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Internacional

Administração Trump quer “ampliar uso de armas nucleares”

Marcha em Berlim contra o uso de armas nucleares em novembro perante escalada de tensões entre EUA e Coreia do Norte

Adam Berry

Sugestão é feita na nova Estratégia de Segurança Nacional que o Presidente norte-americano desvendou na segunda-feira, onde é sugerido que a América deve usar bombas atómicas em resposta a “ataques estratégicos não-nucleares”, incluindo “ciberataques contra infraestruturas dos EUA”

A administração de Donald Trump está empenhada em “expandir o uso de armas nucleares”, um passo previsto no novo plano estratégico de segurança apresentado pelo Presidente norte-americano na segunda-feira.

O uso de armas nucleares em resposta a “ataques estratégicos não-nucleares” é uma das várias propostas apresentadas por Trump que diferem das estratégias dos seus antecessores, num documento em que a ameaça das alterações climáticas é completamente ignorada, apresentado dias depois de o Governo ter proibido o Centro de Controlo de Doenças de usar sete palavras e expressões, entre elas “baseado em provas” e “baseado na ciência”.

A palavra “ambiente” só surge citada quatro vezes na Estratégia de Segurança Nacional (NSS), três delas para fazer referência ao “ambiente empresarial” dos Estados Unidos. Sem menções ao aquecimento global ou aos riscos que as alterações climáticas acarretam, o documento pede em vez disso aos americanos que “abracem o predomínio energético”.

Ao anunciar a NSS, Trump retratou a sua vitória eleitoral de há um ano e a sua presidência como um “ponto de viragem” na história dos EUA. “A América está de volta e em força. Estamos a reconstruir a nossa nação, a nossa confiança e o nosso lugar no mundo. Vamos defender-nos e vamos lutar pelo nosso país como nunca.”

No espaço de horas, o “lugar dos EUA no mundo” foi o de total isolamento, com a delegação norte-americana oposta aos outros 14 membros do Conselho de Segurança da ONU na hora de votar uma resolução que exigia a Donald Trump que revertesse a sua declaração de Jerusalém como a capital de Israel. (Como o país tem assento permanente no Conselho e poder de veto, a resolução não foi adotada apesar do aval da maioria, com a embaixadora dos EUA, Nikki Haley, a classificar o voto como “um insulto que não será esquecido”.)

Militarização nuclear

Sob o slogan “paz através da força”, Trump defendeu ontem a reestruturação das forças armadas por ele ordenada, que envolve o que o Presidente descreveu (falsamente) como um investimento recorde de cerca de 700 mil milhões de dólares no Orçamento de 2018.

“Reconhecemos que a fraqueza é o caminho mais certo para o conflito e que deter um poder inigualável é a melhor forma de defesa”, sublinhou o Presidente.

Na NSS, tal como no discurso de Trump, são tecidas inúmeras críticas às anteriores administrações norte-americanas desde o tempo da Guerra Fria, por terem diminuído o investimento e reduzido a importância das armas nucleares nas estratégias de segurança nacional. Trump condena igualmente o facto de os seus antecessores terem falhado em prevenir a expansão dos arsenais nucleares de adversários dos EUA, entre eles a Coreia do Norte.

“Embora as estratégias de dissuasão nuclear não possam prevenir conflitos, são essenciais para impedir ataques nucleares, ataques estratégicos não-nucleares e agressões convencionais em larga escala”, lê-se no documento.

Os ditos “ataques estratégicos não-nucleares” são uma nova categoria de ameaças contra as quais os EUA devem usar o seu armamento nuclear, é acrescentado, sob a promessa de uma Revisão da Postura Nuclear dos EUA a ser anunciada nas próximas semanas. Entre elas contam-se “ciberataques contra infraestruturas dos EUA”, de acordo com as diretivas do Departamento de Defesa apresentadas em setembro.

Neste contexto há a mencionar que, também ontem, um conselheiro de Trump publicou um artigo de opinião no “Wall Street Journal” onde responsabiliza diretamente a Coreia do Norte pelo ciberataque massivo lançado em maio contra sistemas informáticos de todo o mundo — um apontar de dedo que vai ser oficializado pela Casa Branca esta terça-feira à tarde e que deverá aumentar ainda mais a especulação de que os EUA podem estar a ponderar atacar Pyongyang com armas nucleares.

“Isto é uma pista forte [sobre o que está para vir], corresponde a uma série de rumores que temos ouvido nas últimas semanas”, diz Hans Kristensen, que dirige o projeto de informação nuclear na Federação de Cientistas Americanos. A NSS, apontou o especialista ao “Guardian”, “dá-nos um cheirinho do que aí vem com a Revisão da Postura Nuclear. O que é interessante é a expansão da missão de armas nucleares contra ataques não-nucleares. A questão é — estaremos com isso a criar mais rotas para uma potencial guerra nuclear”?