Internacional

Ex-espião que lançou suspeita de conluio entre equipa de Trump e russos diz que Moscovo "pode provocar colapso da UE"

23 outubro 2021 21:10

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

Christopher Steele, ex-espião britânico que, com a sua empresa privada de investigações, encontrou indícios que a equipa de Donald Trump tivesse estado em contacto com pessoas próximas do Kremlin durante a campanha de Trump para a presidência

victoria jones - pa images/getty images

Durante quatro anos ficou em silêncio, a tentar recompor-se do impacto que o relatório bombástico que escreveu sobre os contactos da equipa de Donald Trump com pessoas próximas do Kremlin durante a campanha para as eleições presidenciais teve na sua vida pessoal. Christopher Steele, ex-espião do MI6, regressa agora às entrevistas para alertar para a "complacência" do Ocidente com a China e com a Rússia

23 outubro 2021 21:10

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

Christopher Steele ficou famoso muito depois de ter abandonado um dos mais romanceados serviços secretos do mundo: o MI6 britânico.

Com 45 anos deixou a vida de secretismo e aos 52 viu-se envolvido num frenesim mediático que nunca fez parte do seu trabalho. Na verdade, durante grande parte da sua vida essencial mesmo era que ninguém soubesse quase nada sobre si.

Em 2015, um ano antes da eleição de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos, o Partido Democrata encomendou à empresa de detetives privados que Steele criou depois de deixar o MI6, a Orbis Business Intelligence, uma investigação que visava tentar confirmar rumores de ligações entre membros da campanha de Trump e homens próximos de Vladimir Putin, Presidente da Rússia.

As conclusões da sua investigação privada foram publicadas pelo site Buzzfeed em 2017 e o impacto foi significativo, já que foi por causa deste relatório que o FBI deu início a uma investigação sobre essas tais suspeitas de conluio. Foi Steele que deu o alerta aos investigadores federais norte-americanos, apesar de hoje ter a sensação de que os serviços de informações tinham também bastante informação, mas "tornaram-se politizados" e por isso "não libertaram informação" sobre o conluio entre a equipa de Trump e russos com ligações a Putin ou sobre como essas ligações podem ter tido influência no processo democrático pelo qual Trump foi eleito em 2016.

Em defesa do relatório

A veracidade do que vem escrito nesse relatório foi amplamente questionada pelos republicanos e de facto uma das alegações mais escaldantes nunca ficou provada: a de que os russos teriam na sua posse uma cassete sexual de Donald Trump e que o então Presidente estaria a ser alvo de chantagem. Ora, essa cassete nunca apareceu.

Por outro lado, coisas como os frequentes contactos entre a equipa de Trump e pessoas próximas do Kremlin ou as suspeitas de tentativa de interferência dos russos nas eleições de facto foram confirmados mais tarde pelo relatório do investigador-especial Robert Mueller. A equipa de Mueller encontrou provas de mais de 100 contactos entre a campanha de Trump e pessoas influentes junto do Kremlin.

Ameaças dos russos ainda existem e até estão piores

Por altura do lançamento de um novo documentário sobre o relatório que manchou de dúvida toda a presidência de Trump, Steele deu esta semana uma série de entrevistas e mantém que o seu relatório está correto na maioria das conclusões, apesar de talvez “não ser 100% certo” em tudo. Ao canal ABC, o ex-espião garante que decidiu voltar à ribalta porque “os problemas que existiam em 2016 não desapareceram, de facto tornaram-se mais graves”.

Sobre estas suspeitas, Steele disse à britânica Sky News que “pessoas muito importantes no topo da política da Rússia consideram que estão em guerra com o Reino Unido”. O problema, no entender do ex-espião, é as cúpulas do poder no Ocidente “não quererem nem reconhecer nem lidar com o problema”.

Antes do referendo do Brexit, em 2016, Steele e a sua equipa estavam a investigar o grau de interferência russa nos países europeus. Questionado sobre se já havia conseguido alguma prova destas suspeitas, respondeu apenas "sim". Não deu detalhes sobre a informação já recolhida, mas adiantou que “há provas de que a Rússia canalizou dinheiro para a campanha do Brexit" e de “influência russa nos esforços para provocar divisão na União Europeia”. Algo que o levou a concluir isto: "A Rússia pode provocar o colapso da União Europeia".

Analisar as atividades dos russos, especialmente na internet - onde empregam enxames de perfis falsos para propagar informação falsa, exagerada, extremista -, “foi como ver a propagação de um vírus que se moveu para o oeste, começou em lugares como a Ucrânia e a Geórgia e caminhou por aí em diante, entrou na Europa Oriental, depois na Europa Ocidental e depois deu o salto para o outro lado do Atlântico, para os EUA em 2016".

Enviado para a embaixada britânica em Moscovo depois de um processo de recrutamento que mantém secreto ainda hoje, já no estertor do grande poderio soviético, Steele conheceu Gorbachev e o próprio Putin ter-lhe-á servido um chá em São Petersburgo, "alegadamente sem veneno", disse à Sky, numa referência aos vários episódios de envenenamento de críticos que têm sido atribuídos ao atual regime em Moscovo.

Depois da queda do Muro de Berlim e das declarações de independência em cadeia um pouco por todo o já ex-império soviético, o Reino Unido, na opinião de Steele, despreocupou-se em demasia. "Havia imensa complacência, toda aquela doutrina do fim da História, do triunfo da democracia e uma das coisas que me preocupam é que passámos a acreditar que as pessoas escolhem sempre, se puderem, a democracia, o estado de direito e os direitos humanos. Essa assunção está a ser severamente questionada".

Não considera que esteja em perigo de vida, mas lembra um episódio que o deixou alerta. Em 2018, ano e meio depois de o seu relatório ter sido publicado, duas alianças apareceram misteriosamente dentro da mala da sua mulher, durante as férias do casal num hotel de luxo e de alta segurança nas Caraíbas. Steele acredita que foi uma mensagem dos russos: "Sabemos quem és e conseguimos chegar até ti sem problemas, não penses que consegues esconder-te de nós".