Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Hosni Mubarak. Morreu o "faraó" da transição

25.02.2020 às 16h11

EPA

A morte de Mubarak fecha um capítulo aberto pelo seu antecessor, Anwar el-Sadat. 30 anos de presidência do Egito terminaram com a deposição mais mediática do século. Hosni Mubarak não resistiu à multidão da Praça Tahrir que, em 2011, exigiu que partisse. O "faraó da transição" manteve o país sempre em estado de emergência, escapou a várias tentativas de assassínio, foi condenado a prisão perpétua em 2011 e ilibado em 2017. Tinha 91 anos

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

A última grande manifestação dos egípcios relativamente ao homem que presidiu ao seu país por três décadas até que veio a ser um dos primeiros a cair, deposto em fevereiro 2011, no início do primavera árabe, foi de repúdio. Em 2017, milhares de cidadãos encheram as ruas do Cairo representando todos os que, tomados de espanto, protestavam contra a ilibação de Hosni Mubarak de praticamente todas as acusações que sobre ele pendiam e por causa das quais tinha sido preso após a deposição.

Hosni Mubarak morreu esta terça-feira no hospital militar Galaa, no Cairo. Tinha 91 anos e a sua saúde entrara em falência desde que foi submetido a uma cirurgia durante o fim de semana, como anunciou um dos seus filhos, o empresário Alaa. A atual presidência declarou o seu luto pela morte do “líder militar e herói de guerra”, dando as condolências à família. Sabe-se que terá um funeral nacional organizado pela presidência, porém a data permanece desconhecida, como escreve a agência Reuters.

Mubarak foi o quarto presidente do Egito. Tomou posse em 1981 e será para sempre lembrado de formas diferentes consoante quem o evoque. Foi o maior aliado dos Estados Unidos na região, o maior inimigo dos grupos armados islamistas e o grande defensor do acordo de paz com Israel.

No entanto, e como lembra a Al Jazeera, para os milhares de jovens que se lhe opuseram durante os 18 dias e 18 noites de 2011 em que ocuparam a Praça Tahrir, bem como outras pelo país fora, a memória é outra. Para eles, o velho Presidente era um faraó fora de tempo, uma relíquia que tornou o Egito um país mais corrupto.

Mubarak foi um continuador da política de Awuar el-Sadat,o Presidente assassinado em outubro de 1981 por membros fundamentalistas do exército egípcio, e que sucedia, por sua vez, a Gamal Abdel Nasser, desaparecido em 1970, e de quem fora também vice-presidente.

Ausência de assinatura política

Há quem defenda que os quase 30 anos no poder não foram suficientes para que Mubarak tivesse uma assinatura própria de liderança e os obituários repetem esta terça-feira que, ao contrário dos seus dois prestigiosos antecessores, Hosni morreu longe do poder. Foi corrido do mais alto cargo pelas multidões de opositores que atraíram a atenção do mundo para a Praça Tahrir, no centro do Cairo, foi abandonado pelos militares de cujos flancos saiu e acabou condenado num processo em que foi responsabilizado, entre outras coisas, pelo assassínio de 850 manifestantes durante o levantamento que esteve na origem da sua queda.

Condenado a prisão perpétua em 2 de junho de 2012, data situada entre as duas voltas das primeiras eleições presidenciais livres da história do Egito, acabou por ser encarcerado no hospital da prisão de Torah. Tinha então 84 anos e já contava uma série de acidentes vasculares cerebrais na folha médica.

Não são fáceis de esquecer as imagens do antigo Presidente egípcio, o faraó da transição, como ficaria conhecido, estendido numa maca em pleno tribunal a ouvir pronunciar a sentença do degredo perpétuo.

Herói da guerra de 1973

Para trás ficava a fama de herói da guerra. O homem que herdou o poder em 1981 recebia em mãos um país à beira do abismo. Tinha sido nomeado vice-presidente de Sadat em 1975 devido à sua aura de herói da guerra de outubro de 1973 contra Israel em cuja ofensiva liderou a força aérea.

O jornal francês “Le Monde” lembra que a sua lealdade e o seu apagamento face ao carismático Presidente tiveram igual peso na decisão, enquanto os detratores lhe chamam megalómano. Numa década, Sadat “rompera com a União Soviética para se virar para Washington, decreta a abertura a um sistema económico coletivista e burocrático” e, acima de tudo, fez a “paz com Israel, o inimigo de sempre".

A agência noticiosa saudita, a Arab News, escreve esta terça-feira que desde a sua detenção, em abril de 2011, Hosni Mubarak passou quase seis anos emprisionado em hospitais. Após a sua libertação, foi instalado num apartamento na circunscrição de Heliopolis, no Cairo.

Para o homem que foi durante tanto tempo considerado “intocável”, e que proibiu aos órgãos de comunicação social a mais pequena crítica, a prisão foi um choque. Quando o fizeram voar do tribunal para a prisão da Torah, no Cairo, em 2011, “ele gritou em protesto e recusou-se a sair do helicóptero”, escreve a Arab News.

Esta terça-feira, os sites noticiosos israelitas optaram por reproduzir as notícias da agência Reuters e o grande destaque das notícias na Argélia é a visita do emir do Qatar ao país.

No Líbano, o ex-primeiro-ministro Saad Hariri e o líder druzo Walid Joumblatt renderam homenagem a Mubarak chamando-lhe “grande amigo do Líbano”. No Irão, não se escreveu uma palavra em língua estrangeira sobre a morte de Mubarak.