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“Perdoem os vossos piores inimigos” - Morreu a mulher que sobreviveu a Auschwitz e aos ensaios macabros do “anjo da morte”

6 julho 2019 13:47

andy cross

Chegou ao campo de concentração em maio de 1944. Perdeu os pais e as duas irmãs mais velhas e serviu, tal como a irmã gémea Miriam, de cobaia às mãos de Josef Mengele, o “anjo de morte. Refez a vida em Israel e nos Estados Unidos e ensinou o valor do perdão. Morreu agora, aos 85 anos.

6 julho 2019 13:47

Foi um pedaço de carne por descobrir e contaminar nas mãos do “anjo da morte”, perdeu a família numa qualquer câmara de gás maldita de Auschwitz e perdoou, depois de testemunhar contra ele, o “contabilista” daquele campo de concentração. Eva Mozes Kor, uma das sobreviventes do Holocausto, morreu aos 85 anos numa viagem a Cracóvia, na Polónia.

“As pessoas eram selecionadas para viver ou morrer”, conta neste vídeo do BuzzFeed, recordando o que viveu em maio de 1944, altura em que chegou a Auschwitz, um campo de concentração na Polónia ocupada pela Alemanha nazi. “Choravam, empurravam-se; os cães ladravam. Virei-me ao contrário e tentei perceber o que era aquele lugar. Nunca tinha visto um lugar assim. Quando me voltei, percebi que o meu pai e as minhas duas irmãs mais velhas tinham desaparecido. Nunca mais os vi…”

Eva Kor nasceu numa pequena vila da Roménia, Portz, em 1934. Antes de cumprir 11 anos já sentira na pele o lado mais podre da guerra e a trágica loucura dos homens. Tanto ela como a irmã gémea escaparam, ao contrário dos seus pais e das duas irmãs mais velhas, às câmaras de gás, mas o fado alternativo foi cruel: serviram como ratos de laboratório, cobaias, carcaças por manipular, para Josef Mengele, o “anjo da morte”, descobrir o caminho genético para o que dizia ser a "raça pura". Mengele vivia intrigado pelo fenómeno dos gémeos.

“Havia um nazi a correr naquela plataforma”, continua a contar, “a gritar, em alemão, ‘gémeas, gémeas’. Ele reparou em nós e exigiu saber se éramos gémeas. A minha mãe perguntou se isso era bom, o nazi disse ‘sim’. Nesse momento, veio outro nazi, mandaram a minha mãe para a direita e a nós para a esquerda. Estávamos a chorar, ela estava a chorar. Nem lhe disse adeus, não percebi que era a última vez que a ia ver. Aquilo tudo demorou 30 minutos, desde que chegámos no comboio e a minha família desapareceu.”

A seguir, o ‘anjo’, que desvirtua a natureza da palavra anjo, entrou em ação.

“Extraía-nos sangue três vezes por semana”, costumava contar Eva Kor nas suas palestras, aqui citada pelo “El Mundo”. “A seguir injetava-nos com germes e químicos para ver como reagíamos.” Eva sobreviveu a experiências macabras, tortura, febres e ao descontrolo daqueles que queriam controlar o mundo e o ADN das pessoas do mundo. “Que pena, ela é tão nova. Só tem duas semanas de vida”, lembra-se de ouvir Mengele dizer, ao lado da sua cama, enquanto soltava uma gargalhada intoxicada por sarcasmo. Mengele, que previa que “90% dos humanos iam morrer de estupidez” e que queria “prevenir o crescimento de massas idiotas”, morreria afogado no Brasil, em 1979.

Eva e a irmã gémea, Miriam, foram libertadas de Auschwitz pelos soldados russos antes de celebrarem o 11.º aniversário. Foram para Israel, até que o casamento com um norte-americano levou Eva para o Estado do Indiana, nos Estados Unidos, onde, em 1995, fundaria o museu Candles, uma espécie de ode contra o esquecimento.

Eva e Miriam Mozes Kor à direita

Eva e Miriam Mozes Kor à direita

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Em 2015, quando tinha 81 anos, Kor aceitou testemunhar contra Oskar Groening, o “contabilista” de Auschwitz, que enfrentava acusações de cumplicidade no extermínio de 300 mil pessoas. Aquele homem, que Eva olharia nos olhos, recolhia o dinheiro e bens dos corpos desesperançados que chegavam ao campo de concentração. E o inesperado aconteceu naquele tribunal: trocaram um aperto de mão.

Esta maneira de estar foi explicando-a ao longo da sua vida. “Perdoem os vossos piores inimigos”, diz num vídeo gravado na última visita ao Museu Auschwitz, aqui citado pelo “The Guardian”. “No momento em que perdoei os nazis, senti-me livre de Auschwitz e de toda a tragédia que me aconteceu.” Afinal, para Eva, não é assim tão difícil contrariar os sentimentos fundamentalistas de raça que podem conduzir a um genocídio: “Tratar todos com respeito e justiça. Não são necessárias grandes leis, não é necessário nenhum governo”.

Eva Kor escapou a Auschwitz, o campo que testemunhou a morte e carregou as cinzas de cerca de 1,1 milhão de pessoas, a maioria judeus, entre 1940 e 1945. Mais do que os nazis, Eva combateu o fantasma do esquecimento. E vai continuar a combater, já que é esse o seu maior legado: a memória.