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Internacional

RDC. 97 crianças já morreram devido ao segundo maior surto de Ébola

JOHN WESSELS/ Getty Images

O número pode aumentar nos próximos dias. Em janeiro, passaram de 20 casos identificados por semana para uma média de 40

Em casa, os pais nunca falaram do vírus ao filho. O Ébola era um tabu, um assunto proibido. E ele tinha medo. A história deste menino é contada pela Save the Children, uma organização não governamental que trabalha também na República Democrática do Congo (RDC). No país onde além da violência, os problemas com grupos armados e a pobreza, o Ébola está novamente a matar. Este é o segundo maior surto da história: 731 pessoas estão infetadas, 484 morreram. Destas, 97 eram crianças (65 tinham menos de cinco anos).

“Depois de uma grande campanha de sensibilização, os pais começaram a falar com ele e já não têm tanto medo e sabem como evitar”, diz Marie-Claire Mbombo, assistente social, em comunicado divulgado pela ONG. O vírus assusta-os. “Muitas crianças ficam sozinhas por diferentes razões. Nalguns casos, os pais estão no hospital ou a trabalhar nos campos. Outras crianças ficaram órfãs. Algumas estão a vender amendoins à beira da estrada. Prestamos apoio aos pais e comunidades ao discutirmos como prevenir a doença, mas também como garantir a segurança dos mais novos”, acrescenta Mbombo.

Uma das maiores preocupações da ONG britânica é que os números de infeções e, consequentemente, vítimas mortais possam aumentar nos próximos dias. Só nas últimas três semanas de janeiro, mais 120 casos foram identificados. Passaram de uma média de 20 novos casos semanais para 40.

O surto de Ébola começou em agosto de 2018 e é difícil de controlar, explica a Save the Children, devido “à insegurança e violência no leste do país, combinada com o medo e suspeita de algumas comunidades”.

“Estamos numa encruzilhada. Se não tomarmos medidas urgentes para contê-lo, o surto pode prolongar-se por mais seis meses ou por mais um ano. A República Democrática do Congo é um país com violência e conflito e uma crise alimentar extrema - cerca de 4.6 milhões de crianças estão subnutridas. A principal preocupação das pessoas é a segurança e a certeza de que têm comida. Mas o Ébola tem de ser também uma prioridade”, defende Heather Kerr, diretora das operações da ONG naquele país. “É primordial convencer as comunidade de que o Ébola é uma preocupação urgente e real. As pessoas interrompem os funerais porque não acreditam que o motivo da morte foi o vírus. O pessoal humanitário tem sido ameaçado porque acreditam que foram eles que espalharam o Ébola. Tratar as pessoas que estão doentes é essencial mas parar a disseminação do Ébola é igualmente importante”, insiste.

A possibilidade de que o vírus chegue ao Uganda, que faz fronteira a nordeste com a RDC, já motivou uma série de medidas de prevenção junto dos profissionais de saúde, voluntários, professores e pessoas em empregos mais suscetíveis à propagação. Em 2014, a África ocidental foi atingida pelo maior surto de sempre de Ébola. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, mais de 11 mil pessoas morreram.