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Testar salva vidas. Mas pode salvar mais

23 setembro 2022 13:20

Francisco de Almeida Fernandes

Testes permitem diminuir internamentos, consultas e até mortes. Especialistas pedem acesso mais rápido

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Diagnóstico: quanto mais cedo for detetada a doença, mais rápida será a resposta clínica e mais eficaz a terapêutica. Prevenção é receita para poupar custos ao SNS, apontam peritos

23 setembro 2022 13:20

Francisco de Almeida Fernandes

Mais vale prevenir do que remediar”. A conclusão é da sabedoria popular, mas facilmente encontra aplicação em várias áreas da sociedade e a saúde é uma das principais. Álvaro Beleza, presidente da SEDES, assinala que “em Portugal somos muito bons a fazer diagnósticos e reflexões”, mas as decisões que daí resultam nem sempre veem a luz do dia. O também médico refere-se à importância de fazer chegar a inovação na saúde a quem mais dela precisa, os doentes, sem “medo da mudança” e da adoção de “novas ferramentas” trazidas pela ciência. A evolução dos meios de diagnóstico e da tecnologia que os suporta deve, defende, ser utilizada para detetar precocemente a doença e prevenir consequências adicionais. “O que queremos evitar é que as pessoas estejam doentes”, acrescenta.

Os diagnósticos in vitro — que nada mais são do que um teste de diagnóstico que recorre à análise de uma amostra biológica — são uma das principais ferramentas à disposição dos profissionais de saúde. “Há pessoas que com um diagnóstico feito rapidamente recuperam e assumem-se como normais a vida toda. Se não fizerem este diagnóstico precoce, sujeitam-se a viver com uma deficiência para toda a vida”, diz Fernando de Almeida, que usa como exemplo o “teste do pezinho”. O rastreio neonatal é utilizado em Portugal desde 1979 e tem hoje uma cobertura acima dos 99%. “Permite avaliar alterações neurológicas ou metabólicas que podem ter um impacto importante no crescimento e desenvolvimento da criança”, afirma o presidente do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA).

As vantagens na realização de testes de diagnóstico são vastas e abrangem diferentes maleitas. Desde logo, a vantagem para a qualidade de vida dos doentes, mas também para a sustentabilidade financeira do sistema de saúde. “Todas as tecnologias que conseguirmos colocar à disposição dos profissionais e que permitam evitar mais doença é extremamente positivo”, considera Joana Carvalho, vice-presidente da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). Porém, a cardiologista Maria José Rebocho, que integra a Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca (AADIC), critica a não comparticipação de um teste de diagnóstico (NT-proBNP) que permite, de forma precoce, detetar quando o coração não está a funcionar como devia. “Não há dúvidas nenhumas que deve ser feito o diagnóstico in vitro para insuficiência cardíaca”, diz. No entanto, apesar de ser recomendado pelas sociedades europeias e americanas de cardiologia, esse ato “não é comparticipado” se for pedido pelos cuidados de saúde primários — nestes casos, o custo para o doente é cerca de €40.

Os ganhos estão plasmados no estudo “Valor em Saúde — Caso de Estudo dos Diagnósticos In Vitro”, apresentado pela NOVA IMS em julho de 2021, que conclui que a sua utilização nos cuidados primários “reduz o número médio de consultas, exames e internamentos”. Sendo a insuficiência cardíaca a terceira causa de hospitalizações no país, e estando esta análise disponível nos serviços de urgência, Maria José Rebocho diz que “não faz sentido” a falta de acesso que ainda se verifica. Jorge Seguro Sanches, vice-presidente da Comissão de Saúde da Assembleia da República, acredita que existe um “défice muito grande” no planeamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS) que é preciso resolver. Eventualmente, aponta, com uma task force para a integração dos cuidados de saúde.

45 milhões de lições pandémicas

Para o presidente do INSA, a pandemia permitiu mostrar à população, aos profissionais de saúde e aos decisores políticos a importância dos testes de diagnóstico. Mas para lá da perceção pública do seu valor, Fernando de Almeida recorre aos números para argumentar que é possível, tal como nos últimos dois anos e meio de covid-19, acelerar o acesso à inovação em saúde (ver caixa). “Em março de 2020 fazíamos uma média de dois mil testes por dia e um ano e meio depois fazíamos 400 mil. É tudo fruto da inovação”, sublinha. Até hoje foram feitos cerca de “45 milhões de testes”, um feito inédito que deve servir de exemplo noutras doenças, defende.

Aumentar a deteção precoce

AVALIAÇÃO CLíNICA Para os peritos consultados no estudo “Melhor Saúde — O valor do acesso ao dia­gnóstico in vitro”, da NOVA-IMS/Roche, estas ferramentas são “uma componente fundamental” para a prática clínica e saúde pública. Ajudam na gestão da doença, no rastreio populacional e na melhoria da sustentabilidade do sistema de saúde.

500

mil é o número estimado de portugueses que, em 2060, terão um diagnóstico de insuficiência cardíaca (IC). Atualmente, os números — desatualizados, de acordo com os peritos — indicam que existem 400 mil pessoas com IC. Os custos associados à IC representam 2,6% da despesa pública em saúde, revela estudo

ACELERAR ACESSO À INOVAÇÃO

TECNOLOGIA Profissionais de saúde, investigadores, políticos e gestores dizem ser importante aumentar a velocidade de disponibilização da inovação aos doentes. Sugerem que seja criada uma via verde para a Avaliação das Tecnologias de Saúde, que assegure a análise da eficácia, da segurança e do valor dos dispositivos, à semelhança do que acontece com os medicamentos.

27

milhões de euros é a fatura que, segundo o estudo da NOVA-IMS, o SNS terá de suportar por novas hospitalizações de doentes com IC no primeiro ano após alta. Se alargados aos cuidados de saúde primários, os testes de diagnóstico BNP/NT-proBNP podem poupar €3 milhões por ano ao SNS

Repensar a Saúde

“Diagnósticos in vitro: mais acesso, mais saúde” foi o tema da conferência do Expresso com a NOVA IMS e com o apoio da Roche. Integrada no ciclo Repensar a Saúde, o debate incidiu sobre os desafios no acesso equitativo à inovação dos testes de diagnóstico in vitro e na discussão de soluções a implementar.

Textos originalmente publicados no Expresso de 23 de setembro de 2022