Internacional

A estranha história dos doze migrantes encontrados mortos à beira de uma estrada na Turquia. De que morreram? Como chegaram ali?

2 fevereiro 2022 20:11

Um guarda turco perto do rio Evros, na cidade de Edirne, por onde milhares de pessoas tentam entrar na Grécia FOTO: Getty Images

As acusações de propaganda não demoraram a surgir depois de o ministro do Interior da Turquia ter colocado fotografias de corpos de migrantes no Twitter, acusando a Grécia de deixar as pessoas morrer. Mas a história tem muitos outros ângulos e a Turquia também tem sido acusada de maltratar e devolver pessoas à Grécia

2 fevereiro 2022 20:11

A acreditar nas autoridades turcas, que encontraram os 12 corpos, estas pessoas morreram de hipotermia depois de terem sido rejeitadas como requerentes de asilo na Grécia. Mas como é que estas 12 pessoas, todas identificadas como migrantes que tinham tentado passar para a Grécia, aparecem estendidas na berma de uma estrada de uma pequena vila perto da fronteira? Morreram ao mesmo tempo? Como é que se morre de frio ao mesmo tempo que outra pessoa?

A história não é clara mas há incidentes passados, nesta mesma zona, que podem explicar o cenário que levou à morte destas pessoas, como à de muitas outras. E a culpa, ao contrário do que já veio dizer o ministro turco do Interior, Süleyman Soylu, através de uma publicação no Twitter onde mostra oito corpos (fotografias esbatidas) de migrantes na estrada, não é apenas da Grécia. 

É verdade que os reenvios de migrantes da Grécia para a Turquia pelo rio Evros, que separa os dois países, são violentos, cada vez mais comuns e resultam em afogamentos; mas também há relatórios que mostram a violência perpetrada pelos guardas turcos que vigiam o rio, e que, muitas vezes, voltam a enviar para a Grécia pessoas que já foram enviadas da Grécia para a Turquia, num vai e vem que chega a durar um dia inteiro, durante o qual as pessoas não têm acesso a comida, cuidados médicos, água ou agasalhos. 

O caso dos 12 migrantes encontrados mortos insere-se, provavelmente, num outro “tipo” de reenvio, que acontece quando nenhum dos dois países quer “receber” as pessoas. Nestes casos, os guardas turcos ou os guardas gregos acabam por depositar as pessoas até nas ilhas que existem ao longo do rio, onde não há forma de sobreviver.

O Expresso conseguiu falar com dois membros de organizações não-governamentais que se dirigiram à vila onde os migrantes foram encontrados, Pasakoy (na zona noroeste da Turquia), para tentar entender o que se pode ter passado e, apesar de não ser possível culpar nenhum dos lados por estas mortes, o acontecimento é “consistente com outros casos de mortes nas ilhas do Evros, em que as pessoas simplesmente são abandonadas e descobertas apenas quando estão mortas, às vezes até por outros migrantes que são lá deixados e encontram os corpos”, diz uma ativista.

Na resposta à publicação do ministro, muitos são os comentários que expressam as mesmas dúvidas, e que acusam o Estado turco de desinformação, por não oferecer provas de que estas pessoas morreram porque foram maltratadas e abandonadas ao frio pelos gregos. É certo que esta é uma possibilidade, até porque não é a primeira vez que há mortes no Evros.

Uma das histórias mais conhecidas é a do sírio Alaa Al Bakri, encontrado já morto pelos militares turcos a 3 de setembro de 2021, numa das muitas ilhotas que povoam o Evros, após uma denúncia de um ativista sírio que conhecia Al Bakri. De acordo com os dados recolhidos pela organização Josoor, que trabalha quase exclusivamente com casos de pessoas devolvidas, Al Bakri atravessou para a Grécia na penúltima semana de agosto, e mostrava sinais de doença como tosse, febre e fraqueza. Por isso mesmo, disse aos seus colegas que continuassem sem ele, que precisava de encontrar ajuda e por isso ia entregar-se às autoridades. Assim o terá feito mas apenas conseguiu ser deportado para uma destas ilhas, com um cidadão paquistanês.

Os dois foram encontrados por um outro grupo de migrantes que também acabou por ser devolvido para a mesma ilha três dias depois. Nesse grupo, um dos migrantes tinha conseguido esconder um telefone que não foi por isso recolhido pelas autoridades gregas e deu o alerta, mas Al Bakri já tinha morrido. Com as temperaturas em Edirne sempre no zero ou abaixo disso durante toda esta semana, a suspeita dos ativistas é a de que estas pessoas tenham morrido em outro local, tendo sido posteriormente levadas para a beira da estrada. “A posição dos corpos é muito estranha, tudo é estranho”, disse outro ativista.

A Grécia já negou qualquer envolvimento na morte destas pessoas. O ministro das migrações, Notis Mitarakis, assegurou, através de um comunicado, que esses migrantes não foram vítimas de uma devolução pelas autoridades do país. “A verdade por detrás deste incidente não tem nada que ver com a propaganda falsa que o meu homólogo, o ministro Soylu, divulgou”, frisou Mitarakis.

A prática de deixar as pessoas em ilhas é “fácil” porque evita confrontos entre forças militares gregas e turcas numa zona que já foi palco de grande violência em fevereiro e março de 2020, quando a Turquia, para tentar pressionar a Europa a enviar mais fundos para ajudar a reter os migrantes, abriu as fronteiras e informou os mais de cinco milhões de pessoas indocumentadas no país que poderiam dirigir-se a Edirne se quisessem passar para a Europa. Quando chegaram, depararam-se com centenas de militares gregos a impedir a passagem e durante uma semana houve confrontos diários que fizeram dois mortos e centenas de feridos. 

Migrantes do mar Egeu, antes de serem salvos pela Guarda Costeira grega, em 2015 FOTO ARIS MESSINIS/AFP via Getty Images

Migrantes do mar Egeu, antes de serem salvos pela Guarda Costeira grega, em 2015 FOTO ARIS MESSINIS/AFP via Getty Images

O acordo assinado em 2016 entre a União Europeia e a Turquia (no valor de €6 mil milhões) obriga as autoridades turcas a impedir que os barcos com migrantes partam das praias no mar Egeu – por onde muitos migrantes chegam às ilhas gregas, mas nada diz sobre a barreira natural no noroeste da Turquia que, por ser muito menos vigiada, se tornou o ponto de passagem de milhares de migrantes nos últimos anos. 

A impunidade com que essas práticas são conduzidas não se deve à ausência de investigações jornalísticas nem às denúncias de organizações de direitos humanos como o próprio Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, mas até agora a Grécia continua a negar que exista qualquer prova de que os seus militares estão envolvidos em práticas ilegais de devolução de pessoas já depois de terem pisado solo grego – o que é ilgal à luz da lei internacional, em que fica claro que uma pessoa pode pedir proteção internacional assim que coloque o pé em qualquer país signatário da Convenção de Genebra de 1951, o documento que garante os direitos de refugiados e outras populações em risco. 

Dimitris Koros, advogado do Conselho Grego para os Refugiados (GRC, na sigla em inglês), publicou recentemente um artigo académico sobre o problema dos reenvios ilegais, com várias provas de que a prática acontece há anos, desde 2009 pelo menos, mas, como explicou ao Expresso ao telefone a partir de Atenas, “antes era uma política migratória raramente usada”. Em 2016, quando a Europa assinou o acordo com a Turquia para impedir os refugiados de partir das praias turcas em direção às praias gregas das ilhas do Egeu, tornou-se “a primeiríssima política migratória do Estado grego”.