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Cheias de Veneza. A parte visível de uma peste maior: o turismo

14.12.2019 às 23h07

As cheias são a parte visível de um problema que esconde uma peste maior: o turismo maciço alimentado pelos voos low-cost, pelos cruzeiros, pela ausência de uma visão política. La Dominante corre o risco de perder a classificação de Património Mundial

Cristina Margato

O silvo da sirene é interrompido por outros sons mais curtos. Toto imobiliza-se: “A minha mãe odeia esta sirene. Recorda-lhe os bombardeamentos da II Guerra Mundial.” Eu acabara de entrar no palácio que Toto Bergamo-Rossi herdou da tia-avó, deixando as galochas, ainda por estrear, à entrada do corredor. Ele viera receber-me à rua, no final da Fondamenta Cappello o Gradenigo; e à entrada, ainda no rés do chão, mostrara-me as marcas das últimas inundações. A mais recente aconteceu a 12 de novembro deste ano, a anterior no final de outubro de 2018. Em frente à escada que dá acesso ao primeiro andar, a água da laguna infiltrava-se por baixo de uma porta. Cobria os degraus que dão acesso ao canal, à custa do movimento de pequenas ondas.

Quando os sons entrecortados da sirene finalmente terminaram, Toto sentou-se no sofá, descodificando-me de imediato a mensagem que acabáramos de ouvir. A água salgada que iria cobrir as ruas de Veneza nas horas seguintes, destruindo, mais uma vez, mármores e madeiras, poderia ficar uns 40 centímetros abaixo dos 187 metros alcançados semanas antes, quando a ‘sereníssima’ sofreu a pior inundação desde 1966. A perspetiva não parecia tão catastrófica como da última vez. Mas da última vez as previsões meteorológicas haviam falhado.

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