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Alterações climáticas: o megaicebergue A-68 já se esvaiu e a nova preocupação dos cientistas é o “apocalíptico” Thwaites

31 janeiro 2022 14:16

Imagem de satélite do icebergue A-68, tirada no início de 2021 Foto: Getty Images

O mega icebergue A-68 acabou por se desintegrar no oceano Antártico, libertando 152 mil milhões de toneladas de água doce, cujos impactos nas correntes oceânicas e na biodiversidade marinha ainda estão por apurar. Mas os cientistas estão agora sobretudo preocupados com o colapso iminente do glaciar Thwaites, no Oeste da Antártida, que pode fazer subir o nível do mar perto de um metro acima do que se previa em consequência das alterações climáticas

31 janeiro 2022 14:16

“Como um cubo de gelo num copo de água, um icebergue, quando derrete, não aumenta a quantidade de água no copo”, ilustra o engenheiro geógrafo Carlos Antunes. A imagem serve para perceber que as 152 mil milhões de toneladas de água doce libertadas em três meses pelo gigante A-68 não têm um efeito imediato na subida do nível médio do mar. Contudo, “o efeito em cascata associado ao encolher do gelo marinho na Antártida, que assim oferece menos resistência aos glaciares que transportam gelo do continente para o mar cada vez mais rapidamente, esse sim fará subir o nível médio do mar”, explica ao Expresso o investigador do departamento de Engenharia Geográfica e Geofísica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

A conversa teve como ponto de partida o derretimento do gigante A-68, o megaicebergue que ameaçou colidir com a ilha da Geórgia do Sul e acabar com a sua população de pinguins. Ao fim de três anos e meio a vaguear pelo Oceano Antártico (após ter-se desprendido da plataforma de gelo Larsen-C na Antártida em julho de 2017), o A-68 acabou por desfazer-se em pequenos pedaços. Pelo caminho, só nos últimos três meses de deambulação, em 2021, libertou o equivalente à água de 61 milhões de piscinas olímpicas. Os dados foram apresentados recentemente por cientistas do Centre for Polar Observation and Modelling e do British Antarctic Survey, com base em imagens de satélite da Agência Espacial Europeia. 

As descargas de água doce e de nutrientes do megaicebergue (que chegou a ter uma superfície de 6000 km2) terão impactos nos ecossistemas locais e nas correntes marinhas e essas consequências estão a começar a ser avaliadas. Já os da descarga colossal de água gelada na subida do nível médio do mar incluem outras variáveis, como o degelo de glaciares e o efeito de “feedback” das alterações climáticas. 

O apocalíptico Thwaites

A nova preocupação (desde há dois anos pelo menos) é o possível colapso do glaciar Thwaites, localizado no Oeste da Antártida. Apelidado de “glaciar apocalíptico”, o colapso deste glaciar poderá fazer subir o nível médio do mar cerca de 65 centímetros, apontam os cientistas. Este valor equivale ao triplo de subida do mar (20 cm) verificado globalmente desde 1900, com efeitos já visíveis em perda de territórios costeiros e inundações e salinização mais frequentes.

“Há 125 mil anos, o colapso de glaciares nesta região do sudoeste da Antártida contribuiu para uma subida de seis a nove metros do nível do mar nos séculos seguintes”, lembra Carlos Antunes. O último relatório do painel científico da ONU (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, conhecido pela sigla IPCC) projeta uma subida de um metro até final do século XXI, tendo em conta as emissões de gases de efeito de estufa atuais, “sem contemplar um cenário de colapso do Thwaites, na bacia do Mar de Amundsen, na Antártida”.

O Thwaites é um rio congelado do tamanho da Grã Bretanha (com 120 km de diâmetro) e já perdeu cerca de um bilião de toneladas de gelo (50 mil milhões por ano) nos últimos 20 anos, contribuindo para 4% da subida atual do nível médio do mar, alertam os cientistas. O glaciar tem revelado um aumento de fendas e rachas e pode colapsar em cinco a 10 anos, projetam. “É como quando temos rachas no vidro de um carro, que se propagam lentamente, mas que num dia em que o carro embate num buraco todo o vidro fica estilhaçado”, exemplificou Erin Pettit, glaciologista da Universidade Estatal do Oregon (EUA), num encontro da associação Americana de Glaciologistas, em dezembro passado.  

Se o colapso acontecer, desencadeará um efeito dominó que arrastará outros glaciares, fazendo subir o nível médio do mar em mais pelo menos um metro até final do século e muito mais que isso nos seguintes, inundando cidades como Nova Iorque, Xangai, Tóquio ou Lisboa. “Todos os países costeiros serão afetados”, frisa o investigador português. E no caso de Portugal e de Lisboa, as projeções com base nos cenários atuais apontam para que “a baixa sofra inundações de 15 em 15 dias, com as marés vivas e uma subida de dois metros do nível médio do mar”. 

O efeito cascata

O desprendimento e degelo de grandes blocos de gelo no Ártico, sobretudo na Gronelândia, e na Antártida “já está a afetar as correntes do oceano Atlântico e a meteorologia, que depende da energia do oceano”, lembra Carlos Antunes. E explica: “A corrente do Golfo transporta água quente das Caraíbas para Norte e se as águas não subirem, quebram-se equilíbrios e surgem super furacões na região das Caraíbas, por exemplo.” 

Falta de chuva e seca extremas num ponto do globo ou chuva em excesso noutro podem ser outras das consequências desta alteração de equilíbrios nos oceanos e na atmosfera. Na base disto tudo está “o efeito em cascata que amplifica o processo de aquecimento global”, segundo o investigador, num ciclo vicioso de causas e efeitos em que o aquecimento leva a degelo que leva a mais aquecimento, refletindo a linha vermelha ultrapassada dos limites planetários.