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Quem é Bolsonaro, o homem que venceu a primeira volta das eleições no Brasil?

Num comício em Curitiba, Bolsonaro mostra o “mito toy”, um boneco de si próprio com a faixa presidencial e uma metralhadora

Rodolfo Buhrer/Reuters

Desbocado, racista, homofóbico, adepto de uma intervenção militar, Jair Messias Bolsonaro é o vencedor da primeira volta das eleições no Brasil. Texto originalmente publicado na edição impressa de dia 11 de agosto de 2018

Capitão na reserva, 63 anos de idade, Bolsonaro é deputado há 28, sem intervalo, e fez entrar o Brasil no clube de países com candidatos Presidenciais de extrema-direita — como aconteceu em França ou nos EUA. O militar na reserva apresenta-se pelo pequeno Partido Social-Liberal, o nono onde já militou, e que só tem sete deputados entre 531.

Num país mergulhado numa profunda crise económica, minado por sucessivos escândalos de corrupção, e onde 43% dos eleitores estão indecisos, o espaço para o imprevisto é grande — alertam analistas. A tónica de discurso “musculado” que o caracteriza põe em delírio os seus seguidores, conhecidos por “bolsominions” (uma referência aos lacaios dos desenhos animados). A menos de dois meses das eleições de 7 de outubro, são inevitáveis os paralelismos com Donald Trump que, contra todas as previsões, acabou por ser eleito. A violência da retórica de Bolsonaro ultrapassa a do Presidente dos EUA; o agora candidato a Presidente do Brasil é conhecido por defender a pena de morte, a ditadura militar, a liberalização do porte de arma e a esterilização dos pobres; e parte para esta corrida eleitoral com a maior taxa de rejeição — 76% dos brasileiros dizem que nunca votarão nele. Um indicador quase tão determinante quanto a taxa de aprovação num sistema eleitoral que tem duas voltas.

Há 19 anos (1999), dizia ao jornal “O Estado de S. Paulo” que admirava o então Presidente venezuelano Hugo Chávez: “É uma esperança para a América Latina, e gostaria muito que essa filosofia chegasse ao Brasil. Ele vai fazer o que os militares fizeram no Brasil em 1964, com muito mais força.”

Apologia da tortura e da violação

Ao longo de 28 anos de atividade parlamentar, Bolsonaro só apresentou 176 propostas; destas, só duas chegaram a lei — uma, sobre a redução do imposto sobre eletrónica (1996), e outra sobre o uso da fosfoetanolamina sintética, conhecida como “pílula do cancro”, medicamento sem resultados comprovados que viria a ser suspenso pelo Supremo Tribunal. Em 2014, Bolsonaro foi eleito pelo estado do Rio de Janeiro; sob o tema da segurança — o homem que diz que “bandido bom é bandido morto”— não apresentou uma única proposta.

Apesar da sua medíocre prestação como deputado num Parlamento maioritariamente conservador, é conhecido no Congresso por vários processos e condenações. São os casos do elogio ao coronel Ustra, ex-comandante do DOI- CODI — polícia política do exército durante a ditadura brasileira —, que foi um dos torturadores da ex-Presidente Dilma Rousseff, ou da apologia da violação quando, há dois anos, se dirigiu à deputada do PT, Maria do Rosário, e lhe disse que não a “iria violar, porque não merece”.

Este ex-militar apresenta-se como um impoluto defensor da honestidade, apesar de ter sido eleito pelo Partido Progressista (PP), e de este partido ser o mais citado na “Operação Lava -Jato”, com 21 dos seus 50 deputados a contas com a justiça. Bolsonaro esteve 11 anos na direção do PP (saiu em 2016), e nunca se pronunciou sobre este tema. Um ano depois, admitiu numa entrevista que o PP tinha recebido dinheiro ilegal [propina] da JBS- Friboi para a campanha eleitoral de 2014: “O partido recebeu propina sim, mas qual partido que não recebe propina?”, relatava a “Folha de S.Paulo”. Ao jornal, Bolsonaro disse que foram depositados 200 mil reais (€46 mil euros) pela JBS-Friboi na conta pessoal dele, quantia que foi entregue ao partido. E o PP voltou a depositar o dinheiro na conta de Bolsonaro. “A Friboi não colocou nada na minha conta, foi o partido”, afirmou.

O “brio e aprumo militar” do candidato também são peculiares. Quando estava no ativo foi condenado por ter posto uma bomba no quartel, e sofreu várias punições por declarações e conduta impróprias (acabou absolvido no Supremo). Um documento secreto do Exército, dos anos 80, revelado pelo “Folha de S.Paulo” em 2017, referia “uma excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente”. O seu superior hierárquico à época, coronel Carlos Pellegrino, dizia que o então tenente Bolsonaro “tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado aos seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”.

Na corrida para as presidenciais de 7 de outubro, depois de muitas recusas, Bolsonaro acabou por escolher um general para vice-presidente: António Hamilton Mourão é militante do ainda mais pequeno Partido Renovador Trabalhista Brasileiro — 1 deputado em 531, e 1 senador em 81; o PRTB não tem capacidade de atrair mais eleitorado de direita porque limita o seu discurso político a sucessivos apelos à intervenção do exército. Mourão estreou-se como vice esta segunda-feira, a repetir que o Brasil herdou a “indolência” dos indígenas e a “malandragem” dos africanos. Este soundbite faz a delícias da redes sociais, onde Bolsonaro é rei, com 4,3 milhões de seguidores no Facebook, 450 mil no Twitter e 466 mil no Instagram; as redes sociais são, aliás, a sua principal fonte de propaganda e a única hipótese de passar a mensagem já que, em conjunto, o PSL e PRTB vão ter oito segundos e meio nos blocos de 12 minutos que serão transmitidos na televisão e rádio nacionais, três vezes por semana durante os 35 dias de campanha.