Em novembro de 2019, Joe Biden prometia punir os principais líderes sauditas de uma forma que Donald Trump, seu antecessor, nunca havia feito. “Khashoggi foi, de facto, assassinado e desmembrado, e acredito que o tenha sido por ordem do príncipe saudita.” Se Biden estivesse no lugar de Trump, “iria acabar com a venda de armas e fazê-los pagar por aquilo que fizeram e fazer deles os párias que são”. “Têm de ser responsabilizados”, dizia ainda, citado pela CNN. Joe Biden está agora nesse lugar, é presidente dos EUA, mas tudo indica que a tal promessa ficará por cumprir.
Pressionado a impor sanções ou outro tipo de medidas punitivas que visem especificamente o príncipe herdeiro saudita, depois da divulgação, esta sexta-feira, de um relatório dos serviços secretos norte-americanos que acusa Mohammed bin Salman de ter aprovado o plano para sequestrar o jornalista (plano esse que culminou com o seu assassínio no consulado saudita em Istambul, em outubro de 2018), Joe Biden não irá, ao que tudo indica, punir diretamente o príncipe saudita, dizem a CNN e o “New York Times”. Segundo o canal televisivo norte-americano, nenhuma das restrições na emissão de vistos impostas a cidadãos sauditas (76 no total), anunciadas pelo secretário de Estado Antony Blinken, visa Mohammed bin Salman. Na lista de sanções do Departamento do Tesouro a aplicar sobre agentes da guarda saudita, o nome do príncipe também não é mencionado.
À CNN, duas fontes da administração de Biden disseram que punir Mohammed bin Salman nunca foi de facto uma opção, uma vez que seria “muito complicado” fazê-lo e poderia pôr em causa os interesses militares dos EUA na Arábia Saudita. Por isso, nem sequer foi pedido ao Departamento de Estado para equacionar formas de sancionar o príncipe saudita, revelou outra fonte ao canal televisivo.
Ao “New York Times” foi revelada informação semelhante também por fontes do Governo. Depois de “semanas” de discussão sobre o assunto — em que a equipa de conselheiros de Biden para a área da segurança avisou sobre a impossibilidade de avançar com uma ação penal contra o príncipe herdeiro ou impedi-lo oficialmente de entrar nos EUA sem que isso significasse um corte de relações com aliados árabes tidos como fundamentais para o país —, a Casa Branca chegou a um “consenso”, concordando “que o preço a pagar por essa rutura na cooperação saudita em matérias ligadas ao terrorismo e ao Irão seria simplesmente demasiado alto”, escreve o jornal.
O relatório que incrimina o príncipe saudita
Segundo o relatório dos serviços secretos dos EUA sobre a morte de Jamal Khashoggi, em 2018, divulgado esta sexta-feira, o príncipe saudita Mohammed bin Salman aprovou o plano para sequestrar o jornalista, plano esse que culminou com o seu assassínio. É a primeira vez, desde a morte do jornalista saudita, que os EUA se referem diretamente a Mohammed bin Salman, implicando-o no crime.
De acordo com o “New York Times”, o relatório descreve quem matou Khashoggi e tudo aquilo que o príncipe saudita sabia sobre a operação para sequestrar o jornalista durante uma visita sua ao consulado saudita em Istambul, onde se dirigira, no dia, para tratar de um assunto burocrático. Também se explica como é que a CIA chegou à conclusão de que Mohammed bin Salman aprovou esse plano. “Chegámos à conclusão de que o príncipe Mohammed bin Salman aprovou uma operação em Istambul, na Turquia, para sequestrar ou assassinar o jornalista saudita Jamal Khashoggi”, refere o relatório divulgado pela diretora nacional de informação, Avril Haines, de acordo com o “New York Times”.
Ainda segundo o jornal norte-americano, o relatório contém as conclusões a que chegou a CIA em 2018. Cruzando informações de várias fontes, incluindo um contacto entre o irmão do príncipe herdeiro, também embaixador da Arábia Saudita nos EUA, e Jamal Khashoggi, a agência concluiu que bin Salman aprovou a morte do jornalista, adiantou na altura o “Washington Post”. A CIA não quis pronunciar-se sobre o assunto e o reino saudita negou qualquer responsabilidade do príncipe herdeiro na morte do jornalista. Agora, porém, a decisão foi outra.
Horas após a divulgação do documento, o Governo saudita pronunciou-se, “rejeitando totalmente as conclusões falsas e inaceitáveis” a que os serviços secretos norte-americanos chegaram e referindo que o relatório “contém informação imprecisa”. “É verdadeiramente lamentável que este relatório, com as suas conclusões imprecisas e sem fundamento, seja publicado quando o reino [saudita] já denunciou claramente este crime hediondo, tomando medidas que uma tragédia destas nunca mais volte a acontecer”, referiu o governo, citado por vários meio de comunicação.
Jamal Kashoggi, saudita de 59 anos que vivia exilado nos EUA (era cronista do “Washington Post”) foi assassinado no consulado do seu país em Istambul, a 2 de outubro de 2018, por agentes sauditas. A princípio, a Arábia Saudita negou qualquer responsabilidade, mas mais tarde alegou que o jornalista foi morto acidentalmente por agentes que tentavam extraditá-lo. Segundo Riade, esses mesmos agentes agiram por sua iniciativa e não com o conhecimento ou a conivência do príncipe herdeiro. Oito pessoas foram condenadas na Arábia Saudita pela morte de Khashoggi, cinco das quais à pena capital. Mais tarde estas sentenças foram substituídas por penas de 20 anos de prisão.