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A história de Carlo Acutis, o santo adolescente conhecido como “influencer de Deus”

A história de Carlo Acutis, o santo adolescente conhecido como “influencer de Deus”
Riccardo Antimiani/EPA

Um rapaz que morreu aos 15 anos está a caminho de se tornar santo da Igreja Católica. História de um beato improvável que dedicou a sua curta vida a espalhar a fé através da Internet

Rossend Domènech

correspondente em Roma

Até este sábado, 17 de outubro do ano da graça de 2020, o coração físico e real de Carlo Acutis, extraído do seu corpo e tratado de modo a não se corromper, esteve exposto no santuário da Spogliazione (Despojo) da cidade de Assis, para veneração dos fiéis. O órgão não foi encerrado numa urna, para que os crentes pudessem passar em seu redor, como é costume fazer-se com as relíquias, a fim de evitar aglomerações por causa da pandemia.

O jovem Carlo, falecido em 2006 aos 15 anos, devido a uma leucemia fulminante, foi beatificado pelo Papa Francisco no passado dia 10 deste mês, depois de ter sido declarado venerável. Isso prenuncia a sua proclamação futura como santo.

Poderá ser o padroeiro da Internet ou dos internautas: aos 6 anos passeava-se pela sua casa, em Turim, com um cartaz preso ao peito que dizia “cientista informático”. Brincadeiras de crianças. Em alternativa servirá de padroeiro dos 'influencers'. “O 'influencer' de Deus”, explica a mãe, Antonia Salzano.

Carlo nasceu em Londres, em 1991, filho de família burguesa de Turim provisoriamente instalada no Reino Unido, que ao fim de pouco tempo regressou à sua cidade, onde o menino frequentou uma escola privada e depois outra, dos jesuítas. Aos 9 anos entretinha-se com um velho computador e, segundo os biógrafos de Carlo, já elaborava algoritmos. “Escrevia programas informáticos graças a livros comprados no Politécnico”, explica a mãe.

As biografias dos que chegam a santos costumam parecer sempre exageradas, escritas por partidários. Também não se deve menosprezar a parafernália que a Igreja Católica tem codificada para elevar um mortal aos altares. Para se tornar beato, o defunto tem de ter feito um milagre. Ora, Carlo Acutis fez o seu na igreja de São Sebastião de Campo Grande (Brasil), em outubro de 2010: curou Mateus, menino de 7 anos que sofria de uma grave anomalia do pâncreas, a qual o obrigava a ingerir apenas líquidos. Um pedaço do pijama de Carlo realizou esse milagre repentino, ao ponto de um dia Mateus poder passar a comer normalmente, como todos.

Além do milagre, o ritual católico prevê que durante o processo de beatificação se realize um “reconhecimento canónico” do cadáver. A do jovem Acutis aconteceu a 23 de janeiro de 2019. O corpo foi encontrado incorrupto. Explica a mãe Antonia: “O meu marido não quis ver, mas eu estava lá, e continuava a ser o nosso menino, com os seus 1,82 metros de altura, a pele um pouco mais escura, o cabelo negro e encaracolado, o mesmo peso”.

Isso da incorruptibilidade dos corpos não é necessariamente fenómeno celestial, já que sucede com cada vez maior frequência, ao ponto de os cientistas andarem a estudá-lo para averiguar se estará relacionado com os alimentos processados que ingerimos e os medicamentos que tomamos.

O ritual canónico também prevê que se extraiam relíquias dos candidatos a beatos e a santos, fragmentos do corpo e das vestes, que serão depois objeto de veneração pelos fiéis. Numa igreja de Roma conservam-se, no altar principal, as tripas e o coração de São José de Calasanz, fundador das primeiras escolas populares da Europa.

Apesar de ser filho de pais agnósticos, Carlo manifestou desde pequeno especial inclinação pela religião católica, querendo visitar as igrejas da cidade, tomando a comunhão, rezando o terço, dedicando o seu tempo como voluntário nos serviços de refeições para pobres... e organizando atividades religiosas através da Internet, como uma exposição dedicada à Eucaristia que deu a volta ao mundo, tendo sido hospedada em 10 mil igrejas.

O segredo de toda essa religiosidade seria, conta a mãe do jovem, uma senhora carregada de ironia que naqueles tempos era “analfabeta da fé”: uma ama polaca devota do santo Karol Wojtyla (o papa João Paulo II). Tanta religiosidade do filho levá-la-ia a converter-se, bem como ao seu marido.

A memória do computador do jovem beato foi analisada pelos peritos indicados por quem promoveu a sua causa no Vaticano. “Não encontraram nada que fosse inconveniente”, dizem.

A devoção religiosa do jovem contagiou a sua mãe, que de algum modo acabou por converter-se, bem como o mordomo da casa, que o acompanhava nas saídas ao exterior. Graças a um caráter sorridente e amistoso, Carlo Acutis relacionava-se facilmente com os seus contemporâneos. Quando morreu quase repentinamente, com apenas 15 anos, era conhecido por muitíssimas pessoas.

Explicam no “ministério” do Vaticano que se encarrega dos santos, e que Kenneth Woodward batizou de “fábrica dos santos”, que o processo de beatificação de Acutis se iniciou por “aclamação popular”. Há séculos que os santos se faziam assim. Numa comunidade católica de qualquer parte do mundo aclamava-se uma pessoa como santa, começava-se a venerá-la, e depois comunicava-se ao Vaticano. Só desde há cerca de 500 anos é que os santos são designados pelo Papa.

O procedimento compreende, além do milagre, a compilação de todos os documentos, atos e testemunhos sobre a pessoa a beatificar, que têm de demonstrar que ela “possuía virtudes heróicas”, ou seja, que em vida foi testemunha ativa da fé.

Além de tudo o que fez na sua breve existência, Carlo Acutis foi o “influencer de Deus” ou o “beato da Internet”, já que usava esses instrumentos para propagar a sua fé no Deus cristão. O seu corpo está exposto em Assis, vestido com fato de treino e ténis.

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