O que Portugal precisa para crescer

“Na criação de uma empresa, aconselharia que fosse feita depois de dois a sete anos numa organização”

24 novembro 2022 10:37

Ana Baptista

Joaquim Sérvulo Rodrigues e Isabel Horta Correia foram dois dos convidados do debate de quarta-feira à noite, onde estiveram também, remotamente, José Dionísio e Daniela Braga

d.r.

Decorreu esta quarta-feira à noite, na SIC Notícias, o quarto de seis debates que o Expresso e a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) estão a organizar sobre o que Portugal precisa para crescer

24 novembro 2022 10:37

Ana Baptista

Para que possam ser criadas mais empresas disruptivas e inovadoras são precisas ideias, mas também uma boa gestão e, acima de tudo, dinheiro. Mas arranjar esse investimento não é fácil. Joaquim Sérvulo Rodrigues, ​fundador da ​Armilar Venture Partners; José Dionísio, co-fundador ​do grupo Primavera; Isabel Horta Correia, economista e professora catedrática da Universidade Católica e ainda Daniela Braga​, fundadora da​​ ​Defined.ai juntaram-se esta quarta-feira à noite para falar sobre os tipos de investimento disponíveis e as dificuldades que existem em obtê-lo. Estas foram as principais conclusões.

1. O investimento adequado

  • Quando se fala de uma startup, principalmente nas áreas tecnológicas, é o capital de risco que mais investe porque, como o nome indica, “é o único que tem capacidade para arriscar” porque, explica Joaquim Sérvulo Rodrigues, paga o risco de investir em empresas que depois não conseguem ter sucesso - e que são 50% - como os rendimentos das empresas que têm muito sucesso, como os unicórnios (que são avaliados em mais de mil milhões de dólares).
  • De acordo com Isabel Horta Correia, “o sistema bancário é conservador e não é aí que se encontra financiamento para as startups”, porque “não tem condições para avaliar a ideia” que, na maior parte das vezes, é a única coisa que existe nestas startups. “Quanto mais difícil é a ideia mais difícil é de avaliar”, acrescenta.
  • Mas, diz a economista, “estas novas ideias” que fazem a economia crescer “também aparecem noutras empresas que não tecnológicas” e que não são startups, mas sim empresas consolidadas e com passado e, nesse caso, a banca já tem mais perfil para investir. Aliás, segundo Daniela Braga, “a banca de investimento também é uma possibilidade quando já há passado”, tal como os fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

€1500

milhões foi quanto os fundos estrangeiros investiram em startups em Portugal em 2021. Há cinco anos foram €200 milhões, diz Joaquim Sérvulo Rodrigues

2. Os critérios do investidor

  • O capital de risco pode ter mais apetência para investir em empresas novas, a maior parte das quais sem qualquer registo de rendimento, mas não o faz às cegas. Há critérios, diz Joaquim Sérvulo Rodrigues: “Resolve ou não um problema relevante?; a forma como resolve é melhor que as que já existem?; é fácil ou difícil de copiar?; é difícil de copiar porque é inovadora? e as pessoas que estão por trás da empresa são de confiança e têm a determinação para ter boa probabilidade de sucesso?”
  • De facto, diz José Dionísio, “estamos a falar de empreendedorismo que começa com dois jovens e às vezes estamos a ver uma maquete ou um powerpoint, mas também estamos a ver as pessoas e a confiança que nos transmitem”.
  • Outro dos critérios, conta Daniela Braga - que considera “o processo de levantamento de capital muito difícil” - está relacionado com a localização da empresa. “Se a Defined AI não estivesse nos EUA nenhum investidor português investiria em mim. Por isso é que digo a todos os empreendedores que têm de abrir um escritório nos EUA”. Contudo, para conseguir financiamento nos EUA, “também há discriminação se parte da equipa estiver na Europa”, porque não acreditam que a empresa consiga funcionar dessa forma.

“É difícil perceber o que fica cá em Portugal quando uma empresa vai para os EUA”, diz a economista Isabel Horta Correia

3. O que pode afastar os investidores

  • Daniela Braga sentiu as dificuldades de arranjar capital na pele, não só pelo processo em si e pelos critérios apertados, mas por “ser uma mulher” na área das tecnologias. Recorde-se que a Defined AI é uma empresa de inteligência artificial que cria a linguagem que usam robots como a Siri ou a Alexa para que “falem” cada vez mais como as pessoas e entendam cada vez mais pedidos, tendo até em conta diferentes dialetos.
  • Mas valeu-lhe ter criado a empresa depois de 15 anos a trabalhar numa multinacional pelo mundo fora e a ter um doutoramento. “Para mim é muito importante perceber se já trabalharam antes. Acredito pouco em empresas que nascem logo à saída da universidade, que nunca sentiram o que é uma empresa, uma responsabilidade. Na criação de uma empresa aconselharia sempre que fosse feita depois de uma experiência de dois a sete anos numa organização”, para José Dionísio.
  • De facto, diz Isabel Horta Correia, é importante haver jovens a ter estas ideias porque eles têm mais capacidade de arriscar, mas depois falta-lhes a experiência de gestão que normalmente têm as pessoas mais velhas. E apesar de ser pessoas “muito técnicas”, faltam-lhes também as “competências comerciais” para promover a ideia e a empresa, acrescenta José Dionísio, que diz que isso se aprende com experiência profissional e não na faculdade.