Internacional

Governo etíope diz que não recuará na "guerra existencial" contra as forças de Tigray

4 novembro 2021 18:04

Conflitos na Etiópia entre o governo e grupos rebeldes

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O governo etíope afirma que "o país não vai ceder à propaganda estrangeira" e que também "não recuará na guerra existencial" contra os grupos rebeldes da região do Tigray, mostrando que rejeita os pedidos de cessar-fogo

4 novembro 2021 18:04

A Etiópia não recuará na "guerra existencial" com as forças do estado rebelde do Tigray, no norte do país, afirmou esta quinta-feira o governo federal etíope, num sinal claro de que rejeita os apelos internacionais a um cessar-fogo.

"Este país não vai ceder à propaganda estrangeira! Estamos a travar uma guerra existencial", afirmou o ministério etíope da Informação, numa declaração publicada na rede social Facebook, dias após as forças estaduais sob o comando da Frente Popular de Libertação do Tigray (TPLF, na sigla em inglês) afirmarem a intenção de avançar sobre a capital, Adis Abeba.

O Alto Representante da União Europeia para a Política Externa apelou hoje ao "cessar-fogo com efeito imediato" na Etiópia e manifestou preocupação com a escalada do conflito.

"A União Europeia reitera que não há solução militar e apela a todas as partes em conflito para que implementem um cessar-fogo significativo, com efeito imediato, e se empenhem em negociações políticas sem condições prévias", afirmou Josep Borrell, num comunicado.

O chefe de diplomacia europeia sublinhou que, após um ano de guerra, "o conflito no norte da Etiópia agravou-se e expandiu-se, criando uma crise humanitária devastadora e minando a integridade territorial".

A União Europeia está "particularmente preocupada" com a recente escalada na região de Amhara e com o avanço militar da TPLF, afirmou ainda Borrell.

Grupo rebelde anuncia controlo de cidades

A TPLF anunciou no início desta semana que as suas forças tinham tomado o controlo das cidades de Dessie e Kombolcha na região de Amhara, a apenas 400 quilómetros de Adis Abeba, ao que governo etíope respondeu com a declaração de estado de emergência em todo o país.

A TPLF, que governou a Etiópia durante décadas e luta há um ano contra o exército federal do país, anunciou na quarta-feira que tinha tomado a cidade de Kemissie, a 325 quilómetros a norte de Adis Abeba.

As forças tigray aliaram-se em agosto a combatentes rebeldes de etnia oromo reunidos no Exército de Libertação Oromo (OLA). Um porta-voz do OLA afirmou na quarta-feira à agência France-Presse que Adis Abeba poderá cair dentro de semanas.

A resposta hoje do Governo etíope garante o contrário e afirma que a TPLF está "cercada" e perto da derrota. "Um rato que se afasta do seu buraco está mais perto da morte", lê-se na declaração divulgada no Facebook, numa aparente referência à ofensiva da TPLF fora da sua região, o estado de Tigray.

"Devemos todos unir-nos (...) para silenciar os nossos inimigos, que estão bêbados com vitórias temporárias. Juntos, vamos repelir as veleidades dos nossos inimigos históricos", acrescenta o texto.

"O nosso povo, compreendendo que estamos no capítulo final da salvação da Etiópia, deve continuar a sua luta heroica", prossegue ainda.

EUA pedem fim dos conflitos

Face ao recente recrudescimento dos combates no norte do país, os Estados Unidos da América (EUA) apelaram a todas as partes envolvidas para que cessem as hostilidades. O enviado norte-americano ao Corno de África, Jeffrey Feltman, era esperado esta quinta-feira em Adis Abeba para promover uma solução pacífica para o conflito.

A embaixada dos EUA em Adis Abeba anunciou hoje que está a permitir que a maior parte do seu pessoal e respetivas famílias saia do país voluntariamente.

"As viagens para a Etiópia são perigosas devido ao conflito armado em curso. Podem ocorrer distúrbios civis e violência étnica", advertiu ainda a embaixada no seu portal na Internet, estimando como "provável" uma "nova escalada, que poderá resultar em escassez de oferta, ruturas de comunicação e perturbações nas viagens".

A administração norte-americana tem sido uma mais críticas do Governo federal da Etiópia, que está em guerra com o governo estadual do Tigray há um ano.

O estado de Tigray, no norte da Etiópia, é palco de combates desde 04 de novembro de 2020, quando o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, enviou o exército federal para derrubar as autoridades regionais da TPLF, que acusou de orquestrarem ataques a campos militares federais naquele estado no norte do país.

O conflito estendeu-se por vários meses até que os combatentes pró-TPLF recuperaram o controlo da região em finais de junho último e as tropas federais retiraram.

Desde então, os combates alastraram-se aos estados vizinhos de Afar e Amhara e prosseguem agora em direção à capital etíope. As forças federais etíopes têm contrariado as ofensivas rebeldes sobretudo através da força aérea.