Internacional

Como uma guerra EUA/Irão não é provável já e como Trump sai beneficiado em pleno “impeachment”: o caso Soleimani

3 janeiro 2020 17:21

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

abedin taherkenareh/ epa

Qassem Soleimani, um dos homens mais poderosos do Irão e idolatrado por uma parte dos iranianos e respeitado pelos restantes, foi assassinado pelos EUA. A escala da retaliação iraniana é imprevisível e os iranianos podem ter cometido um erro adicional - subestimar Trump, que está em processo de “impeachment”

3 janeiro 2020 17:21

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

O Irão prometeu “vingança” pelo ataque aéreo que matou o general Qassem Soleimani, considerado um dos mais poderosos do Irão e, para alguns, o futuro líder do país. O Hezbollah, aliado, prometeu o mesmo: uma “punição justa aos assassinos criminosos”, mas o que poderá acontecer exatamente?

Ali Fathollah-Nejad, investigador da Brookings Institution, antecipa uma “retaliação” e “muito em breve”, “única forma de o Irão manter a sua dignidade” depois do ataque mortal contra o comandante da força de elite iraniana Al-Quds, Ainda assim, as “opções são poucas” e o regime “sabe disso”. “Uma guerra aberta contra os EUA iria colocar em causa a sobrevivência do regime e uma escalada da violência e das agressões no Golfo Pérsico iria privar o Irão dos lucros das exportações de petróleo, que são essenciais para a sua economia”, afirma ao Expresso, em declarações enviadas por e-mail, acrescentando que o “potencial para uma eventual escalada das tensões é limitado”. Restará assim ao Irão direcionar a sua atenção “para a fronteira entre Israel e o Líbano” ou, “numa alternativa que seria menos arriscada, vingar-se no nuclear”. “O Irão poderá servir-se do Hezbollah para atacar ou provocar Israel, admitindo que quer correr o risco de ver reforçada a ideia de que apoia o movimento xiita no Líbano como forma de assegurar os seus interesses na região. E pode, por outro lado, reduzir ainda mais os seus compromissos no que diz respeito ao acordo nuclear assinado em 2015.”

O general iraniano Qasem Soleimani foi morto na madrugada desta sexta-feira no aeroporto de Bagdade, no Iraque, num ataque ordenado pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O Pentágono justificou a decisão com a necessidade de “proteger funcionários e militares norte-americanos na região”, na sequência do assalto a instalações dos EUA em Bagdade, no Iraque, ainda para mais “quando se sabia que Soleimani tinha vários planos para atacar diplomatas americanos”. Além de Soleimani, o ataque vitimou pelo menos outras sete pessoas, entre as quais Abu Mehdi al-Muhandis, responsável no Iraque pela coligação de grupos paramilitares pró-iranianos (a Hachd al-Chaabi).

Ali Fathollah-Nejad vê a morte do general, que comandava a força iraniana Al-Quds há quase 20 anos, desta forma: “Com isto, os EUA cortaram as asas ao Irão e à suas políticas expansionistas, até agora bem-sucedidas, na região”. Sobre o general assassinado, o investigador descreve-o recorrendo a palavras que vemos já repetidas nos vários meios de comunicação social — era admirado pelos membros da força de elite que comandava como só se admira um “herói”, quase idolatrado, e nele depositava “toda a sua confiança” o líder supremo iraniano, ayatollah Ali Khamenei. Prova disso, acrescenta Ali Fathollah-Nejad, é a decisão inédita tomada pelo líder supremo de comparecer a uma reunião de emergência convocada pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional para esta sexta-feira.

Durante os 20 anos em que comandou a unidade especial da Guarda Revolucionária Iraniana, o general Qasem Soleimani “assassinou rivais, armou aliados e, durante mais de uma década, dirigiu uma rede de grupos militantes que matou milhares de americanos no Iraque”, escreveu a “New Yorker” num perfil do general publicado em 2013. Em ocasiões muito específicas esteve do mesmo lado que os americanos, como na luta contra o Daesh, mas o fosso esteve sempre lá. Soleimani, conforme escrevia o Expresso na manhã desta sexta-feira, foi fundamental na disseminação da influência iraniana no Médio Oriente, que os EUA e os inimigos regionais do Irão — a Arábia Saudita e Israel — tentam combater (o caso da Síria e o apoio que deu ao Presidente Bashar al-Assad são exemplares nesse sentido).

