Internacional

Líderes mundiais alertam: Bolsonaro pode estar a preparar golpe militar

6 setembro 2021 16:47

Oposição brasileira quer a destituição imediata do atual presidente, Jair Bolsonaro

evaristo sa / getty images

Várias marchas da extrema-direita estão agendadas em diversos locais do Brasil para o dia 7 de setembro, data em que se festeja o 199.º aniversário da independência. A crescente insurreição de Bolsonaro motivou antigas figuras políticas e públicas de 26 países a escrever uma carta a alertar para o perigo de um futuro e iminente golpe militar

6 setembro 2021 16:47

Antigas figuras e líderes políticos declararam numa carta aberta que as marchas da extrema-direita previstas para dia 7 de setembro são inspiradas na invasão do Capitólio dos Estados Unidos da América, “quando o então Presidente Donald Trump encorajou os seus apoiantes a parar com ‘o roubo de votos’ e com falsas alegações de fraude eleitoral nas eleições presidenciais de 2020”. Todos os signatários acreditam que poderá haver um golpe militar impulsionado pelo Presidente Jair Bolsonaro.

Na carta, pode ler-se que as marchas nacionais de apoiantes de Bolsonaro contra o Supremo Tribunal e o Congresso, envolvendo grupos de supremacia branca, polícia militar e funcionários públicos em todos os níveis do governo, estão a "alimentar temores de um golpe na terceira maior democracia do mundo”.

Entre os signatários da carta destacam-se as assinaturas de José Luis Rodriguez Zapatero, ex-primeiro-ministro espanhol, Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças grego, Jeremy Corbyn, antigo líder trabalhista do Reino Unido, Fernando Lugo, ex-Presidente paraguaio, Caroline Lucas, membro do Parlamento britânico e Adolfo Pérez Esquivel, o vencedor do Nobel argentino e ativista dos direitos humanos.

Todas estas figuras políticas salientam que a 10 de agosto Bolsonaro “dirigiu um desfile militar sem precedentes pela capital, Brasília, enquanto os seus aliados no Congresso promoviam reformas radicais no sistema eleitoral do país, que ele diz serem críticas antes das eleições presidenciais do próximo ano”.

O próprio Presidente do Brasil disse a 21 de agosto que as marchas eram uma preparação para um “contragolpe necessário” ao Congresso e ao Supremo Tribunal. A sua declaração afirmava que a “constituição comunista” do Brasil lhe retirava poder e acusava de conspiração “o judiciário, a esquerda e todo um aparato de interesses ocultos”. No entanto, Jair Bolsonaro, afirmou na quinta-feira que o Brasil está em paz e que ninguém precisa temer as manifestações convocadas pela extrema-direita.

"O Brasil está em paz. Falta uma ou outra autoridade ter a humildade de reconhecer que extrapolou. (...) Ninguém precisa temer o 7 de setembro. Estarei aqui na Esplanada [dos Ministérios em Brasília], usarei a palavra e usarei o carro de som na Paulista [famosa avenida de São Paulo], que deve ter dois milhões de pessoas", disse Bolsonaro numa cerimónia no Palácio do Planalto.

Mais de 5000 polícias serão destacados para proteger o Congresso para prevenir que este não sofra o mesmo destino que o Capitólio dos Estados Unidos após a derrota de Trump. Os líderes da esquerda pediram aos seus eleitores para evitarem os confrontos e para não realizarem contraprotestos.

Diante dos apelos que muitos classificam como "golpe", o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, alertou que "a democracia não se negoceia" e é "um valor já assumido pela sociedade" após a última ditadura, exaltada por Bolsonaro e que vigorou no país entre 1964 e 1985.

Na quinta-feira, o presidente do Supremo Tribunal do Brasil, Luiz Fux, disse que as pessoas deveriam estar cientes das “consequências judiciais dos seus atos”, sejam quais forem suas tendências políticas. “A liberdade de expressão não envolve violência e ameaças”, alertou. Bolsonaro aproveitou para responder diretamente a Fux e convidou as autoridades do Judiciário a acompanhá-lo nos atos do próximo dia 7 de setembro.

"Vi rapidamente o juiz Fux, no início da sessão [do Supremo], dizendo que não pode haver democracia sem respeitar a Constituição. Palmas para o juiz Fux. Realmente não pode ter democracia se não respeitarmos a Constituição em todos os seus artigos. Poderia ser principalmente o artigo 5.º. O direito de ir e vir, o direito ao trabalho, o direito a ter uma religião. Como em outro artigo também, a liberdade de expressão", declarou Bolsonaro.

Os ministérios públicos de São Paulo e do Distrito Federal querem impedir a presença de polícias militares nas próximas manifestações, argumentando que a Constituição veda a participação dos mesmos em atos políticos.

As manifestações, incentivadas pelo próprio Bolsonaro, foram convocadas num contexto de fortes tensões entre o chefe de Estado e Supremo e o Congresso, instituições a que a extrema-direita acusa de atuar como "partidos de oposição" ao Governo.

As sondagens demonstram que 60% dos eleitores não votarão em Bolsonaro nas eleições do próximo ano devido ao caos provocado pela gestão negligente da crise de covid-19.