentira, que identifico através do cruzamento de testemunhas locais, informações nos sites russos, grupos no Telegram, imagens de satélite, imagens amadoras com proveniência verificada (data, hora, etc). Mais de 90% do que sei não está em lado nenhum. Mas conheço os padrões, é fácil identificar.