Internacional

Theresa May volta a adiar decisões sobre o Brexit

12 fevereiro 2019 13:37

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

will oliver/getty

Primeira-ministra britânica afirma que diálogo com Bruxelas continua, apesar de as instituições europeias lhe terem fechado a porta à renegociação do acordo de saída. Voltará a falar aos deputados no final do mês, mas o relógio do Brexit não parece ter travão

12 fevereiro 2019 13:37

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

A primeira-ministra do Reino Unido quer mais tempo para negociar o Brexit. Esta frase, que já foi dita e escrita inúmeras vezes, não parece notícia. Mas volta a sê-lo hoje. Theresa May pediu aos deputados, na Câmara dos Comuns, que confiem nela para continuar o diálogo com as instituições europeias e assegurar que a solução que evita a fronteira física na Irlanda do Norte, prevista no acordo a que chegou com a UE em novembro e conhecida como backstop, não seja aplicada indefinidamente (preocupação partilhada, frisou, pelo líder do Partido Trabalhista).

Reconhecendo que o presidente da Comissão Europeia manteve a indisponibilidade dos 27 para reabrir o texto pactuado (e chumbado pelo Parlamento britânico em janeiro), a governante conservadora explicou que as conversações prosseguem e prometeu, respondendo a propostas de Jeremy Corbyn, que não haverá redução dos direitos dos trabalhadores após a saída. Rejeita, contudo, a ideia trabalhista de manter o Reino Unido numa união aduaneira com a UE, já que tal impediria o país de forjar novos acordos comerciais.

A 45 dias da data do Brexit, May agastou membros da oposição ao não anunciar a data em que irá apresentar o seu plano revisto. Tampouco satisfez o pedido de Corbyn de informar o Parlamento sobre que alternativas ao backstop propôs aos parceiros europeus. Anunciou apenas que esta quinta-feira os deputados poderão debater e votar propostas das várias bancadas e que, caso o Governo não tenha uma proposta pronta a 26 de fevereiro, fará uma declaração na Câmara dos Comuns e permitirá nova votação no dia seguinte.

Estar-se-á, então, a pouco mais de um mês do Brexit. Recordemos que a saída sem acordo é automática se não houver consenso em Londres e Bruxelas até lá (deixando de lado a hipótese de adiamento, que existe mas May voltou hoje a rejeitar). “A forma de o evitar é aprovar um acordo”, argumentou a primeira-ministra, pedindo calma aos parlamentares.

Acusações de chantagem

Vários trabalhistas e nacionalistas escoceses acusaram May de estar a adiar propositadamente a apresentação de um plano para, quando faltarem poucos dias, pressionar os deputados a escolher entre a sua versão do Brexit e o precipício da saída desordenada. No final de janeiro, uma moção trabalhista destinada a travar juridicamente esse desfecho foi chumbada pela Câmara, mas poderá passar se voltar a ser apresentada mais perto do prazo.

A editora de política da BBC, Laura Kuenssberg, escreveu hoje no Twitter que os defensores dessa proposta (chefiados pela trabalhista Yvette Cooper e o conservador Nick Boles) planeiam precisamente voltar ao ataque no final deste mês, podendo mesmo gozar do apoio de membros do Governo que não querem o Brexit duro. A jornalista aponta 13 de março como prazo que, nesse cenário, o Parlamento daria ao Executivo para conseguir aprovar um acordo, que quase seguramente levaria a uma saída mais suave do que a prevista no documento chumbado em janeiro. Caso contrário, forçariam May a pedir um adiamento à UE.

Corbyn quer que a primeira-ministra se comprometa a impedir o Brexit duro, que a seu ver teria custos económicos e sociais graves. Não acredita nas promessas de May aos trabalhadores e criticou o currículo do Partido Conservador: “Para muitos deles, destruir direitos é mesmo o propósito do Brexit”. O líder trabalhista não crê nas juras de colaboração multipartidária feitas por May.

“De cada vez que alguém vota contra um acordo, o risco de sair sem acordo aumenta”, afirmou a líder britânica, responsabilizando a oposição. O mesmo acontece, a mês e meio do Brexit, de cada vez que o ponteiro dos segundos avança no relógio.