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Imobiliário: “O arrendamento é o nosso fracasso colectivo”

12 janeiro 2023 20:30

Ana Baptista

O primeiro de seis debates sobre o futuro da habitação foi transmitido esta quinta-feira no Facebook do Expresso

josé fernandes

O Expresso e a Era iniciam esta quinta-feira uma série de seis debates sobre o futuro da habitação e do setor imobiliário em Portugal

12 janeiro 2023 20:30

Ana Baptista

Rui Torgal, CEO da Era Portugal; Ricardo Guimarães, diretor do Confidencial Imobiliário; Paulo Caiado, presidente da APEMIP e Vera Gouveia Barros, economista do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) foram os convidados da primeira sessão desta série de debates, neste caso sobre a compra de casa em 2023. Mas quando se fala em comprar casa é quase inevitável falar de arrendamento, ou da falta dele. Estas foram algumas das conclusões, mas pode ver o debate completo aqui.

1. O arrendamento

  • Em Portugal, arrendar uma casa continua a ser visto como uma solução de último recurso. Ou para quando se está a estudar fora; ou para os jovens que ainda não têm um rendimento estável ou significativo para pedir um empréstimo; ou ainda, como tem vindo a acontecer agora, enquanto se espera que os preços e as taxas de juro parem de subir ou comecem a baixar.
  • De acordo com Rui Torgal, há também uma questão cultural da sociedade portuguesa que prefere comprar casa em vez de arrendar. Porque, como diz Paulo Caiado, a compra de uma habitação é algo muito valorizado. Mas Ricardo Guimarães nota que, para quem entra no mercado hoje, com rendimentos ainda baixos, e se depara com taxas de juro e preços altos, o arrendamento podia ser uma alternativa e não uma solução de último recurso. Ao menos, desta forma, permitiria a entrada no mercado destes jovens, “sem ser através do crédito”.
  • O problema é que não há um mercado de arrendamento. Aliás, para Ricardo Guimarães, “o arrendamento é o nosso fracasso colectivo”. “Por exemplo, a reabilitação urbana era um desafio e foi possível ir resolvendo, mas no arrendamento continua-se à procura de soluções”, acrescenta, lembrando que existem “muitas casas vazias” que podiam e deviam ser reabilitadas para arrendar.

2. Falta de confiança

  • Uma das justificações para o mercado de arrendamento não funcionar é a falta de confiança que existe do lado da oferta, ou seja, do lado dos proprietários e investidores que colocam as suas casas para arrendar, repara ainda Ricardo Guimarães.
  • De facto, de acordo com Vera Gouveia Barros, “está estudado que Portugal é um país onde existe baixa confiança entre agentes económicos e isso aplica-se ao arrendamento”.
  • Contudo, salienta que, ao contrário do que se costuma dizer “nós estamos na média europeia de proprietários”, ou seja, para a economista do ISEG não é verdade que em Portugal haja mais pessoas a comprar casa do que, por exemplo, na Noruega, que “tem mais proprietários de habitação que Portugal”.
  • “É um mito quando se diz que os países nórdicos têm mais arrendamento, os países com mais arrendamento são a Alemanha, a Áustria e a Suíça” o que se pode explicar com o facto de uma grande parte da oferta de habitação ser pública. Não por uma decisão recente, mas porque, depois da Segunda Guerra Mundial, a reconstrução foi pública.

3. Comprar casa em 2023

  • Até agora, apesar de se notar um compasso de espera maior na decisão de comprar casa, principalmente por causa das taxas de juro, repara Vera Gouveia Barros, não parece haver um aumento da procura por arrendamento, acrescenta Rui Torgal. Até porque as rendas também estão altas, precisamente pelo mesmo motivo que os preços das casas estão altos: porque não há oferta para a procura.
  • É que, mesmo com os preços e as taxas de juro a subir, associado à inflação e à quebra do poder de compra, comprar casa não é uma decisão que se possa adiar muito, diz Paulo Caiado. “O mercado imobiliário não como ir àc compras comprar fruta. O movimento que gera a compra de casa tem a ver com questões sociais e sociológicas, como o casamento, o divórcio, a morte, o nascimento. E essas coisas não se adiam”, diz.