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Inés Madrigal foi roubada. O Tribunal espanhol provou o crime e absolveu médico responsável por “bebés roubados” durante o franquismo

Inés Madrigal foi levada dos pais em 1969 e vendida a um casal pelo médico Eduardo Vela

Anadolu Agency/Getty Images

Ficou provado, num tribunal de Madrid, que Eduardo Vela roubou Inés Madrigal e entregou-a a um casal que não podia ter filhos, em 1969. “Não pode haver prescrição de um crime quando alguém não é consciente [de que é vítima]”, defende o advogado da vítima

“O meu pai confessou que me compraram a um padre por 150 mil pesetas”

Os pais de Juan Luis não podiam ter filhos, mas alguém lhes explicou que havia uma maneira de contornar aquele infortúnio da natureza. Aragão era o lugar do ‘milagre’. O seu pai viajou de Barcelona até Saragoça para reunir-se com um padre e tornar possível aquela história impossível. Decorria o ano de 1969.

“Segundo o meu pai, o padre deu-lhe a escolher entre um menino ou uma menina e assegurou que em alguns meses o receberia”, contou ao jornal “El Mundo” Juan Luis, num trabalho que reúne vários depoimentos e conta a história dos filhos roubados durante o franquismo (e não só). “Em troca teria de pagar 150 mil pesetas pelos gastos com o parto e documentação. Nem uma palavra sobre quem seria a mãe ou porque o dava para adoção.”

Juan Luis viveu sempre com algumas reticências durante a infância. “No colégio, os meninos diziam-nos que éramos adotados [a história de Juan Luis conta também a de Antonio, em tudo semelhante], suponho que era porque as suas famílias sabiam que as nossas mães não estiveram grávidas e, de um dia para o outro, chegaram com um filho a casa.”

Um dia, Juan Luis tentou satisfazer aquela dúvida com a sua mãe. Ela negou. Era uma “barbaridade”, dizia. Ele procurou a árvore genealógica da família, estava tudo certo. Aos 18 anos, pediu uma certidão de nascimento: no papel dizia que nascera a 28 de fevereiro de 1969, nove meses antes do que dizia o papel outrora entregue ao seu pai em Saragoça. Seguiram-se os testes de ADN e as perguntas. Para além das mentiras e da certeza de terem vivido algo que não lhes pertencia viver, sabem pouco sobre a sua verdadeira família.

Este é só mais um capítulo da história que assombra Espanha e que começou esta segunda-feira a ser julgada, com a história de Inés Madrigal, que foi roubada dos seus pais em 1969 e entregue, assim sem mais nem menos, a um casal que não podia ter filhos -- "Tenho um presente para ti", disse à mãe adotiva Eduardo Vela, médico reformado de 85 anos, que foi esta segunda-feira considerado culpado dos crimes relacionados com o tráfico de crianças e em específico com o crime de roubo de Madrigal. Apesar das provas, não foi condenado, pois os crimes já prescreveram, conta o diário “El País”. Este caso prescreveu quando a denunciante, Madrigal, atingiu a maioridade. Hoje com 49 anos, a vítima levará o caso para o Supremo.

Inés Madrigal

Inés Madrigal

Anadolu Agency/Getty Images

Na altura, Vela entregou com poucos dias de vida a bebé ao casal Inés Pérez e Pablo Madrigal Revilla. O médico, explica o jornal espanhol, simulou “a existência de um parto” e desenvolveu o esquema.

Ciente da realidade, muitos anos depois, Inés Madrigal chegou a acordo com a mãe adotiva para o processo ganhar força. Inés Pérez morreu em 2016 e não pôde assistir ao desfecho do caso esta segunda-feira. “Onde quer que esteja, sei que estará muito contente”, disse Madrigal após a sentença.

O Ministério Público pedia uma indemnização de 150 mil euros para Inés Madrigal pelo crime que ficou comprovado “de forma incontestável” em tribunal: foi roubada dos seus pais. A vítima disse, durante o processo, que nem pretendia dinheiro nem ver Velo na prisão, queria sim que a sua história servisse para abrir outros casos arquivados.

“Em 50 anos, imagine todos os afetados que poderá haver”

“Estes testemunhos não pertencem a um guião de ficção”, assim lança o tema o diário “El Mundo” no tal dossier. “São histórias reais de pessoas que, em adultos, descobriram que a sua vida é uma mentira. Recém-nascidos que, no hospital, mudaram de mãos depois do pagamento dos pais adotivos. Quem foi a sua mãe real? Quem enriqueceu com a sua venda? Milhares de perguntas sem resposta que se acumulam nas suas cabeças.” As histórias não são fáceis de tragar, como se pode verificar pela leitura dos relatos de Juan Luis Moreno e Antonio Barroso, David Rodrígueez, María Labarga, Pilar e María Luisa, Miguel Morro e David Ordóñez e Paloma Mosset.

Inés Madrigal à saída do tribunal de Madrid

Inés Madrigal à saída do tribunal de Madrid

JAVIER SORIANO/GETTY IMAGES

O diário espanhol explica que estes casos - que podem chegar a 200 ou 300 mil pessoas, segundo o advogado Enrique Vila - tiveram a sua origem na luta política, durante a ditadura de Francisco Franco, já que muitos dos “apropriados” eram filhos de presas políticas e mulheres republicanas. Depois da questão política, chegou a motivação económica. O negócio. “Os casos mais numerosos deram-se entre 1963 e 1970, ainda que eu trate casos de 1943 a 1995. Em 50 anos, imagine todos os afetados que poderá haver”, disse ao “El Mundo” Francisco Tena, sociólogo e especialista na matéria.

Segundo este diário, o modo de atuar era padronizado. Primeiro havia, através de intermediários, o contacto do casal que não podia ter filhos. No primeiro encontro definia-se em que cidade teriam de ir buscar o bebé e quanto dinheiro custaria levar a cabo aquela ação. A troca acontecia normalmente em casas ou parques. Depois, o casal que recebia o bebé tinha de encontrar-se com uma parteira ou auxiliar de enfermagem, que estava ao corrente de toda a situação e que até já tinha recebido a sua parte, para falsificar a certidão de nascimento e tratar de tudo no registo civil.

“O Supremo terá uma bola importante no seu telhado”, defende Madrigal

O advogado de Madrigal, conta este artigo de “El País”, fala esta segunda-feira numa sentença “positiva” e anuncia que vai recorrer, pois não defende que “não se vai a fundo” ao aceitar a prescrição dos casos. “Não pode haver prescrição de um crime quando alguém não é consciente [de que é vítima]”, defende Guillermo Peña.

“Temos a obrigação de ir ao Supremo pelas centenas de casos que ficaram para trás. (...) O Supremo terá uma bola importante no seu telhado”, defende Madrigal. Quanto a Inés, continua sem saber quem são os seus pais biológicos.

Manifestante apoia Inés Madrigal à porta do tribunal de Madrid

Manifestante apoia Inés Madrigal à porta do tribunal de Madrid

Anadolu Agency/Getty Images