Diferenças salariais entre homens e mulheres aumentam com a idade e atingem o pico aos 50 anos
28.10.2019 às 9h47
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Estudo britânico mostra que a desigualdade começa nos primeiros anos de carreira e nunca para de crescer. Caso da jornalista britânica de 51 anos que acusou a BBC de lhe pagar menos do que aos colegas homens começa a ser julgado esta semana
A diferença salarial entre homens e mulheres é mais baixa nos primeiros anos de carreira, mas vai aumentando com a experiência e a idade dos trabalhadores, atingindo o pico por volta dos 50 anos. Assim se mantém até à idade da reforma, sendo por isso o período de fim de carreira o mais crítico para as mulheres, que recebem, em média, 28% a menos do que os homens.
Os dados, agora citados pelo “The Guardian”, são do Office for National Statistics (ONS), um organismo britânico que mede as principais estatísticas do Reino Unido e que reporta diretamente ao Parlamento britânico. Algumas das conclusões são semelhantes às que foram conhecidas no ano passado, mas ganham força depois do caso de Samira Ahmed, a jornalista britânica da BBC que acusou a empresa de lhe pagar menos do que aos colegas homens. Ahmed é a apresentadora do “Front Row”, um programa radiofónico de arte e literatura transmitido pela BBC há mais de 20 anos. Aos 51 anos, a jornalista apontou a “falha da emissora em oferecer um salário igual por um trabalho com valor igual” e a sua acusação será julgada nos próximos três dias pelo tribunal do trabalho. Samira Ahmed faz parte do BBC Women, um grupo de centenas de mulheres jornalistas e produtoras da emissora que se reúne desde 2017 para discutir, precisamente, temas como a igualdade salarial. O caso de Ahmed está a ser visto como um potencial divisor de águas — se a BBC for condenada, o futuro pode ser diferente do que agora se imagina.
Enquanto isso não acontece, as disparidades continuam. A análise feita desta vez pelo Rest Less, um site dedicado às pessoas acima dos 50 anos, a partir dos dados disponibilizados pelo ONS, é centrado em funcionários do Reino Unido, divididos por idade, ocupação, indústria, horas de trabalho, regiões e entre setores público e privado. Os mesmos dados permitem concluir que o valor do trabalho cai com a idade — a melhor fase é aos 40 anos —, mas cai mais para uns do que outros: no caso dos homens na casa dos 50 anos, o pagamento desce, em média, 4%. No caso das mulheres, desce o dobro (8%). Como a diferença salarial já existe e vem de trás, a diferença entre uns e outros fica em 28% na década dos 50 anos, a pior em termos de discrepância. Até ao fim da carreira, as mudanças são residuais, acabando o desequilíbrio de género nos 27.6% na idade da reforma. A percentagem de mulheres a trabalhar entre essas idades tem aumentado, no Reino Unido e não só. Por lá, é agora de 75%, o que corresponde a 4,8 milhões de mulheres, quando há 20 anos esse número não chegava aos três milhões.
As fases da carreira em que a diferença homem-mulher é menor são as do início — entre os 18 e os 21 anos, os jovens do sexo masculino estão 18% acima, passando a 13% nos anos seguintes, mas voltando a subir na casa dos 30 (para 16%). Por volta dos 40 anos, a melhor altura em termos de salários para uns e para outros, a discrepância é de 25%, atingindo depois o pico acima citado.
A propósito dos dados do ONS de 2018, o governo britânico, na altura liderado por Theresa May, já tinha prometido tomar medidas contra a desigualdade salarial. Os responsáveis do ONS referiram, aliás, que o cenário não difere entre sectores público e privado, nem entre regimes de trabalho (full-time ou part-time).
Cá como lá
Em Portugal, o panorama salarial entre géneros não é muito diferente. Pelo contrário, o último relatório da Organização Internacional do Trabalho apresentava o país como um mau aluno, só atrás de Chile e Estónia. Além de apontar que as diferenças salariais não tinham diminuído substancialmente nos últimos 30 anos, o documento dizia que, em média, os portugueses homens recebem 22,1% a mais do que as portuguesas.