Projetos Expresso

Mais de 65% dos portugueses vive com excesso de peso ou obesidade

19 outubro 2021 15:12

Francisco de Almeida Fernandes

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Margarida Borges, responsável pelo estudo sobre o custo e a carga da obesidade em Portugal, revela que foram perdidos, no ano em análise, cerca de 200 mil anos de vida com esta patologia
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Margarida Borges, responsável pelo estudo sobre o custo e a carga da obesidade em Portugal, revela que foram perdidos, no ano em análise, cerca de 200 mil anos de vida com esta patologia

josé fernandes

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No debate moderado pelo jornalista da SIC Notícias João Moleira (à esquerda), participaram Paula Freitas (SPEO), Carlos Oliveira (ADEXO), Ricardo Baptista Leite (deputado PSD) e, através de videochamada, Sara Cerdas (eurodeputada do PS)
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No debate moderado pelo jornalista da SIC Notícias João Moleira (à esquerda), participaram Paula Freitas (SPEO), Carlos Oliveira (ADEXO), Ricardo Baptista Leite (deputado PSD) e, através de videochamada, Sara Cerdas (eurodeputada do PS)

josé fernandes

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A eurodeputada Sara Cerdas (à direita, no ecrã) afirma que a União Europeia está a trabalhar para melhorar a acessibilidade dos doentes aos medicamentos e cuidados de saúde, estratégia que deverá contribuir para o combate à obesidade
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A eurodeputada Sara Cerdas (à direita, no ecrã) afirma que a União Europeia está a trabalhar para melhorar a acessibilidade dos doentes aos medicamentos e cuidados de saúde, estratégia que deverá contribuir para o combate à obesidade

josé fernandes

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António Lacerda Sales considera ser necessário "reforçar" a estratégia seguida até aqui, mas recusa uma "reorientação". Pede aposta nos cuidados de saúde primários, com reforço dos recursos humanos e criação de equipas multidisciplinares
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António Lacerda Sales considera ser necessário "reforçar" a estratégia seguida até aqui, mas recusa uma "reorientação". Pede aposta nos cuidados de saúde primários, com reforço dos recursos humanos e criação de equipas multidisciplinares

josé fernandes

Apresentado esta manhã, um novo estudo sobre o custo e a carga da doença em Portugal mostra um impacto de €1,2 mil milhões em despesas de saúde. Alterar o rumo desta patologia, diminuindo a prevalência e aumentando o acesso ao tratamento são prioridades a adotar, alertam os peritos. Estas são algumas das conclusões do debate “Por uma resposta holística e equitativa à obesidade”, promovido esta manhã pelo movimento Recalibrar a Balança com apoio do Expresso

19 outubro 2021 15:12

Francisco de Almeida Fernandes

Apesar de ser reconhecida como doença crónica em Portugal desde 2004, a obesidade continua a registar uma prevalência crescente entre a população portuguesa. “Cerca de 53% da população adulta tem excesso de peso e 1,5 milhões de portugueses são obesos”, contextualiza o secretário de Estado e Adjunto da Saúde, António Lacerda Sales. Para o governante, porém, a estratégia nacional “não necessita de ser reorientada, necessita de ser reforçada”, ainda que os participantes no debate “Por uma resposta holística e equitativa à obesidade”, realizado esta manhã, discordem em absoluto. “As medidas de prevenção primárias já vêm tarde”, considera a endocrinologista Paula Freitas.

Os dados divulgados no evento, organizado pelo movimento Recalibrar a Balança com apoio do Expresso, mostram que o custo das consequências da doença para o país é, de facto, elevado. “A obesidade só por si representa aproximadamente €13 milhões”, revelou Margarida Borges, referindo-se ao tratamento. A responsável pelo estudo sobre o custo e a carga da doença acrescenta ainda que, se for considerado o impacto da obesidade noutras doenças, o custo sobe para €1,2 mil milhões. Para uma melhor perspetiva do significado prático deste número, o montante equivale a cerca 6% do total de despesas anuais em saúde. “É um valor muito expressivo e que nos dá ideia da magnitude desta verdadeira epidemia”, afirma a também docente convidada da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

No entanto, realça, os valores apresentados por este estudo não consideram o impacto económico da doença no absentismo, na perda de produtividade e na diminuição do contributo destes doentes para a economia nacional. “No ano do estudo foram perdidos em Portugal cerca de 200 mil anos de vida, o que é uma barbaridade”, considera a especialista. A ação do poder político, da comunidade médica e até da sociedade é, por isso, urgente para mudar o paradigma. Como? As sugestões são muitas, desde a prevenção ao tratamento, passando pela melhoria das desigualdades no acesso à alimentação saudável e aos cuidados de saúde.

Conheça as principais conclusões:

Desafios a superar

  • Para António Lacerda Sales, que participou no evento através de videochamada, uma das prioridades no combate à doença “deve ser, de facto, a reorganização dos serviços de saúde para o tratamento da obesidade”. Em particular, o reforço dos recursos humanos nos cuidados de saúde primários e a criação de equipas multidisciplinares com médicos, nutricionistas e psicólogos, defende.
  • Carlos Oliveira, presidente da Associação de Doentes Obesos e Ex-obesos de Portugal (ADEXO), concorda com a urgência na criação de cuidados especializados nos centros de saúde, mas pede também que o Governo avance com a comparticipação da medicação para o tratamento da obesidade. “Se há um tratamento totalmente comparticipado para as pessoas que têm indicação para a cirurgia, por equidade para todos os portugueses os outros que não tem indicação para cirurgia têm também de ter apoio”, apela.
  • A aposta na formação para este tema junto dos profissionais de saúde é, igualmente, uma prioridade para a endocrinologista e presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), Paula Freitas. “As pessoas não estão capacitadas para abordar um problema que é tão complexo e que é uma doença crónica”, sublinha.

Ação política precisa-se

  • O deputado do PSD, Ricardo Baptista Leite, recorda que o próprio é um ex-obeso e que vive hoje com excesso de peso, reconhecendo a importância de garantir uma atuação coordenada e eficaz. “Se reduzíssemos a obesidade, teríamos um impacto nas doenças cardiovasculares, nas neoplasias, nas doenças metabólicas, além de todos os efeitos na saúde mental”, analisa. Os dados divulgados pelas associações de doentes mostram precisamente o forte impacto da obesidade no surgimento ou agravamento de outras patologias, estando associada a mais de 200 comorbilidades e 13 tipos de cancro.
  • Com um ponto de vista mais abrangente, a partir de Bruxelas, a eurodeputada do OS, Sara Cerdas, formada em saúde pública, diz que o objetivo é caminhar para “uma verdadeira União Europeia da saúde”, nomeadamente através da melhoria do acesso dos doentes aos medicamentos e aos cuidados de saúde. A estratégia comunitária “Do Prado ao Prato”, que deverá ser aprovada no parlamento europeu esta semana, pretende “fazer a diferença” na acessibilidade de alimentos saudáveis e seguros a todos os europeus, diz.
  • “Portugal tem toda a capacidade para essa transformação” do impacto da obesidade, considera Baptista Leite, que deixou a promessa de, após o fim da discussão do Orçamento do Estado na Assembleia da República, contribuir com propostas políticas nesta área da saúde.