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Michelle queria ser a “namorada de luto”. E levou Conrad a matar-se

Boston Globe/ Getty Images

“Se não o fizeres agora, não o vais fazer”, escreveu Michelle Carter ao namorado. Incentivou-o a matar-se. E disse-lhe como fazê-lo: na carrinha, num qualquer parque de estacionamento. E Conrad Carter, que já pensava na morte há muito tempo, fez como ela lhe disse. A jovem norte-americana foi condenada pelo homicídio involuntário do namorado e vai cumprir 15 meses de prisão

Conrad Roy

Já é tarde?

Não sei. Já está claro lá fora.

Vou voltar a dormir. Adoro-te. Mando mensagem amanhã.

Michelle Carter

Não? Provavelmente é o melhor momento porque toda a gente está a dormir. Vai simplesmente para algum lado na tua carrinha. E ninguém está na rua agora porque é uma hora esquisita.

Se não o fizeres agora, não o vais fazer.

E podes dizer que fazes amanhã mas, provavelmente, não o vais fazer.

Eram quase 05h quando a troca de mensagens (acima descrita) entre Conrad Roy e Michelle Carter terminou. Ele queria matar-se e ela incentivava-o (mas nem sempre foi assim). Voltariam a falar umas horas depois, quando a madrugada já dera lugar ao dia.

Michelle Carter

Vais fazê-lo hoje?

Conrad Roy

Sim. Devo?

Michelle Carter

Sim. É menos suspeito, não vais pensar tanto e fazes logo em vez de esperares pela noite.

Conrad Roy

Sim, então vou fazer. Onde?
Poderia ir para uma zona fechada.

Michelle Carter

Vai na tua carrinha e conduz até um parque de estacionamento em algum lado, para um jardim, para algum lado.

As trocas de mensagens continuaram. Conrad Roy, que tinha 18 anos, viria a suicidar-se horas depois, a 13 de julho de 2014. Conduziu na sua carrinha até um parque de estacionamento de uma superfície comercial em Fairhaven, no estado norte-americano do Massachusetts. Envenenou-se com monóxido de carbono. A troca de mensagens foi a prova usada para culpar Michelle Carter pelo homicídio involuntário de Roy. Na altura, ela tinha 17 anos. Foi condenada a dois anos e meio de cadeia, só com 15 meses de prisão efetiva. Agora, o recurso da decisão foi recusado e Michelle Carter vai mesmo ser presa.

“Este caso não está legalmente esgotado”, assegurou a defesa perante os meios de comunicação norte-americanos que se encontravam em tribunal. Carter vai recorrer ao Supremo Tribunal de Justiça.

A jovem, que era como uma namorada à distância para Roy, é acusada de incentivar o suicídio, até porque, segundo as mensagens, foi ela que o ajudou a encontrar a forma de morrer. Os procuradores consideraram-na “imprudente e irresponsável”, embora Michelle Carter tenha assegurado aos juízes que não queria que ele morresse.

Acusada em fevereiro de 2015, e condenada dois anos depois, recorreu da decisão e tem estado a aguardar em liberdade esse resultado.

O caso ficou conhecido como o “Texting Suicide Trial”, que numa tradução livre é algo como o “julgamento das mensagens suicidas”. E arrebatou a opinião pública nos EUA precisamente pelo caráter inusitado do caso. Ao longo do julgamento, Michelle assegurou que estava inocente, que não queria que o namorado morresse. Lembrou que muito antes, tentara demover Roy desta ideia. Não conseguiu. E a dado momento da relação, ponderou se a morte não seria realmente a melhor opção.

13 de julho

Boston Globe/ Getty Images

Michelle Carter

Ele ligou-me e havia muito barulho de um motor… ouvi um lamento… fiquei com ele ao telefone por uns 20 minutos… e foi só isso que ouvi… acho que ele se matou.

Michelle enviou esta mensagem, divulgada em tribunal durante o julgamento, a uma amiga no dia em que Conrad morreu.

Conrad e Michelle conheceram-se em 2012, na Florida, quando ambos visitavam familiares na zona. Mantiveram o contacto, trocavam emails e mensagens com frequência. Estiveram juntos pessoalmente apenas um par de vezes. O jornal norte-americano “The New York Times” refere que ambos eram aquilo que se considera como “jovens problemáticos” e que, em algum momento da vida, foram medicados devido a problemas de saúde mental.

Michelle começou por encorajar Conrad a procurar ajuda para lidar com a depressão. Só deixou de o fazer, repentinamente, nas duas semanas anteriores à morte do jovem. Nesse período, apenas o encorajava a matar-se. “Se achas que essa é a única maneira de seres feliz, o céu vai receber-te de braços abertos”, escreveu-lhe em julho de 2014.

Na noite anterior ao suicídio, trocaram mensagens pela madrugada, depois pela manhã e a conversa estendeu-se por todo o dia. Depois, acabaram-se as mensagens. E falaram ao telefone.

Nos últimos instantes, Conrad mudou ideias.

Michelle Carter

Sam, a morte dele é por minha culpa. Honestamente, podia tê-lo impedido. Estava ao telefone com ele e ele saiu do carro porque estava com medo.

Ao telefone, foi Michelle que lhe disse: “volta para dentro do carro”. A própria admitiu isso mesmo em mensagens que trocou com a amiga Sam. E foram essas mensagens que provaram a sua culpa. Embora a defesa tenha argumentado que não eram prova suficientemente forte, o juiz não concordou: “Não chamou a polícia ou a família de Roy. Não chamou ninguém. E, em última instância, nem o instruiu a não fazê-lo”. Habitualmente, em casos de suicídio, não há culpados sendo o ato de tirar a própria vida considerado, aos olhos da lei, o resultado da vontade da pessoa.

Conrad Roy já trabalhava no negócio da família e conseguira a licença para conduzir barcos havia pouco tempo. Conrad sofria, alegadamente, abusos físicos por parte do pai e verbais por parte do avó. Michelle Carter era estudante do ensino secundário, sofria de ansiedade e, descreve a imprensa norte-americana, procurava a constante aprovação das pessoas que a rodeavam.

Os procuradores acreditam que Michelle queria que Conrad se matasse porque desejava a simpatia dos outros pelo seu futuro estatuto de “namorada de luto”. A defesa assegurou que Michelle não era mais que uma adolescente ingénua que queria ajudar os outros.