Projetos Expresso

Ponto de inflexão? Portugal não pode perder o comboio

1 julho 2022 13:32

A 19ª COTEC Innovation Summit juntou em Aveiro, ao longo de dois dias, figuras de diversos quadrantes da economia, indústria ou academia

rui oliveira

Transformação. As mudanças económicas globais que se avizinham colocam a indústria portuguesa perante uma oportunidade que pode redefinir o rumo do país. Uma ambição que os empresários esperam ser capazes de cumprir

1 julho 2022 13:32

Inovar, inovar, inovar. Decore este lema, porque para garantir que Portugal cumpre o seu poten­cial económico e não perde o comboio do crescimento global não há outro caminho. Foi a grande mensagem que ficou da 19ª COTEC Innovation Summit, a que o Expresso se associou, com a certeza de que há ainda muitas arestas por limar. Tem que haver um “ponto de inflexão na cultura do país. Só progredimos se tivermos mais confiança em nós”, acredita o presidente da direção da COTEC, António Rios de Amorim.

De acordo com o Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia referente a 2021, o investimento de Portugal em investigação e desenvolvimento (I&D) em percentagem do PIB permanece inferior à média europeia (1,58% vs 2,32%), o que coloca o país na 19ª posição do European Innovation Scoreboard da Comissão Europeia. O objetivo passa por atingir os 3% do PIB até 2030, e os dados mais recentes do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior mostram que em 2020 a despesa com I&D superou pela primeira vez os €3 mil milhões, o que representa um aumento de €211 milhões face ao ano transato, com o investimento das empresas a subir 15%.

“A inovação não vai parar”, sintetiza Filipe Custódio, sócio da VisionWare. Agora é hora de “replicar o que fazemos no campo corporativo na produção industrial”. Por outras palavras, é necessário alargar o que está a ser feito na digitalização de serviços aos processos produtivos. É o que acontece na Simoldes, empresa de fabricação de moldes de injeção para a indústria de plásticos, em que “todos os equipamentos das fábricas estão conectados” com uma “gestão feita em tempo real”, explica o diretor-geral, Jaime Sá. “Hoje concentramo-nos em microparagens, e não só em paragens”, exemplifica, para mostrar que a mudança permite aos colaboradores tomarem decisões mais informadas e imediatas com recurso a novas ferramentas e sensores.

Realidade aumentada, inteligência artificial, internet das coisas, tudo elementos que são cada vez mais utilizados na produção industrial, com ganhos ao nível da eficiência, e cuja aplicação ganhou um impulso considerável com a entrada em cena do 5G. “Faz diferença porque é pensado para garantir níveis de resiliência e qualidade que são necessários para aplicações industriais”, garante o administrador da NOS Comunicações, João Ricardo Moreira.

Transformar conhecimento

Segundo a Deloitte, o impacto do 5G no crescimento económico em Portugal, até 2035, será de €17 mil milhões, com João Ricardo Moreira a aproveitar para lembrar que “não é a tecnologia em si que faz a diferença, mas sim a abordagem”. Tal como a produção de conhecimento por parte das universidades é essencial, só que acompanhada da respetiva tradução para valor económico. Daí a importância dos laboratórios colaborativos, que permitem “perceber as necessidades da indústria e ter à mesa os principais stakeholders da academia”, acredita Marco Ferraz, presidente da direção do CoLAB NET4CO2. Atualmente existem 41 estruturas deste género em Portugal.

Cabe aos empresários dar resposta e aos decisores públicos oferecer as melhores condições possíveis para que a inovação ganhe mais força e permita à economia portuguesa abrir-se ainda mais ao mundo, sem esquecer riscos como a cibersegurança. Na rota da internacionalização surge o investimento em infraestruturas, com o vice-presidente do conselho de administração da CP, Pedro Guedes Moreira, a assumir que “temos muito trabalho” pela frente “na modernização da rede ferroviária” e na abertura de novas linhas. Tem sido feito um “grande investimento”, aponta o vice-presidente da Infraestruturas de Portugal, Carlos Fernandes, para melhorar as ligações entre o comércio internacional dos portos e os acessos a Espanha, por exemplo, com pouco mais de €2 mil milhões incluídos no plano Ferrovia 2020, 85% dos quais já se encontram em execução.

À visão de futuro que perpassou toda a conferência também não ficou alheia a sustentabilidade. Para Pedro Bártolo, diretor da área de logística e transporte da Sonae MC, o “compromisso é atingir a neutralidade carbónica em 2040”, com investimento “em investigação e desenvolvimento”, ao passo que Agostinho Carvalho, CEO da WeADD, defende que o “design dos produtos tem que ser repensado” e que, com engenho, “temos [Portugal] dimensão para sermos local de testes de novas soluções”, como já acontece. “Estamos a antecipar em três ou quatro anos as nossas metas de descarbonização”, revela o diretor técnico industrial da The Navigator Company, Carlos Brás, com a certeza de que neste processo “ou participamos todos ou não vamos conseguir”.

Números da inovação

3

mil milhões de euros é o valor contemplado nas Agendas para a Inovação Empresarial do PRR

42º

é o lugar ocupado por Portugal, entre 63 países, no ranking de Competitividade Mundial do Institute for Management Development, o que representa uma queda de seis lugares face a 2021

58

milhões de toneladas é o dióxido de carbono emitido em Portugal em 2020, segundo a Associação Zero, menos 10% do que no ano anterior

Frases que marcaram

“De tecnologias está o inferno cheio, há para todos os gostos. O que distingue são as novas formas de olhar para os processos”

João Ricardo Moreira
Administrador da NOS Comunicações

“A inovação não é consensual porque ainda não está generalizada na cultura de todas as empresas”

António Rios de Amorim
Presidente da COTEC

“Temos que investir em cibersegurança, pois se temos os benefícios da integração também temos os riscos”

Filipe Custódio
Sócio da VisionWare

“Somos um país um pouco esquisito. Demoramos a mexer-nos, mas quando percebemos que há uma luz avançamos logo”

José Félix Ribeiro
Economista

Economia global

As mudanças na industrialização, sustentabilidade, conhecimento e competitividade e o que significam para a economia portuguesa foram destaque na COTEC Innovation Summit, que decorreu em Aveiro, com o apoio do Expresso.

Textos originalmente publicados no Expresso de 1 de julho de 2022