Internacional

Líder do Daesh que se fez explodir só saía de casa para tomar banho no terraço. A história de uma operação longamente planeada

4 fevereiro 2022 20:18

Abu Ibrahim al-Hashimi al-Qurayshi era o líder do Daesh, rótulo suficiente para provocar terror a quem o ouça. No entando, o iraquiano de 45 anos que se fez explodir quando soube da chegada dos militares norte-americanos, não tinha um poder comparável ao dos seus antecessores

4 fevereiro 2022 20:18

Nome verdadeiro: Amir Muhammad Said Abdel-Rahman al-Mawla, mais conhecido por Abu Ibrahim al-Hashimi al-Qurayshi. Era o líder do Daesh na Síria e no Iraque, este último o país onde nasceu há 45 anos, e fez-se explodir com toda a família quando soube que os militares norte-americanos estavam perto da sua casa – pouco mais se sabe sobre ele ou sobre a forma como viveu. Sabe-se sim que dirigiu algumas das mais violentas estratégias do Daesh e que muita gente sofreu por causa das suas ordens. “Al-Qurayshi foi o homem por detrás do genocídio contra a minoria religiosa Yazidi no noroeste do Iraque em 2014 e o responsável pela captura e catividade de milhares de mulheres desta minoria, utilizando a violação sexual como arma de guerra durante todos estes anos”, descreveu ao “New York Times” um dos membros do exército norte-americano envolvido na morte do terrorista. 

O ataque na cidade de Atmeh, na província síria de Idlib, no noroeste do país, durou apenas duas horas, mas foi planeado com cuidado e com muito tempo de antecedência. Nesta operação estiveram envolvidos comandos da Army Delta Force, apoiados por um helicópteros Apache armados com uma metralhadora, drones militares e caças, um acervo militar muito parecido com a aquele que entrou em ação para matar o antigo cabecilha do Daesh, Abu Bakr al-Baghdadi.

Tal como o seu antecessor, também Al-Qurayshi escolheu fazer-se explodir, com a sua família ao lado, em vez de se entregar aos militares norte-americanos que, segundo escreve o “New York Times”, lhe terão oferecido, através de uma mensagem em árabe transmitida por megafones, a possibilidade de se deixar deter sem violência. Os americanos tinham recebido informações a confirmar a localização de al-Qurayshi em Atmeh há alguns meses. Depois, no início de dezembro, um espião local ofereceu as coordenadas exatas. 

IUm sírio pastor perto do campo de refugiados de Atmeh, em Idlib, para onde todos os rebeldes que se oposeram ao regime de Bashar al-Assad acabaram por vier viver. Hoje, poucos rebeldes restam, a zona é covil de terroristas de todos os tipos, incluindo do Daesh FOTO Burak Kara/Getty Images

IUm sírio pastor perto do campo de refugiados de Atmeh, em Idlib, para onde todos os rebeldes que se oposeram ao regime de Bashar al-Assad acabaram por vier viver. Hoje, poucos rebeldes restam, a zona é covil de terroristas de todos os tipos, incluindo do Daesh FOTO Burak Kara/Getty Images

Como muitos líderes terroristas, al-Qurayshi quase nunca saía de casa, mantendo as operações do Daesh a funcionar através de uma rede de dezenas de “moços de recados” que levavam as suas ordens às outras células espalhadas pela região. Tal como Bin Laden, al-Qurayshi não usava qualquer aparelho eletrónico para que nenhuma comunicação pudesse ser interceptada por espiões ao serviço dos Estados Unidos ou outras potências ocidentais. Dada a natureza fragmentada da operação do Daesh atualmente, é pouco possível que a sua influência fosse sequer comparável à de outros líderes antes deles.

Um homem de confiança no andar de baixo

Normalmente era visto a tomar banho no terraço no topo do prédio onde vivia com a família, e pouco mais se sabe de quaisquer outros movimentos para fora do terceiro andar que ocupava. No segundo andar vivia um dos seus homens de confiança, também da hierarquia do Daesh, e no primeiro andar vivia uma família síria (dois adultos e quatro crianças) aparentemente sem ligações ao grupo terrorista, e que fugiu quando o helicóptero dos Estados Unidos anunciou as intenções dos militares. 

