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Internacional

EUA mantêm milhares de crianças migrantes em centros institucionais sobrelotados

ALFREDO ESTRELLA/GETTY

Cerca de 5.400 crianças migrantes retidas nos EUA estão a dormir em centros sobrelotados com mais de um milhar de menores

As autoridades norte-americanas colocaram a maioria das 14.300 crianças migrantes sob a sua alçada em centros de detenção e em estruturas de acolhimento institucionais sobrelotados com centenas ou milhares de menores, segundo uma investigação da Associated Press esta quarta-feira divulgada.

Décadas depois de os Estados Unidos (EUA) terem parado de institucionalizar as crianças porque os grandes e sobrelotados orfanatos provocavam fortes e duradouros traumas nos menores, a agência noticiosa norte-americana Associated Press (AP) avançou esta quarta-feira que o governo federal norte-americano está a seguir esse caminho para lidar com as crianças migrantes de várias faixas etárias, de bebés a adolescentes até aos 17 anos, que tem sob a sua alçada após terem sido separadas das respetivas famílias ou de terem cruzado a fronteira norte-americana sozinhas.

Neste momento, e segundo dados governamentais confidenciais a que a AP teve acesso e verificou com várias fontes, cerca de 5.400 crianças migrantes retidas nos EUA estão a dormir em centros sobrelotados com mais de 1.000 crianças.

Os mesmos dados referem que outras cerca de 9.800 crianças migrantes estão atualmente em instalações com mais de 100 crianças.

Segundo a AP, e quando comparados com os dados relativos ao período inicial do mandato do Presidente norte-americano, Donald Trump, estes novos números revelam uma grande mudança de postura e um endurecimento da atitude por parte do governo federal norte-americano em relação às crianças migrantes ao longo do último ano.

Três meses após a tomada de posse de Trump (em janeiro de 2017), o mesmo programa federal tinha cerca de 2.720 migrantes menores sob a sua alçada e a maioria estava em centros com pouco mais de algumas dezenas de crianças ou em programas de adoção.

Alguns destes menores poderão agora ser libertados mais cedo do que inicialmente previsto, uma vez que a administração Trump decidiu acabar, na terça-feira, com um conjunto de medidas processuais que estavam a atrasar a colocação destas crianças junto de familiares que vivem nos EUA.

A AP realçou que, até à data, a informação pública sobre o número de menores mantidos em cada instituição supervisionada pelo gabinete de reinstalação de refugiados tem sido limitada, incluindo para os advogados que representam as crianças.

Mesmo que os procedimentos passem agora a ser mais rápidos e as estadias das crianças nestas instituições possam ser encurtadas, especialistas e pais contactados pela AP falam em danos irreparáveis.

Muitas vezes, as crianças ficam tanto tempo nestas instituições que começam a questionar-se se foram abandonadas pelos pais.
"É uma dor que nunca conseguiremos superar", afirmou Cecilio Ramirez Castaneda, um salvadorenho que viu o seu filho de 12 anos, Omar, a ser-lhe retirado quando foi preso em junho passado no âmbito da política migratória de "tolerância zero" da administração Trump.

Esta política levou à separação de quase 3.000 crianças das respetivas famílias.

Segundo Cecilio Ramirez Castaneda, o filho Omar temeu que o pai tinha desistido dele durante os cinco meses que passou num abrigo no Estado do Texas com outras dezenas de crianças.

O salvadorenho voltou a estar com o filho em novembro passado e descobriu que Omar tinha sido hospitalizado por depressão, tinha sido medicado por razões desconhecidas e tinha partido um braço durante o período em que esteve sob a custódia do governo norte-americano.

Em declarações à AP, peritos afirmaram que a profunda ansiedade e o sentimento de desconfiança que as crianças sofrem quando estão institucionalizadas e separadas dos familiares podem causar problemas de saúde mental e física de longa duração.

Danos que podem ser especialmente perigosos para as crianças mais novas, para aquelas que ficam em instituições mais do que alguns dias e para os menores que ficam em instalações de maior dimensão e consequentemente com menos cuidados pessoais.

"Isto não é um enigma científico desconcertante. Isto é um desastre moral", referiu Jack Shonkoff, que dirige o Centro de Desenvolvimento da Criança da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

"Não importa o que uma pessoa pensa sobre a política de imigração, muito poucas pessoas odeiam crianças e estamos a permitir passivamente que coisas más aconteçam a estas crianças", reforçou o especialista.

Contactadas pela AP, as autoridades norte-americanas que tutelam esta área afirmaram que foram confrontadas com a necessidade de aumentar o número de camas disponíveis para crianças migrantes, passando de 6.500 camas para as atuais 16.000 camas.

Mark Weber, porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos norte-americano, admitiu que acolher crianças em grandes instalações não era a opção ideal, mas afirmou que era preferível à alternativa de manter as crianças em unidades das forças de segurança fronteiriça que não têm condições adequadas.

A grande maioria destes menores já cruzou a fronteira dos EUA sem os pais, numa tentativa de fugir à violência, à pobreza e à corrupção registada na América Central, mas alguns foram separados das respetivas famílias na fronteira no início deste ano.

A Casa Branca enfrentou as críticas internacionais quando foi denunciada a separação forçada de crianças das respetivas famílias na fronteira dos Estados Unidos com o México e quando foram divulgadas as imagens de crianças migrantes colocadas em gaiolas.