Internacional

Um barco de borracha, 31 mortos, dois sobreviventes: “Um dia de grande luto para França, para a Europa, para a Humanidade”

24 novembro 2021 23:42

Mara Tribuna

Mara Tribuna

Jornalista

gonzalo fuentes

Aconteceu esta quarta-feira no Canal da Mancha: 34 migrantes seguiam num barco insuflável que acabou por naufragar - 31 morreram, dois foram resgatados mas correm risco de vida e um está desaparecido. Há quatro detidos. “França não vai deixar que o Canal se torne um cemitério”, diz Macron

24 novembro 2021 23:42

Mara Tribuna

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Jornalista

Pelo menos 31 pessoas morreram esta quarta-feira ao tentar atravessar o Canal da Mancha, que liga França ao Reino Unido. A embarcação — um barco insuflável — virou e os migrantes acabaram por se afogar ao largo de Calais. Segundo o ministro do Interior francês, Gerald Darmanin, é o pior desastre de que há registo envolvendo migrantes nas águas que separam os dois países.

Seguiam 34 pessoas a bordo, de acordo com o ministro do Interior de França. Duas foram resgatadas, uma está desaparecida e as restantes 31 (incluindo cinco mulheres e uma menina) acabaram por morrer. “Há dois sobreviventes mas a sua vida está em perigo, eles estão a sofrer de hipotermia severa”, disse Gerald Darmanin. As nacionalidades e identidades dos migrantes ainda não são conhecidas.

Entretanto foram detidas quatro pessoas por suspeita de tráfico de seres humanos e de estarem envolvidos nesta tragédia.

Após o naufrágio, a procuradora regional abriu uma investigação de homicídio involuntário agravado, migração ilegal organizada e outras acusações. A procuradora de Lille, Carole Etienne, cujo gabinete está a supervisionar a investigação, disse que as autoridades ainda estão a trabalhar para identificar as vítimas, determinar as suas idades e nacionalidades. Carole Etienne disse à Associated Press que a investigação pode envolver vários países, à medida que surgirem mais informações sobre os migrantes.

gonzalo fuentes

“É um dia de grande luto”

“É um dia de grande luto para França, para a Europa, para a Humanidade”, lamentou Gerald Darmanin. “França não vai deixar que o Canal se torne um cemitério”, disse por sua vez o presidente francês. Emmanuel Macron acrescentou que a agência de fronteiras da União Europeia, a Frontex, devia ter mais financiamento para proteger as fronteiras da UE e impedir a chegada de mais migrantes à costa do norte de França.

Já o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, disse ter ficado “chocado e aterrorizado e profundamente entristecido” com as mortes. “Os meus sentimentos e pêsames estão com as vítimas e as suas famílias. Este desastre realça como é perigoso atravessar o Canal desta forma”, disse depois de presidir a uma reunião de emergência.

Boris Johnson apelou ainda a França para redobrar os esforços de forma a conter o fluxo de migrantes. Disse ainda que o acidente mostrou como os esforços das autoridades francesas para patrulhar as suas praias “não têm sido suficientes”.

Um grupo de ativistas manifestou-se esta quarta-feira à noite no porto de Calais, acusando os governos de não fazerem o suficiente para responder às necessidades dos migrantes.

henry nicholls

Travessias triplicaram em relação a 2020

As autoridades francesas e britânicas apanharam milhares de migrantes no Canal da Mancha nas últimas semanas, em dezenas de operações de salvamento.

A Associated Press diz que o número de travessias em pequenas embarcações cresceu acentuadamente este ano, apesar dos elevados riscos e perigos. Mais de 25.700 pessoas atravessaram o Canal este ano — o triplo em relação a 2020.

O Canal da Mancha é uma das rotas de navegação mais movimentadas do mundo. Mas as correntes são fortes e os barcos sobrecarregados muitas vezes mal conseguem flutuar, ficando à mercê das ondas enquanto tentam alcançar a costa britânica.

Segundo pescadores locais ouvidos pela agência Reuters, mais migrantes do que o habitual tinham partido da costa francesa para aproveitar as condições calmas do mar esta quarta-feira.

Um pescador, Nicolas Margolle, disse que tinha visto dois pequenos botes mais cedo, um com pessoas a bordo e o outro vazio. Outro pescador tinha chamado uma equipa de salvamento depois de ter visto um bote vazio e 15 pessoas a flutuar, inconscientes ou mortas.

Antes do desastre desta quarta-feira, 14 pessoas tinham-se afogado este ano ao tentarem chegar ao Reino Unido, segundo a Reuters. Em 2020, um total de sete pessoas morreram e duas desapareceram, enquanto em 2019 morreram quatro pessoas.