“O Irão não quererá uma guerra com os EUA, mas é provável que haja ataques contra forças norte-americanas”

Que o Irão não tem opções por aí além ou que não é provável uma guerra é também a opinião de Jack Watling, investigador no Royal United Services Institute, que, em entrevista à agência de notícias britânica PA Media, afirmou que é “bastante improvável que o Irão queira provocar uma guerra com os EUA. “O regime iraniano não pretende provocar um conflito de grande escala. O mais provável é que haja ataques às forças norte-americanas, mas conduzidos com cuidado e prudência.” Há neste ataque, no entanto, um fator inédito, reconhece o investigador, explicando tratar-se de um “assassinato sem qualquer contexto de conflito armado declarado” cometido num país, o Iraque, “que não está em guerra com os EUA” e é parte não envolvida “seja no que for”.

getty images

Ataques a forças norte-americanas na região é também o que espera Nick Paton Walsh, correspondente da CNN. Isso e ataques a civis, “que estão claramente em risco e foram, no passado, raptados por aliados do Irão ou agentes mandatados pelo regime iraniano. “Os meios militares americanos vão estar em alerta máximo e serão capazes de se defender do Exército iraniano, que está menos bem equipado.” Ainda assim, as “forças americanas vão ser claramente um alvo no Iraque, Síria e possivelmente até no Afeganistão”, algo de que os EUA só vão ser capazes de se defenderem se contarem com o apoio — e o perdão — dos aliados que largaram nos tempos mais recentes na região.

Quanto a instalações diplomáticas dos EUA na região, e sobretudo em Beirute, no Líbano, e em Erbil (coração da capital do Curdistão iraquiano), “serão certamente encerradas temporariamente para evitar retaliações”, diz Nick Paton Walsh, antecipando ainda que as rotas marítimas onde houve ataques prévios “também arriscam ficar paralisadas devido a possíveis respostas” por parte do regime iraniano. As “maiores consequências” são no entanto para os aliados dos EUA, como Israel, “que não podem simplesmente deixar a Israel ou encerrar”. “Israel tem o Hezbollah a norte, que está sob pressão internamente mas ainda tem capacidade de disparar mísseis, a Arábia Saudita já tem sido atacada por drones e mísseis que o Irão diz terem sido disparados pelos rebeldes houthis que apoia no Iémen e está novamente em risco.”

José Pedro Teixeira Fernandes, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais, também antecipa que, a haver consequências, podem urgir em “países aliados dos EUA” e onde o país presidido por Trump tem “interesses militares e económicos” (já que o Irão não terá capacidade militar para mais do que isso), mas tem uma opinião ainda mais vincada sobre outros aspetos.

O primeiro tem que ver com o facto de o Irão, ao levar a cabo o ataque aéreo recente em que morreu um civil e militares americanos, “subestimou Trump” e acreditou que a atual administração iria continuar, apesar de todas as provocações, a não se meter em assuntos para lá das fronteiras do seu território. Os outros aspetos têm só que ver com a política interna dos EUA e resumem-se em duas palavras: “impeachment de Trump” e vésperas de eleições presidenciais. “O Irão poderá ter achado que, em ano de eleições, Trump pretendia estar sossegado mas o processo de destituição poderá ter vindo a alterar isso. O ataque ao general iraniano acaba por complicar a vida aos democratas, no sentido em que dificulta uma posição comum e coordenada por parte deles.” Emergirá da morte do general iraniano, diz ainda o investigador português, “um lado patriótico nos EUA que irá favorecer Trump”.

“Muito grave”

Seja como for, e nisso concordam todos os especialistas, o que aconteceu é “muito grave”, bem mais grave do que a morte de terroristas como Bin Laden ou o ex-líder do Daesh Abu Bakr al-Baghdadi, conforme disse no Twitter Ian Bond, diretor de política externa no Centre for European Reform, think-tank dedicado a assuntos europeus. “É óbvio que Soleimani cometeu atos condenáveis e tinha muito sangue nas mãos, mas matar terroristas sem Estado como Bin Laden ou Baghdadi não é o mesmo que matar um alto representante de um Estado internacionalmente reconhecido”, afirmou o especialista, que espera “mais riscos para os EUA e os seus aliados”.

Também Ali Akbar Dareini, especialista em assuntos relacionados com o Irão e os EUA no Centro de Estudos Estratégicos em Teerão, capital do Irão, espera “mais insegurança e violência no Médio Oriente”, considerando, além disso, o ataque ao general iraniano como um “presente para o Daesh e todos os terroristas na região”, conforme afirmou à Al-Jazeera. Que a morte do general iraniano não tem o mesmo significado e impacto do que a morte de Bin Laden e outros afirmou também Charles Lister, que desempenha funções de direção no Middle East Institute, onde é aliás investigador, em declarações à CNN. “Os EUA e o Irão estão há meses numa espécie de luta ‘olho por olho, dente por dente’, mas a morte de Qasem Soleimani é toda uma nova escalada.” O que acontecerá de seguida é incerto mas há previsões a acrescentar às referidas em parágrafos anteriores: um alvo possível, na opinião de Lister, são os militares americanos na Síria, que já são menos do que eram há uns tempos e menos “credíveis e confiáveis” dadas as posições erráticas de Trump (são apenas cerca de 500, na verdade), e “estão claramente agora numa situação ainda mais vulnerável”. “Para mim é certo que virá uma guerra, só não se sabe onde, quando e que guerra será essa.”