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O legado agridoce que o vírus deixou entre nós

20 janeiro 2023 10:15

O caos instalou-se nos hospitais da China, que só agora divulgou o número de mortes: 60 mil. Mas estes dados podem não corresponder à realidade

reuters

Covid-19: apesar de 42% dos inquiridos reconhecerem o impacto da pandemia na saúde mental, 80% optou por não fazer nada. Mas nem tudo foi mau. Consolidou-se a importância das tecnologias no SNS, como é o caso da telemedicina

20 janeiro 2023 10:15

Desde que a China levantou as restrições, cerca de 60 mil pessoas já morreram no país — entre 8 de dezembro do ano passado e 12 de janeiro de 2023 — devido à covid-19. Ao que parece os números estão aquém da realidade, pelo menos é essa a suspeita da Organização Mundial de Saúde (OMS). “Sempre que um país não partilha informação, o mundo fica mais desprotegido”, lembra Gustavo Tato Borges, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, referindo que, em contrapartida, “os dados que são conhecidos não acrescentam grau de gravidade ou preocupação extra que motive uma mudança de medidas em Portugal”. A OMS diz que devido à cobertura vacinal que se verificou na Europa, juntamente com as ondas de contágio natural que aconteceram ao longo destes três últimos anos, estamos de certa forma protegidos. Não obstante, estes números que nos chegam da Ásia lembram-nos, sobretudo, de um aspeto essencial: a covid-19 ainda está entre nós.

“A pandemia, de facto, não terminou, continua aí, e todas as alterações — inclusive as climáticas — vão causar riscos acrescidos ao aparecimento de novas pandemias”, alerta Joaquim Oliveira, presidente da Sociedade Portuguesa de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica. Mas estará o país preparado para as enfrentar? Xavier Barreto, Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, diz que para conseguirmos chegar aos doentes crónicos, manter os serviços e dar resposta a novas pandemias, “temos de reformular o nosso sistema de saúde”. Manter uma vigilância ativa — antecipar, detetar e agir a tempo de fazer frente a novas variantes — deve estar no centro das preocupações de todos os países.

Do ponto de vista do cidadão, a pandemia está longe de ser esquecida. Basta olhar para os dados do “Estudo sobre covid-29”, realizado pela GfK Metris para o Expresso, para perceber que quase todos os portugueses (96%) acreditam em futuras situações semelhantes e que mais de metade (61%) acha que pandemia não acabou. A forma como o vírus virou do avesso a nossa normalidade trouxe a descoberto a fragilidade do nosso sistema de saúde, mas também obrigou a mudanças positivas na forma de trabalhar e priorizou assuntos que estavam, há muito, na gaveta. Por exemplo, a telemedicina. Já existia mas a pandemia consolidou a sua utilização. Segundo o mesmo estudo, 20% dos cidadãos utilizam as novas plataformas digitais para tratar de questões relacionadas com a sua saúde, 23% consideram que os serviços do Ministério da Saúde, responsáveis pela implementação da telemedicina, deram orientações necessárias sobre a utilização da mesma e 50% acham que a telemedicina pode deixar de ser uma modalidade menos usada e tornar-se uma prática habitual. Mas mesmo que a tecnologia esteja entre nós, o país enfrenta outro problema: a pouca literacia digital da população. 25% dos inquiridos, em particular os que estão acima dos 55 anos, admitem ter pouca familiaridade com as tecnologias de informação. “Felizmente a tecnologia tem evoluído para se tornar mais intuitiva e o SNS tem que saber incentivar o seu uso — assim como saber utilizar os dados — de forma a aliviar o dia a dia dos utentes”, afirma Tato Borges. Outro dado curioso é que 63% consideram que o exame presencial não é comparável ao remoto, o que pode ser considerado uma barreira.

Saúde mental (finalmente) na agenda

Ninguém pode negar que a pandemia foi uma experiência complexa e, por vezes, penosa. Mas, ao nível da saúde mental, esta fez com que certas questões viessem “para a linha mediática”, garante Miguel Xavier, coordenador nacional das Políticas de Saúde Mental. A perceção pública sobre a importância da saúde mental “cresceu muito”, uma vez que de uma forma ou de outra “as pessoas se confrontaram com problemas mais ou menos significativos nesta área”, sublinha o especialista.

Os dados dizem que 91% dos inquiridos acham que a pandemia teve impacto ao nível do bem-estar e saúde mental da população em geral. 42% admitem ter sofrido alterações a este nível, sendo que destes, 80% optaram por não fazer nada e esperar que passasse,16% consultaram um médico ou especialista (67% recorreram ao médico de família; 20% ao psiquiatra; 13% ao psicólogo) e 4% dizem ter-se automedicado. Para Miguel Xavier, o impacto na saúde mental pode ser explicado por diversos fatores. Por um lado, pela sensação de risco vital associada à infeção e pelos múltiplos constrangimentos à rotina, como foi o confinamento. Por outro, pelo efeito direto da infeção a nível cerebral em pessoas com risco de aparecimento de perturbações neuropsiquiátricas ou agravamento das preexistentes. E, por último, as características prévias de personalidade, como a capacidade de resiliência, ou outros problemas psicológicos. No entanto, os estudos internacionais mostram que a maioria das pessoas não fica com sequelas, no sentido de situações clínicas persistentes. Como mostra o gráfico, os três sinais mais comuns experienciados pelos inquiridos que alegam ter sofrido alterações ao nível da saúde mental foram: ansiedade (27%), maior irritabilidade (18%) e depressão (12%). Para mitigar estes números, “os autocuidados e o apoio informal na comunidade são elementos importantes, devendo as estruturas de saúde ficar reservadas para as situações associadas a maior sofrimento ou incapacidade”, aconselha o especialista.

Durante a pandemia, além de um aumento de literacia nesta área, o estigma associado a estes problemas de saúde também diminuíram. “Cabe a todos nós evitar que este ganho tenha retrocesso”, conclui Miguel Xavier.

A covid-19 e o SNS

“Precisaríamos do dobro dos recursos para conseguir dar uma resposta adequada à pandemia”

Joaquim Oliveira
Presidente da Sociedade Portuguesa de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica

“O SNS não está mais capacitado porque não consegue captar e reter os profissionais de saúde”

Xavier Barreto
Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares

“A pandemia pôs a nu as fragilidades do SNS, como é o caso da dificuldade no acesso aos cuidados”

Luís Filipe Barreira
Vice-presidente do Conselho Diretivo da Ordem dos Enfermeiros

Repensar a Saúde

Especialistas analisaram o “Estudo sobre covid-19”, que explica quais são as perceções dos portugueses relativamente à pandemia, realizado pela GfK Metris em exclusivo para o Expresso. Um debate organizado no âmbito do projeto “Repensar a Saúde” e que contou com o apoio da Sociedade Portuguesa de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica e da Gilead.

Textos originalmente publicados no Expresso de 20 de janeiro de 2023