Internacional

China anuncia exercícios militares para "treinar desembarque em praia". Mais um susto em Taiwan

12 outubro 2021 17:31

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

Exercícios militares em Taiwan, uma ilha que se vê como independente da China mas que a China não reconhece, tal como várias organizações internacionais. Muitos países europeus e muito claramente os Estados Unidos são defensores públicos da independência de Taiwan

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Em vídeos publicados no Weibo, uma rede social chinesa parecida com o Twitter, o Exército de Libertação Popular mostra os seus soldados a abrir trincheiras na areia, a descarregar granadas a partir de lanchas e toda uma série de exercícios que teriam de realizar se quisessem invadir a ilha de Taiwan

12 outubro 2021 17:31

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

A China anunciou esta terça-feira que tem conduzido, com sucesso, exercícios militares que visam treinar as tropas chinesas para “desembarcar na praia”, segundo uma publicação feita pelo jornal oficial do Exército de Libertação Popular publicado na sua conta do Weibo (uma espécie de Twitter chinês). A notícia, avançada pela Reuters, elevou o alerta em Taiwan, isto depois de uma semana muito tensa entre a pequena democracia e Pequim, uma capital decida a absorver a ilha como fez com Hong Kong e Macau. Mas o Governo de Taiwan parece disposto a lutar, apesar de ser praticamente impossível vencer uma guerra aberta com a China sem intervenção dos Estados Unidos.

Nos primeiros dias de outubro, 38 aeronaves militares chinesas cruzaram a zona de identificação de defesa aérea do sudoeste de Taiwan (ADIZ), a maior contagem em um único dia desde que os registros de incursões foram tornados públicos em setembro do ano passado. Nos dias seguintes os números foram crescentes até atingirem os 56 aviões despachados para a zona.

A pergunta de sempre permanece: por muito solidários que os Estados Unidos se tenham mostrado com a luta de Taiwan contra as investidas (até agora retóricas) da China, se realmente as ameaças se transformarem em mísseis, os norte-americanos estão disponíveis para a batalha? É difícil discernir julgando pelas declarações mornas que têm chegado de Washington.

Certo é que estes treinos militares assustam. A acompanhar o anúncio, o jornal publicou também vídeos onde se podem ver alguns solados a abrir trincheiras na areia e a atirar granadas para zonas costeiras, lançadas a partir de lanchas. Todos os treinos e cenários de combate são específicas para um cenário de invasão por mar. “Os exercícios foram divididos de ondas de ataque de forma a treinar como tomar uma praia e os vários grupos executaram manobras de combate em várias fases”, lê-se no jornal, citado pela Reuters. As imagens terão sido captadas no sul da província de Fujian.

Taiwan é uma nação onde os líderes são democraticamente eleitos, a independência na Justiça não é posta em causa e a liberdade de imprensa também está assegurada. Olhando para as mudanças que estão a acontecer em Hong Kong, vários críticos do Governo chinês apontam para a quase impossibilidade de que Taiwan se mantenha fiel aos princípios democráticos depois de uma eventual tomada de poder da China.

“É preciso que sejamos muito claros e dizer aos chineses que poderão perder tudo se começarem uma guerra com Taiwan. Os Estados Unidos também têm de, rapidamente, ajudar Taiwan a libertar-se de 40 anos de isolamento militar e diplomático”, disse ao jornal norte-americano de assuntos de Defesa “Stars and Stripes” Grant Newsham, primeiro oficial de ligação da Marinha norte-americana junto das Forças de Auto-Defesa do Japão. Um compromisso de defesa acabaria, de facto, com todas estas décadas de incerteza sobre a possibilidade de qualquer intervenção militar dos Estados Unidos no Estreito de Taiwan mas mesmo que decidam não entrar numa guerra aberta, há outras possibilidades de pressão que os Estados Unidos podem exercer, em parceira com outros países aliados na região.

Não há nenhum acordo assinado que obrigue o exército norte-americano a socorrer Taipé em caso de agressão (em 1979 Washington troca o reconhecimento diplomático de Taipé por Pequim). Há apenas uma lei, a Lei das Relações com Taiwan, onde ficou escrito que os Estados Unidos têm de ajudar Taiwan nos seus esforços de autodefesa, o que é muito diferente de vincular as forças armadas à intervenção direta ao lado de Taiwan.

Newsham descreveu a ameaça de uma invasão chinesa como "mesmo muito séria". Segundo o analista e ex-membro da Marinha destacado para esta região, a China “vêm treinando há anos a sua capacidade de ataque anfíbio”."Eles entendem a importância de armas combinadas e operações conjuntas e estão a trabalhar nisso para combinar forças aéreas, marítimas e terrestres", disse o ex-coronel.

Como possível dissuasor de um ataque, talvez só mesmo o medo das grandes perdas económicas que um bloqueio imposto pelos Estados Unidos poderia significar. A economia chinesa é totalmente dependente das exportações, e a geografia da China torna-a extremamente vulnerável a bloqueios, pelo menos até estar construída a enorme rede “Belt and Road”, a “Rota da Seda” do século XXI.

Os navios da China que cruzam o Pacífico devem passar entre a "primeira cadeia" de ilhas (Japão, Taiwan e Filipinas); os embarques para o Oceano Índico, Oriente Médio e Europa passam pelo Estreito de Malaca (Malásia e Indonésia). A China é uma grande potência mas de grande foco continental, que necessita de importar, por exemplo, cereais e petróleo, talvez as mais preciosas mercadorias do mundo.

China diz que reunificação é certa

"A reunificação completa do nosso país pode e será alcançada", disse Xi no final de um discurso comemorativo do 110.º aniversário da Revolução Xinhai, que pôs fim a séculos de poder dinástico na China e levou à criação da República da China.

Embora em ocasiões anteriores Xi não tenha excluído o uso da força para integrar Taiwan, que Pequim considera uma província rebelde, o Presidente chinês assegurou que Pequim seguirá o "princípio básico da 'reunificação pacífica'".

"A reunificação nacional por meios pacíficos é do interesse geral da nação chinesa, incluindo os nossos compatriotas de Taiwan", disse, mencionando a fórmula 'um país, dois sistemas' - aplicado em Hong Kong e Macau, que prevê a autonomia em várias áreas, mas a adesão à China - como uma opção para a ilha.

O Presidente chinês apelou aos "compatriotas de ambos os lados do Estreito [Taiwan]" para "estarem do lado certo da história", avisando que aqueles que promovem a independência de Taiwan são "o maior obstáculo" à reunificação e um "grave perigo".

Taiwan “não se vai curvar”

Taiwan não vai ceder à pressão e não se vai curvar perante a China, vincou a presidente Tsai Ing-wen num discurso no domingo, 10, Dia Nacional de Taiwan. A líder da pequena nação garantiu que ninguém pode forçar a ilha a aceitar o caminho que a China estabeleceu. Tsai Ing-wen disse que espera um abrandamento das tensões através do e reiterou que a nação “não agirá precipitadamente”. Porém, “mas não deve haver ilusões de que o povo taiwanês se curvará à pressão”.

“Continuaremos a reforçar a nossa defesa nacional e a demonstrar a nossa determinação em defender-nos, a fim de garantir que ninguém possa forçar Taiwan a seguir o caminho que a China nos traçou. Isto porque o caminho que a China traçou não oferece nem um modo de vida livre e democrático para Taiwan, nem soberania para os nossos 23 milhões de habitantes”, acrescentou a Presidente.