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Congo. Portugueses em Kinshasa receiam instabilidade e insegurança

Domingo, a República Democrática do Congo escolhe o sucessor do presidente Joseph Kabila

JUNIOR D.KANNAH/ Getty images

"Faz-me muito medo". É assim que uma portuguesa a viver na República Democrática do Congo confessa o que sente na véspera das eleições presidenciais. A comunidade portuguesa está preocupada com a instabilidade em que vive o país e receia o agravamento da insegurança devido às eleições de domingo, para escolher o sucessor de Joseph Kabila

A comunidade portuguesa na República Democrática do Congo (RDCongo) está preocupada com a instabilidade em que vive o país e o agravamento da insegurança, face às eleições de domingo, que vão escolher o sucessor do Presidente Joseph Kabila.
"Faz-me muito medo, faz-me, muito sinceramente, muito medo. A insegurança, a instabilidade", contou à Lusa Ivone Cabral, a viver na RDCongo há 14 anos.
A gestora, de 58 anos, integra a comunidade de 700 portugueses que vive na RDCongo e admite que "a população está cansada do Presidente Joseph Kabila (que não pode concorrer a um novo mandato )", e "receia o que possa vir a acontecer".
Ainda assim, Ivone Cabral assinala que é necessário que algo mude no país, antiga colónia belga independente há mais de meio século.
"É urgente que as coisas mudem drasticamente. Há pessoas a morrerem de fome, que não têm dinheiro para mandar estudar os filhos, que não têm dinheiro para pagar a renda", contou a gestora à Lusa, por telefone.
"Tem que mudar, e infelizmente não vai mudar da melhor forma", antevê a portuguesa, lembrando que a expulsão, esta semana, do representante da União Europeia (UE) no país não foi vista "com bons olhos", representando um indício que considera "muito mau".

"Sabemos os riscos que corremos"

Miguel Morado tem 35 anos e nasceu em Braga. Estudou na agora encerrada escola portuguesa de Kinshasa e lembra que as dificuldades, no país, são constantes.
"A situação não está boa. Para quem tem atividades por cá, só se pretende continuar a trabalhar da melhor forma possível", contou.
"Sabemos os riscos que corremos. Tem de haver sempre muito cuidado para não se estar no local, momento e hora errada", assinalou o português, que conta já 29 anos em território congolês.
Miguel Morado, que tem atividades no país nos setores mineiro e madeireiro, espera que o país retome a normalidade depois das eleições, até "para que todos os setores da economia se relancem".
Segundo o empresário, "o país está estagnado devido a este impasse das eleições", que se arrasta desde 2016.
Os mesmos receios são comuns a outros portugueses contactados pela Lusa em Kinshasa, mas muitos optaram por não prestar declarações, por razões de segurança.
A violência foi uma constante durante a campanha eleitoral que terminou na sexta-feira, tendo a organização não-governamental (ONG) Associação Congolesa de Acesso à Justiça (ACAJ) contabilizado pelo menos dez mortos, a maioria durante comícios da oposição e em manifestações contra o candidato da coligação no poder - a Frente Comum para o Congo (FCC).
"Estes conflitos têm existido sempre, só que de forma camuflada", sublinhou a portuguesa Ivone Cabral, que assinalou a volatilidade no país.
"Num momento de raiva, num momento de ódio, num momento de ira, basta alguém dizer "ele fez-me isto" ou "ele disse aquilo", que independentemente de ser verdade ou não, os outros vão atrás, e Kinshasa é uma cidade com 17 milhões de pessoas", disse.
À Lusa, fonte oficial da embaixada de Portugal em Kinshasa garantiu a existência de condições de apoio à comunidade portuguesa nas instalações na capital congolesa, caso seja necessário.
De acordo com os mais recentes dados dos registos consulares da embaixada portuguesa, há cerca de 700 portugueses a viver na RDCongo, a grande maioria (570) na capital, Kinshasa, disse à Lusa fonte da secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas.
Há ainda uma comunidade de cerca de uma centena de portugueses na cidade de Lubumbashi e outros pequenos núcleos em Kisangani e Kananga.

21 candidatos, 2 adiamentos

Estes números representam apenas inscrições consulares, não contabilizando entradas e saídas do país.
Para as eleições de domingo são esperados cerca de 40 milhões de eleitores naquele que é o segundo país mais populoso de África.
No total, a Comissão Eleitoral Nacional Independente (CENI) da RDCongo aprovou 21 candidaturas às presidenciais, destacando-se as candidaturas de Emmanuel Ramazani Shadary, Martin Fayulu, e Félix Tshisekedi.
Inicialmente previstas para 2016, as eleições de 30 dezembro foram já adiadas duas vezes, e, além de presidenciais, irão ainda permitir a escolha de representantes parlamentares a nível nacional e provincial.
O exercício eleitoral deverá contar com cerca de 270.000 observadores nacionais e internacionais, tendo o Governo vetado a presença de algumas missões internacionais, incluindo da União Europeia e da Fundação Carter, o que leva a oposição a suspeitar da existência de fraude.

  • Bye, bye Kabila?

    O número de vezes que as eleições têm sido adiadas na RDC pressupõe o pior. Nas regiões em que o voto foi adiado para março de 2019, os cidadãos não acreditam que a verdadeira justidicação seja a guerra e o surto de ébola. Na capital, Kinshasa, não acreditam que o resultado que venha a ser apurado seja credível. Entretanto, Joseph Kabila permanece Presidente