Internacional

Negócio de passaportes falsos abre as portas da Europa a terroristas do Daesh

1 fevereiro 2022 12:47

Passaportes sírios contrafeitos apreendidos na Alemanha FOTO: Sebastian Gollnow/Getty Images

É uma indústria em crescimento na internet. Vendedores de passaportes falsificados, mas de muito boa qualidade, estão a permitir que combatentes do Daesh viagem para países ocidentais. Uma investigação do diário britânico “The Guardian” alerta para as consequências que este negócio pode ter na segurança europeia

1 fevereiro 2022 12:47

Militantes do autodenominado “Estado Islâmico” (Daesh), o grupo terrorista que chegou a controlar parte substancial da Síria e do Iraque, estão a usar passaportes falsos com vistos válidos para entrar em países ocidentais. Os documentos são conseguidos na internet, onde “uma indústria crescente” especializada em “passaportes falsos com vistos oficiais e carimbos de viagem está a oferecer a pessoas com ligações ao Daesh a oportunidade de deixarem a Síria e viajarem para o Reino Unido, União Europeia, Canadá e Estados Unidos” apurou uma investigação do jornal britânico “The Guardian”.

A União Europeia surge como destino mais procurado. Para concretizar essa viagem, vendedores de documentos falsos desenrascam passaportes para todas as bolsas: russos, quirguizes ou cazaques para quem tem pouco dinheiro (ainda assim 5000-6000 dólares/4500-5400 euros); passaportes da Ucrânia ou da Moldávia, que permitem viajar sem visto para a UE, são opções mais caras; mais avultado é um passaporte UE, solicitado em especial por cidadãos ocidentais ou por árabes fluentes na língua francesa.

Desde que os talibãs assumiram o poder no Afeganistão que uma nova base de clientes ganhou expressão neste negócio – os afegãos em fuga do seu país, em busca de asilo num país ocidental.

Bons ou maus, tudo é negócio

No artigo que publica esta segunda-feira, o jornal londrino identifica um vendedor de nacionalidade uzbeque residente na Turquia – país vizinho à Síria –, que vende “passaportes falsos de alta qualidade” a 15 mil dólares cada (13 mil euros). Promove o negócio na rede de conversação Telegram.

“Não é minha função ver quem é e quem não é mau. São os serviços secretos que devem lidar com isso”, afirmou o uzbeque em mensagens trocadas com uma fonte de “The Guardian” que se fez passar por cliente interessado. O jornal explica como, normalmente, são conseguidos os passaportes. “Um cidadão da UE chega à Turquia com o seu próprio passaporte, vende-o ao uzbeque e aos seus colegas por cerca de 2500 euros, depois a fotografia do passaporte é alterada para a de um cliente. Então o proprietário original do passaporte alega que o perdeu e solicita a substituição no consulado do seu país em Istambul”. Os vistos e carimbos são conseguidos pagando subornos.

Por 500 dólares (448 euros), o vendedor uzbeque consegue ‘fazer desaparecer’ o cliente dos radares oficiais através de uma certidão de óbito turca. “A não ser que a pessoa seja Abu Bakr al-Baghdadi [líder do Daesh, morto em 2019], ninguém vai à morgue confirmar se a pessoa morreu mesmo. Limitam-se a aceitar o documento e a colocá-lo no sistema”, diz.

Como alerta o diário britânico, “este comércio crescente sugere que extremistas perigosos podem estar adormecidos sob o radar dos serviços de segurança em todo o mundo, a escapar à justiça por crimes passados e potencialmente ser capazes de continuar com atividades terroristas noutros países além da Síria”.