Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Quanto menos os incompetentes sabem, mais acham que sabem. Será o caso de Trump?

Bloomberg/GETTY

O atual presidente dos EUA reavivou o interesse num estudo de 1999 que prova esse efeito

Luís M. Faria

Jornalista

Quanto menos os incompetentes sabem, mais acham que sabem. Este é um mecanismo mental conhecido de toda a gente (incluindo os incompetentes, quando se trata de outras pessoas), mas não tem merecido a atenção pública que merece. No entanto, desde 1999 que existe um estudo em que o fenómeno é claramente demonstrado. Recentemente, por motivos de atualidade política, o estudo em causa voltou a ser objeto de atenção.

O trabalho foi publicado em 1999 no Journal of Personality and Social Psychology, uma revista de referência. Os seus autores, os psicólogos sociais David Dunning e Justin Kruger, propuseram-se testar uma hipótese enunciada em 1871 por Charles Darwin, segundo a qual a ignorância, mais do que gerar conhecimento, gera, sim, mais autoconfiança. Foram analisadas capacidades em matéria de gramática e raciocínio lógico, entre outras, e a seguir perguntou-se aos inquiridos como se avaliavam a si próprios nessas áreas relativamente aos outros participantes.

Os resultados confirmaram largamente a hipótese de trabalho. Pessoas que se incluiam nos 10 por cento menos conhecedores achavam que estavam acima de 70 por cento dos outros conhecedores. Alguns dos mais ignorantes de todos viam-se a si mesmos praticamente como especialistas. Estudos posteriores em áreas de conhecimento diferentes - xadrez, vinhos, matemática, segurança de armas de fogo - deram resultados semelhantes.

Interesse em compreender melhor o adversário

Um dos autores do estudo original, o professor Dunning, admite que o recente aumento de interesse pelo trabalho está relacionado com o atual presidente dos Estados Unidos. "Obviamente, tem a ver com Trump e os vários tratamentos que as pessoas lhe têm dado. Muito disso é político. As pessoas procuram entender o outro lado. Temos um crescimento maciço da partidarização que se tornou mais vicioso e extremo, logo as pessoas tentam arranjar uma explicação".

Entre as características de Trump que para muitas pessoas ilustram o efeito Dunning-Kruger, contam-se a quantidade de erros e mentiras que diz, ao mesmo tempo que garante conhecer perfeitamente o assunto em questão, qualquer que ele seja. Trump repete igualmente que os seus "elevados níveis de inteligência", manifestos numa escolha invariável das "melhores palavras" e aliados a um instinto absolutamente infalível - jamais admite que errou - lhe permitem descobrir sempre as soluções ideiais para os problemas.