Conscientes do perigo para os civis e para os comandos, e já a antecipar uma explosão, engenheiros militares tinham avisado o Presidente, Joe Biden, que não acreditavam haver risco de o prédio inteiro desmoronar se al-Qurayshi detonasse um colete suicida ou explosivos maiores no terceiro andar e estavam corretos. A opção por um ataque terrestre, em vez do recurso a bombas ou a um ataque aéreo – que poderia arrasar o prédio – teve em atenção a informação de que haveria pelo menos uma família sem ligações aos terroristas, segundo o que os membros da equipa disseram ao “New York Times”. “Homens, mulheres, crianças, mãos ao alto. Estão seguros e sob proteção da coligação liderada pelos Estados Unidos. Se não saírem do prédio vão morrer”, relatou uma das residentes da zona à agência Reuters.

Imagem aérea do prédio onde residia Abu Ibrahim al-Hashimi al-Qurayshi FOTO U.S. Department of Defense via Getty Images

Imagem aérea do prédio onde residia Abu Ibrahim al-Hashimi al-Qurayshi FOTO U.S. Department of Defense via Getty Images

O outro comandante do Daesh que vivia no segundo andar não se quis render e ainda disparou contra os comandos que entraram no edifício depois de al-Qurayshi se ter feito explodi r,mas foi também ele neutralizado. Morreu, com a mulher e um dos seus filhos. Três crianças e um bebé foram resgatados com vida. Al-Qurayshi tinha tantos explosivos em casa que o seu corpo, e os corpos dos membros da sua família, voaram pela janela e o comandante só foi identificado através do ADN.

Os militares norte-americanos deixaram todos os corpos no local. Biden, que viu toda a operação a partir da Casa Branca, disse aos jornalistas que al- Qurayshi morreu “num último acto de cobardia desesperada”. Dois membros da Al-Qaeda local foram mortos pela metralhadora do helicóptero quando se aproximaram da casa para tentar impedir a operação, segundo informou o Pentágono.

Apesar de, aparentemente, esta ação não ter causado um grande número de baixas civis, os Estados Unidos têm um cadastro pouco recomendável neste tipo de operações. Um estudo de janeiro deste ano, conduzido pelo grupo de analistas militares RAND, culpa os militares norte-americanos por “consideráveis problemas” e “inconsistências” na sua revisão dos casos que envolvem vítimas civis. O último episódio sério aconteceu em Cabul, a 29 de agosto, quando um drone mal posicionado matou 10 civis, sete deles crianças.

Em março de 2019 o Daesh perdeu oficialmente o seu último pedaço de território, um forte retrocesso para um grupo que já dominou mais de 40 mil quilómetros quadrados, subjugando 8 milhões de pessoas às leis medievais que advoga. A maioria dos analistas reconhece que, nesta zona, o auto-proclamado califado não parece estar a conseguir recompor-se, mas os perigos da influência ideológica destes homens não devem ser menosprezados. “Vejo isso como um tipo de impulso de propaganda ao Daesh na maneira de recrutar e espalhar mais propaganda”, disse, citado pelo “New York Times”, Ardian Shajkovci, diretor do American Counterterrorism Targeting and Resilience Institute, um grupo de investigadores sem fins lucrativos focado na análise a vários de extremismo.

A força destes militantes ficou clara no recente assalto a uma prisão no nordeste da Síria, onde os curdos que combatem ao lado da coligação têm encarcerado os homens e mulheres do Daesh. Mais de 200 combatentes mobilizaram-se para tentarem libertar os presos, e 14 deles fizeram-se explodir. As forças curdas demoraram mais de uma semana para voltar a garantir a segurança do complexo. E basta olharmos para Cabo Delgado e muitas outras zonas de África para ser difícil colocar de lado o perigo deste que foi e é o grupo terrorista com os métodos mais bárbaros do mundo.