Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Nicolás Maduro desafia o mundo com a sua autocoroação

YURI CORTEZ/Getty

O seu Governo reduziu a produção petrolífera a mínimos históricos e provocou uma crise humanitária e alimentar

Daniel Lozano

“Somos uma democracia do povo, uma democracia autêntica! Eu, Nicolás Maduro Moros, sou um autêntico presidente democrata. Aqui estou, para conduzir democraticamente as rédeas do nosso país a um destino superior.” Nicolás Maduro desafiou o mundo com a sua própria autocoroação, decorridos mais de sete meses desde umas eleições presidenciais que “não foram livres nem justas”, como sustenta a União Europeia. E fê-lo diante dos juízes do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), que cumpriram fielmente as ordens dele durante os seis anos do seu primeiro mandato.

Os 28 países europeus não assistiram ao juramento, unindo-se ao isolamento internacional em que também participa a Organização de Estados Americanos (OEA), que não reconhece um presidente de facto, graças ao voto de 19 países contra os seis que continuam a apoiar Caracas.

Uma cerimónia que Maduro quis preencher com símbolos de legitimidade e constantes alusões à democracia. “Não podemos falhar e não falharemos, juro-o pela minha vida e pela minha pátria”, disse ele, culminando um extenso discurso, durante o qual repetiu os já conhecidos axiomas da revolução e as promessas de luta contra a corrupção e contra a crise económica, que até agora não deram nenhum resultado.

Mais do que os anúncios, na passada quinta-feira o mais transcendente foi o ato em si mesmo. O chefe de Estado contou com o apoio de milhares de pessoas, trazidas de todos os cantos do país, e que inclusivamente dormiram no chão das praças no centro da capital. Não faltaram os seus escassos aliados internacionais, os dirigentes revolucionários e a cúpula militar. Apesar da calor destes, sentiu-se uma estranha solidão, aquela que acompanha os personagens assinalados pela História.

Centenas de cartazes com a legenda “Eu sou presidente!”, como se fosse algo difícil de acreditar, salpicavam o caminho desde o Palácio de Miraflores até ao TSJ. O que se viveu dentro da sede deste assinala uma nova etapa para um país encurralado num labirinto sem saída, com um chefe de Estado deslegitimado para uma boa parte da América Latina, Europa, EUA e Canadá, bem como para a maioria no seu próprio país.

Em casa, Maduro conta com o repúdio da oposição, da Igreja Católica, da procuradora-geral rebelde no exílio, do chavismo dissidente, do movimento estudantil, de organizações sindicais e dos trabalhadores, além de organizações civis. E, sobretudo, do Parlamento, que conta com uma nova direção, presidida pelo deputado Juan Guaidó, um dos discípulos do preso político Leopoldo López. Todos eles insistem em definir

Maduro como usurpador, ditador e ilegítimo

Apesar de tudo, o líder bolivariano contou com o apoio incondicional dos seus escassos amigos: só estiveram presentes quatro presidentes (o boliviano Evo Morales, o cubano Miguel Díaz-Canel, o nicaraguense Daniel Ortega e o salvadorenho Salvador Sánchez Cerén), além dos dois mandatários das repúblicas pró-russas da Ossétia do Sul e da Abecásia, não reconhecidas pelas Nações Unidas.

“A Venezuela é o centro de uma guerra mundial do imperialismo”, defendeu-se o homem-forte do país, que pondera romper relações com os seus vizinhos. Maduro também ficou incomodado com a ausência europeia, repetindo as habituais acusações de colonialismo, racismo e esclavagismo antes de se gabar de que “os povos da Europa e os ‘coletes amarelos’ gostam de mim. Somos os rebeldes do mundo”. O revolucionário confessou que lhe enviaram um desses coletes, desde França, onde simbolizam os protestos contra Macron.