Merkel pediu anulação de aliança “imperdoável” com a extrema-direita e provocou uma demissão
06.02.2020 às 11h42
ANTON ROLAND LAUB/Getty Images
Chanceler alemã rejeita escolha do ramo do seu partido na Turíngia: ali, a CDU apoiou um governo estadual presidido por um liberal mas viabilizado com os votos da extrema-direita. O recém-eleito governador já se demitiu entretanto
A União Democrata Cristã (CDU), partido da chanceler alemã, quebrou o tabu mais forte da política alemã ao viabilizar uma solução para o governo estadual da Turíngia, no leste do país, apoiada pelo partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão). Angela Merkel posicionou-se esta quinta-feira contra a opção dos seus correligionários no Estado da Turíngia.
Em todo o continente europeu a ameaça da extrema-direita nunca está longe das arenas políticas mas na Alemanha a História tem a marca do pior extremismo e esta decisão está a criar enorme tensão dentro do próprio Governo federal. Para acabar de vez com as dúvidas, Merkel juntou a sua voz às dos que pedem a reversão desta união. “Foi um mau dia para a democracia, um dia que quebrou com os valores e as convicções da CDU. É imperdoável e a decisão deve ser revertida”, disse a governante, de visita à África do Sul.
Esta eleição marca a primeira vez que um líder regional é eleito com o apoio da extrema-direita, tendo todos os principais partidos alemães prometido aos seus eleitores que não estariam dispostos a colaborar com a AfD. Bodo Ramelow, do partido A Esquerda (anticapitalista), venceu as eleições regionais de outubro de 2019 mas sem maioria.
Ramelow preparava-se para governar em minoria naquele que seria o seu segundo mandato, mas o apoio que antes viabilizara o governo estadual (sociais-democratas e verdes) não chegava desta vez para alcançar a investidura. Após duas rondas de votação inconclusivas, os Democratas Livres (FDP, liberais) lançaram quarta-feira o nome de Thomas Kemmerich. A CDU apoiou-o e a AfD abandonou o seu próprio candidato em favor de Kemmerich, chocando a coligação de esquerda encabeçada por Ramelow.
Kemmerich, apesar de ter recusado demitir-se num primeiro momento, argumentando que novas eleições serviriam apenas os interesses da extrema-direita e da extrema-esquerda, acabou por aceder depois de uma reunião com seu líder do partido, Christian Lindner: "A demissão é inevitável. Os democratas precisam de maiorias democráticas".
Governo nacional abalado
O problema para a CDU é que os sociais-democratas (SDP), parceiros na Grande Coligação que governa a Alemanha, estão ainda mais chocados. “O que aconteceu na Turíngia é único na história da República Federal da Alemanha”, disse Kevin Kuehnert, vice-presidente do SDP e que se juntou, à porta da sede da CDU, aos manifestantes que contestaram a viabilização do governo da Turíngia. “O que aconteceu hoje devia ser desfeito”, acrescentou. Este sábado os parceiros de coligação de Merkel reúnem-se para decidir que fazer em relação a este terramoto político.
Em 1930, um nazi entrou no governo da Turíngia. Foi o primeiro grande avanço do Partido Nacional-Socialista na República de Weimar, que culminou na nomeação de Adolf Hitler como chanceler em 1933. Algumas das pessoas que se manifestaram pela dissolução da solução política agora alcançada lembravam, em cartazes e através das suas vozes, que “os fascistas não servem como parceiros”.
Idênticos “cordões sanitários” foram quebrados em vários países europeus nos últimos anos. Em França, o centro-direita abandonou, nos tempos do Presidente Nicolas Sarkozy, a prática de desistir a favor dos socialistas (e vice-versa, mas o PS manteve tal gesto) quando estava em causa, em segunda volta de legislativas, uma disputa com a extrema-direita de Marine Le Pen.
Na Áustria, o Partido Popular (centro-direita) já esteve no poder coligado com o Partido da Liberdade (extrema-direita). Itália era governada até há pouco por uma aliança que incluía a xenófoba Liga, de Matteo Salvini. Em Espanha há governos regionais viabilizados pela combinação de votos de Partido Popular (centro-direita), Cidadãos (centro-direita liberal) e Vox (extrema-direita).
(notícia atualizada às 16h00)