Internacional

Portuguesa vítima de violência doméstica morre no Reino Unido. E há um motivo para o suspeito só ter sido condenado a 10 meses de prisão

11 agosto 2021 13:42

Rui Gustavo

Rui Gustavo

Jornalista

Daniela Espírito Santo morreu depois de ter sido atacada pelo companheiro, Paulo de Jesus. A morte resultou de um ataque de coração, provocado pelo stress da situação, e por isso o suspeito foi condenado a uma pena leve, de 10 meses de prisão. Mas uma investigação do "New York Times" revela que a vítima já se tinha queixado sete vezes à polícia britânica, que nunca levou as ameaças a sério

11 agosto 2021 13:42

Rui Gustavo

Rui Gustavo

Jornalista

No dia em que morreu, Daniela Espírito Santo ligou para a polícia duas vezes. De manhã, contou aos agentes que o namorado, Paulo de Jesus, a tinha tentado estrangular na cama. "É desta que me vais matar?", perguntou a mulher, que estava no Reino Unido desde 1999, para onde emigrou com a família com apenas dois anos. Trabalhava num lar de idosos em Grantham, perto de Lincolnshire, a 250 quilómetros de Londres. A polícia deteve o suspeito, mas libertou-o horas depois, porque "não" parecia perigoso, "mostrou arrependimento" e prometeu que não voltaria à casa da companheira. Mentiu.

À tarde, a mulher voltou a ligar à polícia. Contou que o namorado a tinha voltado a atacar e ameaçado de morte. Como o agressor já tinha saído e Daniela disse que não precisava de ajuda médica nem de uma ambulância, a chamada foi transferida para uma linha de apoio não urgente. Depois de oito minutos de espera, o assistente só conseguiu ouvir um bebé a chorar. Quando os agentes policiais foram à casa da vítima, uma hora depois do telefonema, encontraram-na morta com um bebé de meses nos braços. Sofria de problemas cardíacos e não terá resistido ao stress provocado pela situação. Daniela morreu a 9 de abril de 2020, durante o primeiro mês do confinamento britânico, e tornou-se um mero dado estatístico: 16 mulheres mortas num mês às mãos dos maridos, namorados e companheiros.

Paulo de Jesus foi condenado a dez meses de prisão, pelo crime de ofensas corporais, depois de o Ministério Público britânico ter deixado cair a acusação de homicídio. O facto de Daniela sofrer de problemas cardíacos impossibilitava, na opinião dos procuradores, uma condenação por homicídio.

Mas segundo uma investigação do "New York Times", nos meses que antederam a sua morte Daniela ligou para a polícia sete vezes, incluindo as duas chamadas que fez no dia 8 de abril. O jornal americano, que cita um relatório de 106 páginas sobre o caso conduzido pelo "Independent Office for Police Conduct", uma espécie de Inspeção Geral da Administração Interna, aponta várias falhas na maneira como a polícia britânica lidou com o caso. Por exemplo, um dos polícias que o interrogou escreveu num relatório que a sua maior preocupação era "a saúde mental" do suspeito e que este não representava um perigo.

Da primeira vez que pediu ajuda, em maio de 2019, Daniela estava grávida do segundo filho. Relatou ameaças e agressões mas não quis apresentar queixa. Segundo a mãe, que foi entrevistada pelo NY Times, os desentendimentos do casal estavam relacionados com o abuso de drogas por parte do suspeito e com ciúmes doentios.

Nos meses seguintes, Daniela ligou várias vezes à polícia, queixando-se de agressões, e confessou que numa das vezes, "para se defender", devolveu a agressão. A polícia deu conselhos de relacionamento a ambos. No dia de Natal, mais um telefonema, por causa de uma nova tentativa de estrangulamento, mas a polícia só foi ao local "quatro horas" depois da chamada. Apesar de Daniela nunca ter apresentado queixa, a polícia podia ter aberto uma investigação, o que nunca chegou a acontecer.

No dia 8 de abril, quando foi detido, Paulo de Jesus terá garantido à polícia que ia para casa da irmã, apesar de estar de relações cortadas com esta familiar, o que não foi verificado pela polícia. O agente escreveu que Jesus estava "com remorsos" e que já não era "uma ameaça". Esqueceu-se de lhe pedir uma morada. Assim que saiu da esquadra, violando os termos da libertação, o suspeito enviou uma mensagem a Daniela perguntando porque é que ela tinha chamado a polícia. Duas horas depois estava em casa dela e voltou a agredi-la, pela última vez.

Em tribunal, a defesa de Paulo Jesus conseguiu demonstrar que o ataque cardíaco pode ter sido provocado por uma discussão verbal e que não foi resultado de uma agressão, o que levou a uma condenação de dez meses de prisão.

Apesar das críticas, a inspeção não recomendou quaisquer medidas disciplinares para os polícias. Considerou preferível ter "conversas" com os agentes que lidaram com o caso para os ajudar a "melhorarem".