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Impacto real da pandemia na saúde só será conhecido “nos próximos tempos”

A conversa contou com Manuel Telo de Arriaga (Direção-Geral da Saúde) e Luís Lourenço (Ordem dos Farmacêuticos), que elencaram lições sobre saúde que devem ficar no pós-pandemia
A conversa contou com Manuel Telo de Arriaga (Direção-Geral da Saúde) e Luís Lourenço (Ordem dos Farmacêuticos), que elencaram lições sobre saúde que devem ficar no pós-pandemia
José Fernandes

A covid-19 adiou consultas, novos diagnósticos e dificultou o acompanhamento médico de doentes crónicos. Para evitar danos maiores, é preciso encontrar respostas inovadoras e apostar mais na telemedicina, acreditam os especialistas que participaram esta quinta-feira no debate “Doenças crónicas e os danos colaterais da pandemia”

Francisco de Almeida Fernandes

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Milhões de consultas médicas foram canceladas durante o período crítico da pandemia, obrigando ao adiamento de cirurgias e à suspensão de milhares de exames complementares. Os dados não são novos, mas importa recordá-los quando o tema é encontrar formas de diminuir o impacto desta realidade na saúde dos portugueses – houve quem tenha sido diagnosticado mais tarde e ainda aqueles que, já diagnosticados, viram a atividade assistencial do sistema reduzida. “Muitos doentes deixaram de procurar os cuidados de saúde e de fazer o devido acompanhamento”, alerta Elsa Frazão Mateus, presidente da Liga Portuguesa Contra as Doenças Reumáticas.

A representante de um grupo específico de doentes crónicos não tem dúvidas de que os danos ainda estão, em muitos casos, por descobrir. “Iremos conhecer nos próximos tempos o impacto real”, acrescentou durante a sua intervenção, através de um vídeo pré-gravado, no debate “Doenças crónicas e os danos colaterais da pandemia”, promovido pela Angelini Pharma e ao qual o Expresso se associou. A conversa, que decorreu na tarde desta quinta-feira, contou com a presença de Luís Lourenço, presidente da Secção Sul e Regiões Autónomas da Ordem dos Farmacêuticos, e Miguel Telo de Arriaga, Chefe de Divisão de Literacia da Direção Geral da Saúde (DGS).

Manuel Telo de Arriaga acredita que as alterações do estilo de vida dos portugueses durante a pandemia podem também ter impacto na sua saúde, nomeadamente na saúde mental
José Fernandes

Certo é que vários indicadores apontam para um agravamento do estado de saúde da população. No caso das doenças crónicas, o exemplo do inquérito promovido pela Associação Portuguesa da Doença Inflamatória do Intestino aos portadores da doença de crohn mostra que 19% reporta ter sentido agravamento de sintomas durante a pandemia, e que um em cada quatro doentes garante que a covid-19 teve impacto negativo na gestão da doença. “Recuperar a saúde é um desafio complexo”, reconheceu esta tarde Miguel Telo de Arriaga. O especialista em literacia em saúde refere que além de “não termos identificado doenças”, é preciso perceber o impacto das “mudanças de estilo de vida destes últimos dois anos”.

Para lá dos efeitos, é igualmente importante encontrar estratégias para minorar as consequências na saúde da população em geral e, em particular, na saúde dos doentes crónicos. A renovação automática da prescrição de medicação para estas pessoas, bem como a possibilidade de aviar as receitas em farmácias comunitárias em vez de obrigar os utentes a irem às farmácias hospitalares, são duas medidas que constam da proposta do Orçamento do Estado para 2023, e que a Ordem dos Enfermeiros já veio salutar.

Mas há outros caminhos a seguir, nomeadamente com apoio da tecnologia e da inovação. É este, aliás, o foco da 13ª edição dos Angelini University Awards, que desafia estudantes universitários a pensar em projetos que permitam reduzir o impacto da pandemia na vida dos doentes crónicos. A iniciativa vai premiar as duas melhores ideias com €5 mil e €10 mil, mas também garantir apoio técnico à sua implementação prática. Os vencedores serão anunciados na cerimónia que decorre a 30 de novembro no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa.

Telemedicina foi eficaz durante a resposta de emergência à covid-19, mas Luís Lourenço defende que, ainda que possa ser uma ferramenta a manter, hoje os doentes têm menor comprometimento com este modelo
José Fernandes

Conheça as principais conclusões do debate desta tarde:

Mais eficiência no sistema de saúde

  • Luís Lourenço acredita que existem “várias áreas [da saúde] em que nos podemos reinventar” para melhorar o acesso aos cuidados e a sua eficácia na redução dos danos colaterais provocados pelo contexto sanitário. Contudo, alerta que “se os recursos são os mesmos, temos de os tornar mais eficientes”.
  • Entre as lições que devem ficar para o futuro, destaca a “transformação digital” que deve ser complementada com uma maior “integração” entre profissionais de saúde e os farmacêuticos. Defende que deve ser partilhada mais informação para que quem procura uma farmácia ali encontre mais e melhor apoio em termos de aconselhamento.
  • Por outro lado, o representante da Ordem dos Farmacêuticos considera que “os processos de telemedicina foram eficazes” e que, embora deva ser uma modalidade a manter, é preciso praticá-la “com cautela”. O comprometimento e nível de atenção dos doentes não são hoje, aponta, tão fortes como foram no período crítico da covid-19.
  • Já Miguel Telo de Arriaga lembra que a aposta no aumento da literacia verificado em período pandémico deve manter-se, ainda que sublinhe que não basta dar informação à população. Deve ser impulsionada a adoção de comportamentos mais saudáveis. “A literacia não se dá à colher”, diz.

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: clubeexpresso@expresso.impresa.pt

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