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Do ecrã da RAI para Estrasburgo: quem é o novo presidente do Parlamento Europeu?

3 julho 2019 13:24

patrick seeger/epa

Pouco conhecido fora da sua Itália natal, David-Maria Sassoli apareceu durante anos nos ecrãs de televisão dos seus conterrâneos. Conheça o progressista que vai liderar o Parlamento Europeu nos próximos dois anos e meio

3 julho 2019 13:24

O lema que inspira a atividade política de David-Maria Sassoli é uma frase de Jean Monnet, francês que foi presidente da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, o primeiro embrião da União Europeia: “Nada é possível sem as pessoas, nada dura sem as instituições”. Eleito esta quarta-feira para presidir ao Parlamento Europeu, à segunda volta, afirma que as suas prioridades são “o trabalho, o clima e as migrações”.

O rosto de Sassoli é conhecido de todos os italianos, porque foi uma das caras informativas dos telejornais da emissora televisiva estatal RAI. Primeiro foi correspondente longínquo, depois enviado especial, passando por fim aos serviços informativos antes de chegar a subdiretor do principal telejornal do país e responsável pelo programa “TV7”.

Este era um magazine semanal de aprofundamento das notícias do momento, coisa inédita em Itália. Semana após semana, mantinha os telespectadores presos ao pequeno ecrã. Até então ninguém lhes explicara porque aconteciam os factos relatados nas notícias.

Cartilha progressista

Seguindo todos os passos da vida política, Sassoli aderiu ao Partido Democrata (PD, progressista) em 2009. Foi por essa formação que foi eleito eurodeputado, no mesmo ano, com mais de 400 mil votos preferenciais na circunscrição da Itália Central, onde foi o mais votado.

Reeleito em 2014, ascendeu a vice-presidente do Parlamento Europeu. No ano anterior tentara em vão ser escolhido como candidato do centro-esquerda à Câmara Municipal de Roma, então nas mãos da direita.

Sassoli nasceu em Florença (1956), capital do antigo grão-ducado de onde têm saído, ultimamente, muitos políticos italianos. A sua vida profissional começou com colaborações em pequenas publicações locais, até que desembarcou em Roma e entrou para “Il Giorno”, o jornal italiano que mais diretores de diários providenciou ao país.

É laico, o que em Itália significa que não é clerical e defende a separação entre os poderes religioso e político. Neste âmbito teve um papel decisivo para impedir que o Parlamento Europeu aprovasse uma moção contra o aborto, no período em que as mulheres de Portugal, Espanha e Norte da Europa saíam à rua para defender a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, considerando-a uma “decisão pessoal”.

Guerra não é assunto ligeiro

Quando, em 2015, se preparava uma possível guerra contra a Líbia,para oficialmente pôr em ordem a desordem criada pelo ex-Presidente francês Nicolas Sarkozy e as Nações Unidas, escreveu: “Quando se fala de ir à guerra, deve-se fazê-lo com as pernas e a voz a tremer. Um democrata deve ser assaltado pela dúvida sobre se ainda há algo por fazer, por tentar... atrever-se. Pelo contrário, há quem fale da guerra com insuportável ligeireza, caso de personalidades mediáticas que pensam que o conteúdo representa a qualidade da sua presença, e não aquilo que diz”.

Sobre o mesmo assunto escreveu, noutra ocasião: “Fala-se da guerra como se fala daquelas banalidades que apaixonam os politicozecos preguiçosos. Quando pensam na diplomacia e na política internacional, o máximo que são capazes de fazer é inserir nos seus currículos as noites que passaram a jogar ao Risco”. “Inconscientes de fato”, foi como descreveu os partidários das guerras.

Reaproximar a UE dos cidadãos

Nas eleições europeias de maio último, em que obteria o terceiro mandato como eurodeputado, Sassoli afirmava nas ruas e praças de Itália que “é preciso um Parlamento Europeu mais forte, para termos uma Europa mais forte”. Depois da votação, acrescentou que “os eleitores indicaram que acreditam nesta instituição e na democracia”, pelo que “é necessário reestabelecer a confiança recíproca entre cidadãos e instituições comunitárias”.

Já candidato pelo grupo socialista para presidir a única instituição da UE eleita por sufrágio universal, Sassoli explicou que avançava para o cargo por acreditar “que a Europa só será mais forte se o Parlamento Europeu tiver condições para desempenhar um papel importante”. “Independentemente da forma como pensemos, devemos estar unidos, comprometidos em construir a casa da democracia europeia. E este Parlamento deve ser a casa da democracia europeia.”

Casado e pai de dois filhos, o novo líder do Parlamento Europeu (sétimo italiano no cargo, logo a seguir ao compatriota conservador Antonio Tajani) é adepto da Fiorentina. Formado em Ciência Política pela Universidade de Florença, é um feroz defensor da liberdade de expressão.