Internacional

Reino Unido. Sete deputados trabalhistas descontentes com Corbyn deixam o partido

18 fevereiro 2019 10:22

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

leon neal/getty images

Sete deputados do Partido Trabalhista britânico comunicaram esta segunda-feira o seu afastamento do partido, por não estarem de acordo com a direção tomada pelo líder Jeremy Corbyn, que já reagiu

18 fevereiro 2019 10:22

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

Há muitos trabalhistas descontentes com Jeremy Corbyn e esta segunda-feira, sete deles decidiram demarcar-se permanentemente do líder da oposição anunciando o fim da sua militância no partido. São eles: Gavin Shuker, Chuka Umunna, Ann Coffey, Mike Gapes, Angela Smith, Chris Leslie e Luciana Berger.

A dissidência é fruto de um longo período de agonia por parte dos deputados que sempre se opuseram à estratégia que Corbyn (não) desenhou para o Brexit.

Apesar de haver muitos outros assuntos que dividem os trabalhistas que estão mais ao centro de Corbyn, um dos líderes mais à esquerda que os membros do ‘labour’ algum dia elegeram, foi mesmo o pouco empenho de Corbyn no Brexit que acabou por se tornar inultrapassável.

Segundo fontes da Sky News, Jeremy Corbyn não estava sequer informado de que o grupo se iria reunir de manhã e muito menos estaria das palavras duras que foram ditas a seu respeito.

Um por um, os deputados foram explicando as suas razões para deixarem o ‘labour’. Luciana Berger, ministra-sombra da Saúde Mental e deputada por Liverpool Wavertree disse que o partido “começou a preocupar-se muito com ele mesmo e deixou de se importar com os seus eleitores e com o país”. Berger, que é judia, tem criticado bastante algumas posições antissemitas assumidas pela ala mais radical do partido: “Estou a deixar para trás uma cultura de intimidação e discriminação”.

A seguir falou Chris Leslie, ex-ministro-sombra das Finanças, que criticou a “chocante cultura do Labour em abafar os debates sobre o antissemitismo”. E disse chega: “Tem de haver e pode haver uma forma melhor de seguirmos o nosso caminho”, disse. Quanto a Corbyn, Leslie considera que o líder agiu “como um traidor” da Europa por permitir o Brexit e “recusar-se a admitir que público tenha direito a um voto final”.

Angela Smith, deputada por Penistone & Stockbridge e uma das mais vozes com mais experiência política de todo o grupo a falar, escolheu mencionar as suas origens para pôr a nu as políticas, no seu entender erradas, de Corbyn: “Venho da classe trabalhadora a maioria das pessoas é como a minha família - não queremos a condescendência dos intelectuais de esquerda, que pensam que ser pobre é uma espécie de ‘estado de graça’”.

Gavin Shuker, deputado por Luton South e ex-ministro-sombra do Desenvolvimento Internacional, que se afastou deste último lugar, ainda em 2015, precisamente por discordar de Corbyn disse que o seu partido “virou as costas ao povo britânico”, justificando com esta frase o seu afastamento. Shuker considera que os valores moderados, perfilhados pela maioria, foram abandonados pelos partidos, incluindo pelo ‘labour’ e acabou a sua intervenção com uma ‘farpa’: “Nem todo o mal do mundo é criado pelo Ocidente”.

Através de um comunicado colocado no Twitter, o líder visado, disse estar desiludido: "Estou desiludido por estes deputados se sentirem incapazes de continuar a lutar pelas políticas trabalhistas que inspiraram milhões nas últimas eleições e nos fizeram aumentar a nossa votação pela maior percentagem desde 1945. O nosso programa eleitoral conquistou as pessoas por beneficiar muitos, não poucos - redistribuindo riqueza e poder, trazendo bens essenciais para a esfera pública, investindo em todas as regiões e nações, e enfrentando a mudança climática.

Quanto ao Brexit, Corbyn disse que o Partido Trabalhista “estabeleceu um plano alternativo, unificador e confiável” à “forma trapaceira como os conservadores negociaram o Brexit”.

Ann Coffey, deputada por Stockport, disse, por sua vez, que o Partido Trabalhista já não é “uma casa para todos” e que “a liderança atual tem sido muito bem sucedida em mudar o partido para lá de todo o possível reconhecimento. Criticando Corbyn, como outros, pela veia algo autoritária que trouxe ao partido, Coffey disse que “a lealdade não pode ser um fim em si mesmo."

Já Mike Gapes, deputado por Ilford South, disse que está “enojado com o antissemitismo no partido” e “furioso” quanto à forma como o Brexit tem sido conduzido. "Jeremy Corbyn e os que estão à sua volta estão do lado errado em tantas questões internacionais, da Rússia à Síria e à Venezuela", disse.

Em último chegou Chuka Ummuna, o promotor não-oficial da cisão e "estrela" dos dissidentes a dos críticos de Corbyn. O deputado por Streatham, começou por dizer que "os partidos atuais são parte do problema, não a solução". "É hora de abandonarmos a política antiquada deste país", acrescentou. O Reino Unido precisa de um partido político “apto para o aqui e agora” e o sair dos trabalhistas é, na sua opinião, o “primeiro passo para deixar a política tribal para trás”. Num artigo no "Independent", Ummuna foi ainda mais longe dizendo que Corbyn, ao leme da nação, pode ser perigoso. "À luz do que eu testemunhei nestes três anos que passaram, não posso apoiar Jeremy Corbyn para o lugar de primeiro-ministro, nem posso ter confiança em que ele e a sua equipa fariam o que é correto para salvaguardar a nossa segurança nacional".