Quando a Wikileaks mudou o jornalismo
25.02.2020 às 8h19
Henry Nicholls/Reuters
No momento em que passam dez anos sobre a publicação do primeiro telegrama fornecido por Chelsea Manning, o fundador da organização enfrenta a perspetiva de dezenas de anos na cadeia
O início da audiência para decidir sobre a eventual extradição de Julian Assange para os Estados Unidos, por coincidência, acontece poucos dias depois de se cumprirem dez anos sobre a primeira publicação pela Wikileaks de material fornecido pelo então soldado Bradley Manning (que mais tarde assumiria a identidade feminina de Chelsea Manning). O chamado telegrama Reykjavik 13, publicado a 18 de fevereiro de 2010, continha material sobre a pressão que o governo dos EUA estava a fazer sobre o islandês para aceitar que os EUA o ajudassem a lidar com a enorme crise financeira que ele atravessava, a troco de apoio da Islândia com o esforço militar no Afeganistão.
Muitos outros telegramas diplomáticos se seguiriam, cada um mais revelador do que o anterior, embaraçando governos e governantes e nalguns casos destruindo carreiras. Afinal, quando comunicam com os seus governos, os diplomatas exprimem-se em tom franco, sem a menor expectativa de que o que dizem venha um dia a tornar-se público. Opiniões cândidas sobre os governantes dos países onde se encontram, por exemplo, não são o género de coisa que, uma vez tornada pública, gere muita boa vontade entre as pessoas que são tema dos comentários.
Além de mais de 200 mil telegramas diplomáticos, nos meses seguintes a Wikileaks publicaria outros materiais, incluindo registos das guerras no Iraque e no Afeganistão. Em abril, foi divulgado o famoso vídeo gravado em julho de 2007 em Bagdad a partir de um helicóptero americano que disparava sobre pessoas no solo. Dezoito pessoas seriam mortas, incluindo dois correspondentes a trabalhar para a Reuters, enquanto os tripulantes do helicóptero se riam. O que tornava chocante o vídeo era a aparente ausência de qualquer indício de que as vítimas estivessem prestes a atacar o helicóptero. Uma delas, aliás, estava ali de passagem e só tinha parado para ajudar as pessoas que ali estavam.
Instantaneamente batizado "Collateral Murder" ("Assassínio Colateral", uma adaptação da expressão 'danos colaterais'), o vídeo deu uma imagem particularmente brutal da conduta do exército americano no Iraque. E, tal como os materiais anteriores, fora fornecido à Wikileaks por Manning, que não tardou muito a ser desmascarado, após ter sido traído por um hacker com quem comunicava na internet.
Refúgio na embaixada
A colaboração de Manning com a organização fundada por Julian Assange foi um marco no desenvolvimento de um tipo de jornalismo que utiliza doses maciças de informação obtidas a partir de sistemas centralizados para de lá extrair histórias que iluminem as maquinações ocultas do poder, sejam as dos governos ou de grandes empresas ou outras instituições.
Um exemplo posterior seriam as revelações do analista informático Edward Snowden sobre as atividades da National Security Agency, em 2013, que causaram um abalo ainda maior e fizeram de Snowden um exilado permanente na Rússia. Tal como Assange, Snowden vive sob a ameaça de ser condenado por espionagem dos Estados Unidos. A diferença é que o fundador da Wikileaks não conseguiu fugir.
Assange foi acusado de ofensas sexuais por causa de encontros que tinha mantido com duas mulheres durante uma visita à Suécia. A procuradoria deste país solicitou a sua extradição ao Reino Unido, onde se encontrava, e Assange foi preso antes de lhe permitirem aguardar em liberdade pela decisão do tribunal. Mas quando esta foi negativa, refugiou-se na embaixada do Equador, onde ficaria durante quase sete anos. Esse país chegou a conceder-lhe cidadania, mas quando se deu uma mudança na presidência as coisas começaram a mudar para Assange.
Alienar aliados
Em 2019, após vários conflitos, as autoridades equatorianas permitiram que a polícia londrina entrasse na embaixada e o prendesse. Assange foi levado a tribunal e condenado a uma pena de prisão por ter fugido à justiça. Uma vez cumprida esta, continuou preso, enquanto espera pela decisão do pedido de extradição entretanto apresentado pelos Estados Unidos. Quanto à Suécia, desistiu do seu próprio pedido, alegando que a força das provas tinha enfraquecido durante o longo período de espera.
A íntima relação entre os serviços de 'intelligence' britânicos e os americanos sugere que há uma grande probabilidade de a extradição de Assange para os EUA vir a ser autorizada. Não o ajuda que ele tenha alienado muitos dos seus antigos aliados ao longo dos anos com atitudes imprudentes. Em 2011, publicou milhares de telegramas em bruto, sem eliminar certas referências delicadas, como faz a imprensa quando trabalha sobre esse tipo de material; por exemplo, os nomes de informadores da CIA. Não custa perceber os riscos a que essas pessoas ficam sujeitas nas ditaduras em que vivem.
Assange foi pioneiro num tipo de ações que mais tarde revelou os Swiss Leaks, os Panama Papers e muitas outras denúncias, incluindo os recentes Luanda Leaks e, antes deles, o Football Leaks. Para este australiano libertário, filho de um ativista e de uma artista visual que teve uma infância instável - só mudanças de casa, foram trinta - o lugar na História está assegurado. Resta saber se o preço vão ser décadas numa prisão americana. Os prognósticos não parecem prometedores.