Internacional

Brexit. E agora? Segundo referendo? May é afastada “à força”? Seis cenários para os próximos dias

15 janeiro 2019 21:18

Ana França

Ana França

Jornalista

pedro cordeiro

Será May afastada à força pelos seus deputados depois de um resultado tão devastador? Não, eles não podem fazer nada. E a opção de um segundo referendo? Por que razões também não parece a mais apetecível, nem para os membros da oposição? Aqui ficam seis cenários possíveis para os próximos capítulos do Brexit

15 janeiro 2019 21:18

Ana França

Ana França

Jornalista

O acordo de Theresa May com Bruxelas para a saída do Reino Unido da União Europeia foi rejeitado pela maioria dos deputados. E uma maioria oposicionista capaz de tornar Narciso num homem humilde. A primeira-ministra britânica conseguiu apenas 202 votos de apoio, contra os 432 contra. É a maior derrota de um político na história de Westminster. De entre os deputados que se manifestaram contra o acordo conseguido com os parceiros de Bruxelas estão 118 conservadores, o próprio partido de May. Também aqui há mais um recorde: nunca tantos deputados se revoltaram contra o seu próprio partido num voto parlamentar.

Este foi o voto mais importante a acontecer na Câmara dos Comuns britânica desde o início do novo milénio. Há quem diga até que foi o mais importante desde a Segunda Guerra Mundial porque a influência do resultado que saiu dos corredores do Palácio de Westminster vai estender-se para lá das fronteiras do país onde o voto aconteceu - e durante décadas vamos continuar a falar dele. No próximo capítulo deste apaixonante thriller político podemos esperar um dos seguintes seis cenários:


Cenário #1: o Artigo 50.º é prolongado

É quase uma necessidade porque este resultado tem pelo menos uma consequência imediata: a extensão do tempo de negociação. A UE já disse estar disponível para este cenário e, neste caso, o Artigo 50.º, que prevê o fim da permanência de um país no bloco europeu, não seria acionado até julho. Se no horizonte se começar a desenhar a possibilidade de um segundo referendo, ou mesmo de uma eleição geral, então a UE pode conceder ainda mais tempo.

Cenário #2: Emerge um plano B

Têm surgido algumas vozes a favor de um “plano B”, ou seja, o abandono total do acordo que agora existe, ou de uma parte significativa dele, em benefício de um novo acordo que envolvesse todos os partidos, talvez tendo como base o “modelo norueguês”. O problema é que esse modelo pressupõe algumas coisas em relação às quais os conservadores se têm mostrado irreversivelmente contra como, por exemplo, a livre circulação de pessoas e a contínua contribuição para o “budget” comum da UE.

Cenário #3: May é afastada “à força”

O Partido Conservador pode tentar remover May do seu posto - o resultado foi suficientemente atordoante para isso - mas como esse mesmo partido (ou, melhor, os seus membros mais eurocéticos) decidiu mover-lhe uma moção de censura e perder esse processo, a primeira-ministra está agora "trancada" no lugar até dezembro de 2019. Sim, os estatutos dos conservadores dizem que um líder que vença uma moção de censura não pode ser afastado do cargo durante um ano. Sim, os eurocéticos que detestam o acordo Brexit de May decidiram tentar na mesma. E perderam. E agora não há ninguém que a possa fazer sair, só ela mesma.

Cenário #4 : Mais uma eleição geral

Theresa May cansou-se da sua posição periclitante e convocou uma eleição geral em 2017. Perdeu aí a maioria e agora depende dos unionistas irlandeses - coisa que ninguém quer - para aprovar tudo o que leva ao parlamento. Poucos em Westminster esqueceram essa lição de humildade política e por isso a aventura de uma eleição geral não agrada a toda a gente. Uma moção de censura movida pela oposição - e aprovada pela maioria - daria ao partido conservador 14 dias para encontrar um novo governo. Se não conseguissem, então sim, uma eleição geral seria convocada. Jeremy Corbyn vai tentar já na quarta-feira fazer May cair, mas votar contra o seu acordo não é votar contra todo o governo, e é pouco provável que os conservadores aceitem dar ao líder dos trabalhistas a possibilidade de vir a governar o país. A própria May pode convocar eleições, apresentando-se, como já noutras ocasiões fez, como mais coerente, responsável e preparada do que Corbyn.

Cenário #5: Segundo referendo

A enérgica campanha do pessoal do “People’s Vote” voltou a colocar a, há uns tempos, impensável hipótese de anular um ato eleitoral. Porque é disso que se trata e também é por isso que mesmo os mais liberais entre os trabalhistas têm algumas dificuldades em aceitar um segundo referendo. Afinal o povo votou pela saída. Se os trabalhistas investissem as forças da sua enorme máquina nesta opção talvez ela pudesse vencer, mas Corbyn é um dos que preferem manter a decisão do eleitorado e procurar um acordo melhor

Cenário #6: “Crashing out”

Expressão inglesa utilizada quando alguém quer dizer uma versão adulta de "está tudo perdido". É aquela opção da qual toda a gente tem medo, mas é o que pode acontecer se nada for colocado no local que o acordo de May um dia ocupou. A 29 de março de 2019, o Reino Unido não fará mais parte da União Europeia. Os conservadores já ameaçaram demitir-se se não houver acordo ou, pelo menos, abandonar as suas pastas ministeriais.