Internacional

“Televisão-lixo” faz de facto baixar o QI, conclui estudo

14 outubro 2019 15:31

Luís M. Faria

Jornalista

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Analisando região a região, esse efeito foi notório na Noruega, como terá sido noutros países

14 outubro 2019 15:31

Luís M. Faria

Jornalista

Está provado: a chamada 'televisão-lixo' faz baixar o QI. Assim conclui o professor Oystein Hernaes, do Centro Ragnar Frisch para a Investigação Económica, em Oslo, na Noruega, num estudo que a revista Human Resources agora publicou.

Ao longo das décadas que passaram desde que a televisão pública, com as suas obrigações de serviço público e de contribuir para a cultura geral da população, foi sendo progressivamente ultrapassada por canais de cabo com 'reality-shows' e outros programas de nível similar, os testes de inteligência assinalam um declínio nos homens.

Frisch beneficiou de condições quase únicas para a sua pesquisa. A TV por cabo abriu em 1981 na Noruega mas foi sendo introduzida gradualmente, o que permite identificar o exato momento em que cada parte do território passou a ter-lhe acesso.

Por outro lado, o facto de os homens terem de cumprir um serviço nacional onde lhes foi administrado um teste de QI, entre outros, permitiu medir as diferenças entre regiões e ver se existe alguma relação com outros fatores.

Foi isso que se verificou. Nas regiões onde passou a haver TV Cabo, o QI dos homens começou a baixar 0,08 pontos anualmente. Outro efeito que certamente estará relacionado com esse é a subida das taxas de abandono escolar. Quanto à explicação ou explicações que poderão estar por trás disto, a mais provável tem a ver com a diminuição da percentagem da população que lê.

Isso, por sua vez, poderá advir do facto de a televisão, para muita gente, se ter tornado muito mais interessante. Há um limite para os documentários e os programas educativos que muitos cidadãos conseguem absorver.

Assim aconteceu também em Itália, onde, segundo um recente estudo noutra publicação académica, as mudanças televisivas foram graduais e acompanhadas por outras. Mesmo sem terem conteúdo político direto, os programas de entretenimento foram criando uma atmosfera pública - de linguagem simples, afirmações bombásticas e exibicionismo, por exemplo - que levou a efeitos políticos duradouros na própria cultura política.

"Os códigos de linguagem que foram popularizados pela TV tornaram as pessoas muito mais suscetíveis ao partido populista porque usavam linguagem muito simples. E isso pode ser potencialmente muito poderoso", conclui um dos autores do estudo. E esses efeitos também se terão verificado noutros países, pois a cultura mediática hoje em dia é em grande medida global.